Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 01 de dezembro de 2018

Quincy (2018): determinação nascida da adversidade

Rashida Jones entrega momentos íntimos do pai, Quincy Jones, ao mesmo tempo que revela sua personalidade determinada e cativante e sua jornada de um garoto nascido numa região pobre e perigosa de Chicago ao estrelato.

Em 14 de março de 1933 nascia Quincy Delight Jones Jr., figura que viria a se tornar um dos maiores produtores musicais de todos os tempos. Depois de décadas de carreira e ainda na ativa, sua filha Rashida Jones (“O Grinch”) se juntou a Alan Hicks para dirigir o documentário “Quincy”, que procura pintar um retrato de quem é Quincy Jones e que fatores de sua vida o levaram a ser o pai, músico, marido e produtor que se tornou.

Tendo crescido no início do século XX na zona sul de Chicago, onde aprendemos ao longo desta obra que não era uma vida fácil, Quincy, quando criança, sonhava em ser gângster – “você quer ser o que você vê”, diz o icônico produtor e compositor nos primeiros minutos do documentário. Valendo-se de fotos e vídeos da juventude do protagonista, os diretores ilustram muito bem sua infância difícil e sua dedicação à música, que o próprio diz que foi o que o salvou. Essas imagens caem muito bem com a narração do próprio Quincy e de outras celebridades da indústria fonográfica e cinematográfica relatando diversos momentos em que trabalharam juntos, tudo demonstrando as lições que ele aprendeu e que o inspiraram.

Esses momentos são muito bem intercalados com momentos da vida de Quincy na segunda década deste milênio, ambos bem misturados para mostrar que tipo de ser humano é Quincy Jones atualmente. “Saber de onde você veio ajuda você a chegar onde quer” é uma frase que ilustra muito bem sua personalidade: um workaholic absolutamente dedicado ao que faz. Com mais de 80 anos, ainda trabalha, gerencia e incentiva novos talentos musicais, determinado a empoderar uma nova geração de músicos.

Tal dedicação ao trabalho rendeu inúmeros frutos e tirou Jones da pobreza. Numa meteórica carreira, ele não só se tornou músico de renome como buscava desafios novos. Depois de dominar vários instrumentos e arranjos, quis ser condutor de orquestras, depois quis produzir filmes, compôr trilhas sonoras, e hoje é produtor de eventos. Trabalhou com grandes nomes da música como Ella Fitzgerald, Count Basie, Frank Sinatra, Michael Jackson, Will Smith… a lista parece não ter fim, mas todos parecem unanimemente conquistados por Quincy Jones, que se estabeleceu como um dos gigantes da música.

Entretanto, o ritmo de trabalho frenético e pesado constante teve seu preço. Quincy revela que o único papel que assumiu e não conseguiu ter êxito foi o de marido. Casou-se três vezes e teve filhos com cinco mulheres diferentes, geralmente por estar muito ausente dos entes queridos. Saber conciliar esses dois mundos sempre foi fonte de constante luta e sofrimento para Jones. Pode-se argumentar que não se deu voz as suas ex-esposas (com exceção de Peggy Lipton) e, assim, não há ninguém para contrastar a figura querida de Jones com as de quem passou dificuldades com ele, mas isso tornaria este documentário desnecessariamente longo. A ideia de Rashida era engrandecer o pai, não jogar um holofote sobre seus defeitos.

Sua saúde também sofreu. Teve dois aneurismas cerebrais com apenas 41 anos de idade, e passou por um coma diabético e trombose – ambos presentes no documentário, que mostra também seu desprazer em ter que abandonar bebidas alcoólicas, mas sua determinação ao seguir as ordens médicas. Certos momentos de intimidade só devem ter sido possíveis pelo fato da filha de Jones ser a diretora da obra, o que rendeu vários momentos íntimos e rotineiros que abrem boa janela para a alma da estrela.

A obra não deixa de mostrar o peso da idade em Jones, que se pega pensando em quantos amigos e colegas de profissão já faleceram, muitos mais jovens do que ele. A participação de várias celebridades que o honram engradece sua figura de gênio musical e personalidade amável e serena. Se mais delas pudessem ter dado depoimentos do que só aparecerem em eventos, teria reforçado o objetivo do documentário, mas mesmo assim há declarações o bastante, includindo de figuras já falecidas resgatadas de entrevistas gravadas anos antes.

Outro fantasma que sempre parece rondar Jones é a figura de sua mãe. Esquizofrênica, ela foi internada quando muito criança e suas aparições ao longo da vida do filho sempre foram fonte de estresse e preocupação, ilustrando sentimentos nunca totalmente resolvidos por Jones. Outra vantagem de ter um membro da família na direção do documentário, já que a câmera chega bem perto dele sem fazê-lo se sentir reprimido, e dando bastante informação sobre quem é, de fato, Quincy Jones.

Qualquer fã de música irá apreciar essa bela aula de história sobre o homem que definitivamente ajudou a moldar a cultura pop ao longo das décadas, trabalhando com ícones e lançando obras atemporais. “Quincy” engrandece Jones não só por ilustrar seu passado glorioso, mas enaltecendo sua figura que, até hoje, procura dar voz a novos talentos.

Bruno Passos
@passosnerds

Compartilhe