Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sexta-feira, 09 de novembro de 2018

Pai do Ano (Netflix, 2018): comédia que não faz rir

Produção da Netflix apresenta história mal desenvolvida, além de apresentar poucas cenas engraçadas.

A Netflix vem se destacando na produção cada vez maior de séries e filmes. A plataforma procura oferecer a maior quantidade possível de atrações para manter seus assinantes interessados em seu conteúdo. Essa fórmula traz inúmeras vantagens para o assinante, sendo a principal, claro, o vasto conteúdo pagando pouco. As consequências negativas também existem, a maior delas diz respeito a qualidade inferior de muitas dessas produções. “Pai do Ano” se encaixa mais nessa segunda característica.

Imaginem uma história sem pé nem cabeça, desenvolvida de maneira confusa, tendo personagens estranhos e poucas cenas engraçadas. Essa é a melhor descrição para esta produção. Dirigido pelo também ator Tyler Spindel (“Cada um tem a Gêmea que Merece”), o filme mostra a história de Ben (Joey Bragg, da série “Mentes Criminosas”), de volta a sua cidade natal para visitar seu pai, Wayne (David Spade, “Sandy Wexler”), enquanto aguarda para realizar entrevista de emprego em Nova York. O enredo foca então na insólita aposta envolvendo Ben e seu melhor amigo, Larry (Matt Shively, da série “Santa Clara Diet”), sobre quem ganharia um hipotético confronto entre Wayne e Mardy, pai de Larry, vivido por Nat Faxon (“Amigos da Faculdade”).

Os dois personagens são tão idiotas ao ponto de não parecerem reais. Wayne se mostra um beberrão sem noção, tomando banho pelado na caçamba da caminhonete da sua vizinha, por exemplo. Já Mardy é submisso a todos, ao ponto de deixar seu filho mais novo, Aiden (Peyton Russ, “A Stand Up Guy”), fazer o que quiser, incluindo todas as piadas entre os dois envolvendo urina, sem levantar a voz ou repreendê-lo por seus atos.

Além de Ben e Larry, o pegador do grupo, sempre com alguma garota em seus braços (ou senhoras, em uma das poucas cenas divertidas do filme), temos mais dois amigos que sempre estão juntos. Nathan (Jared Sandler, “Lá Vêm os Pais”) sonha em apreender a andar de moto, mas sempre cai. PJ, interpretado por Bill Kottkamp (“Te Pego na Saída”) parece ter problemas em se relacionar com outras pessoas.

No meio da história dos pais brigões (ou não), Ben reencontra sua paixão de infância, Meredith (Bridgit Mendler, “Muppets 2: Procurados e Amados”), em quem o garoto deu seu primeiro beijo na adolescência. Meredith o esnoba, principalmente por Ben ter saído anos atrás da cidade para ir estudar. Mas ela se mostra interessada no jovem, proporcionando a romântica cena do baile de formatura, em que os dois tentam entrar como penetras, já que perderam a festa original quando eram mais jovens.

A verdade é que o filme consegue fazer rir em poucos momentos. Suas piadas são forçadas, pois as motivações dos personagens não convencem, são fracas. O roteiro também não ajuda, apresentando diversas falhas, principalmente conforme a história se desenvolve. A briga entre Wayne e Mardy, o principal mote do longa, não se sustenta na cena seguinte, sendo esquecida por certo tempo. A trama então desenvolve a história paralela da construção de uma piscina, fato que rende a ridícula cena de Ben usar uma britadeira (feita para quebrar pedras) para cavar um buraco.

As questões técnicas de “Pai do Ano” também deixam a desejar, principalmente na cena que faz uso de realidade virtual. A reunião do presidente da empresa que Ben pretende trabalhar em Nova York não é nada mais senão simplesmente horrível.

O pai bêbado de Ben está presente em quase todas as cenas engraçadas de “Pai do Ano”. O experiente David Spade consegue dar graça ao seu Wayne. Sua atuação, apesar de ser forçada em alguns momentos, consegue fazer rir. Já o pai interpretado por Nat Faxon simplesmente não existe. Mardy é medroso, estranho, submisso e fraco, sendo praticamente impossível acreditar que exista alguém com todas essas características de verdade.

“Pai do Ano” apresenta um roteiro batido, tem motivações fracas, apresenta diversos clichês, inclusive no ápice, e tem atores e roteiro fraco. É uma comédia que não faz rir e não diverte, sendo difícil ficar uma hora e meia assistindo à produção sem dar vontade de olhar o celular ou fazer outra coisa. Talvez, a intenção da Netflix seja até agradar exatamente esse público: aquele que fica o tempo inteiro com o telefone na mão e não presta atenção no que está vendo ou no que acontece ao seu redor. Neste caso, melhor ficar no celular mesmo.

Filipe Scotti
@filipescotti

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