Cinema com Rapadura

Críticas   quinta-feira, 09 de agosto de 2018

Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo (2018): o espírito ABBA ataca novamente!

A continuação aprofunda temas, traz excelentes atuações e as boas (ótimas) e velhas músicas do quarteto sueco.

O sucesso do longa “Mamma Mia!” (2008)  não pode ser considerado uma surpresa. Baseado em um musical de imenso êxito da Broadway, que por sua vez é baseado nas canções do grupo sueco ABBA, a obra chegou carregada de expectativas que foram supridas em praticamente todos os quesitos. Uma das maiores curiosidades causadas pela obra, era sobre a qualidade das performances de atores e atrizes consagrados soltando as suas vozes ao som dos icônicos clássicos setentistas. Isso soou tão natural e tão bonito que não eram raros os relatos de salas de cinema lotadas, com toda a plateia cantando junto com os protagonistas. “Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo” não traz este mesmo interesse, o que não é mais necessário, já que trata-se de um filme que continua e honra brilhantemente o original.

Trazendo concomitantemente a história de duas personagens, em tempos diferentes, acompanhamos a chegada da jovem Donna (Lily James, de “Em Ritmo de Fuga”) na paradisíaca ilha grega em que se passa a trama, ao mesmo tempo em que seguimos a sua filha Sophie, alguns anos após os acontecimentos do primeiro longa, aprontando a festa de inauguração do hotel construído por sua mãe. As narrativas das duas se cruzam quando seus destinos ganham contornos e situações extremamente semelhantes.

O longa, apesar da leveza que pretende expor em sua primeira camada, traz diversas discussões sobre maternidade, legado e amor próprio. Donna, que é seguidamente desprezada por sua mãe Ruby Sheridan (Cher, de “Burlesque”), tenta encontrar sua própria voz através da tentativa e erro, mesmo que não os antecipe e sofra de verdade quando eles acontecem. Lutando para sobreviver, a garota constrói um legado de humanidade tão grande, que parece ser um peso para sua progênita anos depois. Sofie, sua filha, aparenta continuar abdicando de sua vida própria para “pagar” a divida de gratidão eterna que pensa existir entre ela e sua mãe. Somente aos poucos a garota entende que Donna só viveu como pôde, procurando sempre a felicidade, algo que vai aprendendo ao longo do filme.

É claro que todos estes “ensinamentos” são colocados de maneira descontraída e até divertida durante o longa, afinal a maioria deles são representados, mais uma vez, através das letras das canções do ABBA. Voltam algumas consagradas composições como Dancing Queen, Waterloo, The Name of the Game e claro, Mamma Mia, todas com pequenas alterações nos arranjos, novos intérpretes e o melhor, ganhando novos significados e mais profundidade. Novas músicas, algumas até não tão conhecidas do grupo, trazem o frescor que o filme necessita, ao mesmo tempo que ajudam a explorar as personagens. Uma cena em específico, envolvendo My love, my life, é de despedaçar o coração.

O elenco é, de novo, o grande destaque do longa. Lily James está simplesmente espetacular como a versão jovem da personagem de Meryl Streep, igualmente sublime, apesar de aparecer pouco. Ela tem um carisma no olhar e no sorriso que poucas atrizes possuem, além de cantar muito bem. James só não domina completamente a obra porque Amanda Seyfried dá conta do recado e segura muito bem a sua metade da história. Ela traz novas camadas à sua Sofie e faz com que aquela menina meio mimada do primeiro filme dê espaço para uma mulher em dúvida sobre sua vida e suas escolhas. Apesar da alegria com a volta de todo o elenco da produção anterior, a escolha dos atores que fazem as versões jovens dos três pais de Sofie, Harry (Hugh Skinner, de “Star Wars: Os Últimos Jedi “), Bill (Josh Dylan, de “Aliados”) e Sam (Jeremy Irvine, “Stonewall: Onde o Orgulho Começou”) não foi tão feliz assim, já que apesar de cantarem razoavelmente, suas interpretações são pra lá de pífias.

O diretor Ol Parker (“Agora e Para Sempre”), que juntamente com Richard Curtis (“Questão de Tempo”) e Catherine Johnson (“Mamma Mia!”), também escreveu o roteiro, traz um verniz mais cinematográfico para a franquia, construindo boas cenas e não apenas transportando o esquema do teatro para as telas, como no longa anterior. Apesar do uso exagerado de cenários digitais, o que tira um pouco da “magia grega” da obra, a sua participação é mais efetiva em tornar tudo mais coeso e menos forçado. Um destaque visível no trabalho do diretor é a criação da cena musical envolvendo Waterloo, com boas coreografias, cortes rápidos e muita graça. Já no roteiro, é aparente a mão de Curtis e sua maneira agridoce de contar histórias. Tudo é muito bonito e triste ao mesmo tempo, algo que apela imediatamente para a emoção e o coração da plateia.

“Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo” não é o caça-níqueis raso que poderia ser. Apesar de tropeçar algumas vezes no curto lore da franquia e basicamente contar a mesma história do primeiro, é um longa que expande o interior dos personagens e faz com que nos importemos ainda mais com eles. E se já é um prazer passar duas horas ouvindo música de boa qualidade, com muito valor de produção, boas interpretações e uma bonita narrativa para testemunhar, o que dizer então da alegria proporcionada pelo momento em que temos a diva Cher e Andy Garcia (“Do Jeito que Elas Querem”) cantando Fernando juntos?

Rogério Montanare
@rmontanare

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Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo (2018)

Mamma Mia! Here We Go Again - Ol Parker

Um ano após a morte de Donna (Meryl Streep), sua filha Sophie (Amanda Seyfried) está prestes a reinaugurar o hotel da mãe, agora totalmente reformado. Para tanto convida seus três "pais", Harry (Colin Firth), Sam (Pierce Brosnan) e Bill (Stellan Skarsgard) e as eternas amigas da mãe, Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski), ao mesmo tempo em que precisa lidar com a distância do marido Sky (Dominic Cooper), que está fazendo um curso de hotelaria em Nova York. O reencontro serve para desenterrar memórias sobre a juventude de Donna (Lily James), no final dos anos 70, quando ela resolve se estabelecer na Grécia.

Roteiro: Ol Parker

Elenco: Amanda Seyfried, Lily James, Christine Baranski, Julie Walters, Pierce Brosnan, Colin Firth, Stellan Skarsgård, Dominic Cooper, Meryl Streep, Andy García, Cher, Jessica Keenan Wynn, Alexa Davies, Jeremy Irvine, Hugh Skinner, Josh Dylan, Omid Djalili, Celia Imrie, Maria Vacratsis, Panos Mouzourakis

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