Cinema com Rapadura

Críticas   quarta-feira, 04 de julho de 2018

Homem-Formiga e a Vespa (2018): comédia e ação nos tamanhos certos

Pequeno em escala e gigante em diversão, o longa explora o humor e a correria de maneira inteligente e criativa.

Peyton Reed é um diretor de comédias. Sejam elas alegres e espirituosas, como em sua estreia em longas com “Teenagers: As Apimentadas”, sejam mais densas e levemente dramáticas, como em “Separados pelo Casamento”, o diretor sempre consegue extrair o melhor de seus atores para fazer o público rir. Em “Homem-Formiga”, ele assumiu repentinamente um projeto que foi total e reconhecidamente concebido por Edgar Wright (“Em Ritmo de Fuga”), um cara que tem uma assinatura forte e um estilo único. Na época, muitos diziam acreditar que as melhores partes do longa haviam sido obra de Edgar, enquanto outras, as mais burocráticas, eram trabalho de Reed. Agora, em “Homem-Formiga e a Vespa”, sem a sombra de Wright em seu caminho, o diretor mostra que a chance dada a ele lá atrás não foi em vão e que também é um cara de boas ideias e ótima execução.

Quase dois anos depois dos acontecimentos de “Capitão América: Guerra Civil”, Scott Lang (Paul Rudd) está em prisão domiciliar por ter participado da rebelião contra o governo, ao lado de Steve Rogers (Chris Evans). Sem poder entrar com contato com seus antigos aliados, dentre eles Hope Van Dyne (Evangeline Lilly) e Dr. Hank Pym (Michael Douglas), Lang passa seus dias trancado em casa, montando uma empresa de segurança e brincando com a filha. Um evento misterioso muda tudo e faz com que o Homem-Formiga precise ajudar a agora heroína Vespa e seu pai, a salvarem a antiga Vespa, perdida no mundo quântico. Apesar do tom solene da trama, a execução do longa é extremamente leve e divertida, sem ser passageira. Se a expectativa era a de que a obra seguisse a trajetória sombria de “Vingadores: Guerra Infinita”, logo nos primeiros minutos é possível perceber que o tom empregado será totalmente diferente, trazendo um ótimo complemento para o já diversificado lore do Universo Cinematográfico da Marvel.

Com um elenco afiado, as piadas do roteiro escrito por cinco roteiristas – dentre eles Chris McKenna e Erik Sommers, que escreveram os sucessos “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” e “Jumanji: Bem-Vindo à Selva”, e o próprio Paul Rudd – se encaixam perfeitamente com a ação, não trazendo aquela sensação incômoda de que as gracinhas estão interrompendo a história. Com exceção de um momento que envolve o personagem Luis (Michael Peña) e sua turma, em que o filme literalmente congela para contar uma anedota engraçadinha.

Diferente do longa anterior, onde Peña roubava o filme para si sempre que aparecia, aqui quem brilha é a dupla Evangeline Lilly e Michael Douglas, filha e pai Pym. Lilly transborda felicidade em sua atuação e mostra-se determinada a ser a maior “chutadora de bundas” do cinema de quadrinhos, enquanto Douglas deixa-se levar por uma onda gigantesca de comédia e entrega as melhores gags da produção. Apesar do estranhamento inicial de se ver um ator tão intenso, soberano dos thrillers dos anos 80 e 90 como “Instinto Selvagem” e “Atração Fatal”, em um papel leve e cheio de ironia, a sensação desaparece tão rápido quanto a língua afiada do doutor antissocial, genial e rabugento interpretado por ele.

Quem acaba não acrescentando tão positivamente para o bom andamento do filme são as novas adições do elenco. Com três personagens unidimensionais e caricatos, Laurence Fishburne (“John Wick: Um Novo Dia Para Matar”), Walton Goggins (“Tomb Raider: A Origem”) e Hannah John-Kamen (“Jogador Nº 1”), respectivamente Dr. Bill Foster, Sonny Burch e a vilã Fantasma, acabam sendo descartáveis no longa, sendo tratados apenas como meios ou obstáculos para atingir um desfecho. Apesar do visual e dos poderes bacanas da Fantasma – um tanto quanto “chupados” dos gêmeos vilões de “Matrix Reloaded” -, ela é só mais uma vilã com aspirações confusas e mal exploradas do enorme hall de péssimos arqui-inimigos de filmes de quadrinhos que possuem planos ruins.

Visualmente o longa é simples e ao mesmo tempo extraordinário. Apesar de não abusar de cenários grandiosos, explosões e destruições continentais, é nos detalhes que sobra brilhantismo. Se já era divertido acompanhar o Homem-Formiga em seu tamanho diminuto, aqui, por conta de um problema hilário pelo qual o personagem passa, a graça das cenas de ação fica para as ágeis e diversificadas mudanças de escala dos personagens e também de suas perspectivas. Em uma cena em particular, Lang muda de tamanho três vezes e é impossível não se empolgar com a desenvoltura e com o fácil entendimento de como isso ocorre. Tudo isso turbinado com dúzias de piadas que deixam tudo mais leve e fluido.

“Homem-Formiga e a Vespa” é uma continuação muito melhor do que o filme original. Talvez por ser um projeto de um homem só, talvez porque este homem só seja Peyton Reed. Apesar de ter a obrigação de “ligar” sua história com o momento dramático pelo qual o Universo Cinematográfico da Marvel está passando – e acredite, isso acontece de maneira extremamente satisfatória e fluida -, o diretor criou aqui um belo filme de heróis para chamar de seu. Divertido e inteligente, como toda a sua filmografia é.

Rogério Montanare
@rmontanare

Compartilhe

Homem-Formiga e a Vespa (2018)

Ant-Man and the Wasp - Peyton Reed

Após ter ajudado o Capitão América na batalha contra o Homem de Ferro na Alemanha, Scott Lang (Paul Rudd) é condenado a dois anos de prisão domiciliar, por ter quebrado o Tratado de Sokovia. Diante desta situação, ele foi obrigado a se aposentar temporariamente do posto de super-herói. Restando apenas três dias para o término deste prazo, ele tem um estranho sonho com Janet Van Dyne (Michelle Pfeiffer), que desapareceu 30 anos atrás ao entrar no mundo quântico em um ato de heroísmo. Ao procurar o dr. Hank Pym (Michael Douglas) e sua filha Hope (Evangeline Lilly) em busca de explicações, Scott é rapidamente cooptado pela dupla para que possa ajudá-los em sua nova missão: construir um túnel quântico, com o objetivo de resgatar Janet de seu limbo.

Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers, Andrew Barrer, Gabriel Ferrari

Elenco: Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Peña, Walton Goggins, Bobby Cannavale, Judy Greer, T.I., David Dastmalchian, Hannah John-Kamen, Abby Ryder Fortson, Randall Park, Michelle Pfeiffer, Laurence Fishburne, Michael Douglas, Divian Ladwa, Goran Kostić, Rob Archer, Sean Kleier, Benjamin Byron Davis, Michael Cerveris

Compartilhe