Cinema com Rapadura

Críticas   quinta-feira, 01 de março de 2018

A Maldição da Casa Winchester (2018): terror previsível não é terror

O filme que consegue desrespeitar o terror gótico dos anos 1970 e, ao mesmo tempo, falha em ser uma novidade para obras com mansões mal-assombradas.

O terror é um gênero que constantemente se recicla. E precisa disso, afinal, filmes que assustaram uma geração, podem não ter o mesmo impacto, anos depois. Revitalizar o estilo é fundamental para mantê-lo relevante e atual. A proposta de “A Maldição da Casa Winchester” poderia se encaixar nessa atualização. Depois de décadas com longas sobre mansões mal-assombradas, já é tempo de alguma novidade. Porém, a obra não consegue ir além das convenções.

Dirigido pelos irmão Spierig (“Jogos Mortais: Jigsaw”) a trama conta a história de Sarah Winchester (Helen Mirren, de “Velozes e Furiosos 8”). Herdeira da tradicional fábrica de armas Winchester, ela vive numa mansão que acredita ser amaldiçoada pelas vítimas dos rifles produzidos pela família, e para contê-los, constrói cômodos novos. Quando a situação parece fugir do controle, acionistas da empresa decidem enviar o médico Eric Price (Jason Clarke ,de “Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi”) para garantir que Sarah não está insana.

Michael e Peter Spierig vem tentando se firmar no cinema como novos nomes dentro do gênero de terror. Aqui, a tentativa parece promissora durante o primeiro ato. Primeiro porque não é preciso muito esforço para acreditar que a casa em questão é mal-assombrada. Sua imensidão é incômoda, e quando Price chega no local, a montagem é eficiente em demonstrar como a residência é complexa. A câmera passeia pelos cômodos e corredores, dando uma estranha noção de inferioridade da personagem num ambiente grande e confuso. Numa curta cena, o médico está sendo levado até seu quarto e a câmera é posicionada no teto para mostrar como uma simples escada tem uma aparência obscura.

Mas tudo isso se perde quando Price começa a viver a rotina da mansão. Os próprios diretores parecem não ter mais interesse em utilizar o potencial e explorar melhor os cômodos. O público se acostuma com os locais ou nem chega a sentir medo dos ambientes e o conceito de uma residência com centenas de repartimentos é irrelevante, uma vez que uma pessoa recém-chegada consegue transitar sem nenhum risco de se perder.

Enquanto isso, Helen Mirren não consegue demonstrar os horrores que a situação sugere. Seu visual remete à uma viúva num eterno sentimento de luto, talvez pelos mortos, mas isso não fica muito claro, evidenciando ainda mais a pobreza narrativa do roteiro. Mas suas atitudes não demonstram que ela realmente se importa com o que está acontecendo. A personagem se comunica com os mortos para projetar os novos cômodos, mas isso não parece despertar o interesse dos Spierig para desenvolver a ideia. São conceitos plantados pelo roteiro e ignorados nas cenas seguintes, numa tentativa desesperada de tentar acertar em algum momento.

Deixando de lado o medo construído a partir da ironia, o filme opta por abraçar o susto por si só – um recurso igualmente válido dentro do gênero -, apostando, para isso, em duas abordagens que indicam jumpscares. A primeira é o silêncio, seguido pela ênfase em determinado objeto ou em alguma repetição, como na cena em que Price está no quarto e o espelho vira sozinho algumas vezes. A outra aposta está na fotografia, mostrada quando o longa se aproveita dos diversos elementos da arquitetura eclética, esta que utiliza uma mistura orgânica de diversos estilos. O diretor de fotografia Ben Nott (“O Predestinado”) oscila entre interiores barrocos muito bem iluminados quando não quer tirar a atenção do público para algo possivelmente suspeito. Porém, quando a intenção é assustar, a fotografia escurece consideravelmente (nenhuma novidade para o gênero, diga-se), apostando no visual gótico que alguns cômodos recriam. O resultado são cenas previsíveis com sustos eficientes, porém pouco memoráveis. Ao final da obra, não há a muito do que se lembrar.

Contudo, o principal problema do longa está na forma inconsequente como trata do próprio conceito de terror. Ao mesmo tempo que o roteiro se apega aos clássicos contos que abordam um medo mais gótico sobre assombrações, há uma tentativa de criar uma história paralela envolvendo possessão, algo mal explorado e que tira o foco principal do filme. As almas que habitam a mansão deixam de ser uma ameaça e, de forma inexplicável, se envolvem na resolução da trama com um dos piores deus ex-machina que o cinema já conseguiu criar.

A consequência é que a ideia dos espíritos é irrelevante para a trama. Eles querem estar ali, mas não se sabe exatamente o motivo. E como apenas um deles realmente possui interesse em causar mal à família, os demais acabam se tornando irrelevantes, sendo facilmente ignorados pelo público. A revelação, numa tentativa frustrada de plot twist, é previsível, apesar de bem trabalhada ao longo do filme.

“A Maldição da Casa Winchester” poderia oferecer novas possibilidades para um conceito clássico do terror. A ideia de casas mal-assombradas é fascinante, mas o risco de se cair em clichês previsíveis é igualmente alta. Os irmãos Spierig tiveram a oportunidade de criar um novo clássico, porém fizeram apenas mais um longa com sustos fáceis e uma história ruim.

Robinson Samulak Alves
@rsamulakalves

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A Maldição da Casa Winchester (2018)

Winchester - Michael e Peter Spierig

Sarah Winchester (Helen Mirren) é herdeira de uma empresa de armas de fogo que está convicta de que é assombrada pelas almas mortas através do rifle da família Winchester. Após as repentinas mortes do marido e filho, ela decide construir uma mansão para afastar os espíritos. Quando o psiquiatra Eric Price (Jason Clarke) parte para avaliar o estado psicológico de Sarah, ele percebe que talvez a obsessão dela não seja tão insana assim.

Roteiro: Michael Spierig, Peter Spierig, Tom Vaughan

Elenco: Helen Mirren, Jason Clarke, Sarah Snook, Finn Scicluna-O'Prey, Emm Wiseman, Tyler Coppin, Michael Carman, Angus Sampson, Alice Chaston, Eamon Farren, Laura Brent, Bruce Spence, Adam Bowes, Xavier Gouault, Dawayne Jordan, Homero Lopez, Jeff Lipary, John Lobato, Marcus Orelias, Jeffrey W. Jenkins

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