Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente (2017): o mistério e o frio polar

Como uma bela escultura de gelo, o longa do diretor Kenneth Branagh, baseado na celebrada obra de Agatha Christie, é lindo de se ver. Entretanto é gélido, passageiro e acaba provocando um desconfortável afastamento natural.

Doze passageiros absolutamente diferentes entre si, uma pessoa brutalmente assassinada e o melhor detetive do mundo, todos presos dentro de um trem que vai da Ásia para a Europa em meados dos anos 30. São esses os personagens e o cenário para uma das histórias mais celebradas da escritora Agatha Christie, “O Assassinato no Expresso do Oriente“, que mais uma vez é adaptada para as telas grandes e desta vez pelas mãos habilidosas do shakespeariano diretor e ator Kenneth Branagh (“Cinderela”). Com um respeito ao original beirando o exagero, a obra é praticamente transposta para a tela sem adaptações, algo que pode ser excelente para os fãs do livro, porém extremamente frio e distante para os que não o conhecem ou não o leram.

Hercule Poirot, interpretado pelo próprio Branagh, é considerado o maior detetive do mundo. Com obsessão por simetria, o nobre investigador belga inicia o filme cansado de seus grandes esquadrinhamentos mundiais e parte para a Europa em busca de férias. Envolvido à contragosto em um importante caso, ele é realocado no requintado Expresso do Oriente, que o levaria diretamente ao seu destino. No entanto, uma avalanche de neve interrompe o caminho da composição e enquanto todos os passageiros e tripulação esperam a equipe de limpeza dos trilhos, estes descobrem o corpo esfaqueado de um dos ocupantes. Poirot, muito a contragosto, porém sempre determinado em desvendar mistérios e buscar a justiça plena, encarrega-se de investigar o crime e encontrar o culpado. No extenso leque de suspeitos, dentre outros, coabitam uma princesa reclamona (Judi Dench, de “Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha”), um solicito médico (Leslie Odom Jr., de “Esquadrão Red Tails”), uma jovem governanta (Daisy Ridley, de “Star Wars: O Despertar da Força”), uma sedutora senhora (Michelle Pfeiffer, de “Mãe!“), um professor alemão racista (Willem Dafoe, de “Death Note”), uma condessa reclusa e seu marido violento (Lucy Boynton, de “Sing Street: Música e Sonho” e o bailarino Sergei Polunin), sem contar a extensa lista de empregados, tanto da pessoa morta, quanto do próprio trem. Aparentemente nenhum deles possui motivos ou razões para assassinar alguém, porém todos eles trazem histórias confusas, que fomentam a curiosidade doentia do detetive e o fazem enveredar em um mundo de pistas.

Com uma direção de arte excelente, fotografia inventiva – afinal o filme todo se passa em um trem! –  e uma trilha sonora bela e marcante, o diretor Branagh faz o possível e o impossível para fidelizar o longa com sua fonte literária. Pouquíssimas alterações na história original podem ser verificadas aqui e ali, e essa característica tem um potencial de afastamento muito grande do público leigo à obra, pois a escrita de Christie, apesar de brilhante, é bastante técnica e distante. A resolução do assassinato, que foi baseada em um caso real de infanticídio que abalou o mundo em 1932, é tratado por ela com extrema crueza no livro, o que não soa errado em um texto todo baseado na técnica. Não obstante, em um longa, essa característica cria uma aura de desafeição muito grande à trama, fazendo que não nos importemos nenhum pouco com ela e nem com os personagens em tela.

As atuações seguem a mesma característica “fria” descrita acima e, excetuando o próprio Kenneth, que brilha e faz rir com uma interpretação divertida, brincando com as manias e fobias de seu protagonista, todos os outros atores seguem uma cartilha um tanto pueril. A proximidade do desempenho deles com o teatro é bastante latente e nem mesmo a jovem estrela Daisy Ridley consegue fugir deste padrão base e não se destaca de nenhuma forma.

“O Assassinato no Expresso do Oriente” é um filme excelente tecnicamente, que conta uma história celebrada e bastante curiosa, mas que perde pontos importantes em carisma e acolhimento. O desafio da adaptação é sempre o calcanhar de aquiles de todo realizador e a obcecação de Branagh em espelhar simetricamente na tela o livro em que se inspira, quase que sem filtros e emulando o próprio personagem, o torna indiscutivelmente divisível. Extremamente doce para os conhecedores e quase sem gosto para os “leigos”.

PS: a mise-en-scène do ato final, além da divertida e genial brincadeira fotográfica com um conhecido quadro de Leonardo da Vinci, apresenta um paralelo tão atual com a indústria cinematográfica de hoje que é possível pegar-se imaginando se a extraordinária Agatha Christie possuía uma máquina do tempo à tiracolo.

Rogério Montanare
@rmontanare

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