Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O Castelo de Vidro (2017): uma biografia de muitos

O longa que traz para as telas a autobiografia de Jeanette Walls impressiona por seu argumento e grandes interpretações, porém esbarra em direção maniqueísta e roteiro repleto de chavões.

Em tempos de super heroínas e mulheres fortes nos filmes, nada mais justo que sejamos apresentados neste momento à trajetória de Jeanette Walls nos cinemas. Escritora de sua própria biografia, Walls surpreendeu o mundo em 2005 com sua simples, porém fascinante história, que, longe de ser uma ode ao sucesso, é apenas uma declaração de amor à seus pais. Mesmo que para tal, ela não os absolva de todo o calvário pelo qual teve que percorrer e se desvencilhar para sobreviver. No longa de mesmo nome, “O Castelo de Vidro”, essa narrativa infelizmente derrapa no dramalhão e nos clichês de filmes de gênero e, se não fosse a grandeza da obra que ela adapta, dificilmente geraria algum interesse do publico maior.

Nascida em 1960 no interior do Estados Unidos, a pequena Jeanette teve uma vida difícil. Seu pai era alcoólatra, mas um idealista, e sua mãe era artista e amalucada, ambos despreocupados com a rotina doméstica, a menina e seus três irmãos precisaram se criar praticamente sozinhos. Não que não houvesse amor na casa, algo que, de maneira peculiar, era demonstrado em profusão com gestos e ensinamentos certeiros. O cotidiano da garota, entretanto, sempre foi marcado por um eclipse gigante que obscurecia e determinava os rumos da família: a desproporcional personalidade exultante de Rex Walls, seu pai. Atormentado por um passado difícil, Rex era um engenheiro brilhante que sonhava em construir com os filhos uma grande casa feita de vidro, mas que não conseguia se desprender de sua persona impulsiva e de seu vício pelo álcool. Ao casar-se com Rose Mary Walls, uma mulher que aceita a condição e entende, sem fazer perguntas, o caráter de seu marido, Rex acredita e engrandece seu papel de macho-alfa, inclusive chamando seus filhos com um som que imita o uivo de lobos, mas não sabe e também não possui forças suficientes para carregar essa responsabilidade.

Diante da complexidade dos personagens, o diretor e roteirista Destin Daniel Cretton (“Short Term 12”) acerta em cheio na escalação do elenco. Se por um lado temos a talentosíssima Brie Larson (“Kong: A Ilha da Caveira”) interpretando a Jeanette mais velha e endurecida por toda a provação que passou, por outro temos as crianças que vivem os pequenos Walls na infância e que fazem um grande trabalho ao nos emocionar em cada cena que aparecem. Naomi Watts (“Punhos de Sangue”), que à primeira vista parece até um erro de escalação, já que aparentemente não tem idade suficiente para fazer o papel de mãe de Larson, consegue passar muita verdade em sua avoada Rose Mary. Mas é Woody Harrelson (“Planeta dos Macacos: A Guerra”) que surpreende de verdade com a interpretação de Rex. O ator esbanja carisma e torna-se visível o esforço em dar estofo ao seu personagem. O histrionismo característico do ator casou perfeitamente com a personalidade expansionista do protagonista e é difícil segurar as lágrimas quando as palavras engasgam e mal conseguem ser proferidas por um Rex/Harrelson ferido emocionalmente.

Se a trama e o elenco são os pontos positivos, o roteiro e a direção de Cretton fazem exatamente o contrário. Abusando de chavões, frases de efeito e cenas vergonhosamente novelescas, o diretor não soube aproveitar o grande material que tinha em mãos. Até quando vamos assistir a cenas de abandonos em restaurantes, resoluções de conflitos em festas e correria final para absolvição dos personagens? A trilha melosa e maniqueísta, que sobe e indica os momentos de emoção, não ajuda em dar frescor ao filme. Menos mal que a fotografia seja bem executada e que a direção de arte faça um grande trabalho em retratar os lugares miseráveis por onde a família passou e também morou em sua trajetória.

Dono de uma história que emociona por sua ambiguidade, que continua conosco mesmo após o fim do filme, e também pelas interpretações inspiradas, “O Castelo de Vidro” é um longa que merece ser visto por todos. Mesmo que, para tal, seja necessário enfrentar doses e mais doses de sacarina… algo que Rex Walls jamais aprovaria.

Rogério Montanare
@rmontanare

Compartilhe