Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 06 de janeiro de 2016

No Coração do Mar (2015): uma tragédia humana em meio ao oceano

Ao contrário do que fora vendido pelo estúdio, Ron Howard não fez uma adaptação de "Moby Dick", mas sobre a tragédia humana que criou o mito.

imageDuas frases marcaram a literatura anglo-saxã dos últimos dois séculos: “Chamai-me Ismael” e “Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos“. Embora só a primeira seja de “Moby Dick”, a segunda (de Charles Dickens, em “Um Conto de Duas Cidades“), certamente se aplica a este “No Coração do Mar”, novo trabalho do diretor Ron Howard. Superprodução que foi fracasso nas bilheterias e que teve uma recepção no mínimo fria de boa parte da crítica especializada (“o pior dos tempos” para qualquer cineasta), o longa tem problemas, mas passa longe de ser um desastre.

Escrito por Charles Levitt (“Diamante de Sangue“) a partir do livro homônimo de Nathaniel Philbrick, o filme conta do naufrágio do Essex, um navio baleeiro, em 1820, com a embarcação tendo sido destruída por uma enorme baleia e como essa tragédia, décadas depois, inspirou Herman Melville (aqui vivido por Ben Whishaw) a escrever sua magnum opus, “Moby Dick”.

O forte da filmografia de Howard é quando seus longas se focam na luta do homem contra ele mesmo e em dificuldades avassaladoras. Fitas como “Apollo 13” e até mesmo “Uma Mente Brilhante” e “Rush” são provas disso. Aqui, além do leviatã literal encarado pelo tripulação do Essex, existem ainda os dilemas sociais e morais encarados pelos personagens. E é ao explorar essas circunstâncias e acontrapor seus personagens a esses monstros que o filme encontra sua excelência.

Os conflitos entre o Capitão Pollard e o imediato Owen Chase acabam levando inadvertidamente à tragédia. O primeiro, bem-nascido, mas inexperiente e inseguro, tendo conseguido o comando não por competência, mas por conta de sua posição na sociedade. Já Chase, mesmo sendo um marinheiro experiente e respeitado por seus pares, ainda é visto pelos poderosos como um forasteiro. Os embates entre eles geram alguns dos melhores momentos da projeção, justamente por ser um drama social atemporal. Ademais, Benjamin Walker e Chris Hemsworth possuem uma ótima e adversarial química. O abismo que separa o capitão e o imediato é rompido pelo destino, colocando-os em uma situação de desesperadora igualdade, onde a sobrevivência se mostra mais importante.

Convém ainda ressaltar a ótima performance de Cillian Murphy como segundo oficial e melhor amigo de Owen, com o ator irlandês transformando o que seria um coadjuvante sem muito lugar em um personagem tridimensional e que acrescenta tons ainda mais humanos aos dilemas de Pollard e Owen.

As consequências da empreitada malsucedida ainda são sentida décadas depois pelo deprimido Tom Nickerson, outrora um jovem marujo cheio de esperanças. O contraponto entre as duas versões dos personagens, seja o adolescente aventureiro vivido por Tom Holland (que fará o novo Homem-Aranha no Universo Cinematográfico da Marvel) ou o amargurado sobrevivente interpretado por um devastado Brendan Gleeson deixam o público a se perguntar como Tom se tornou esse poço de tristeza, dando uma ressonância ainda maior ao incidente no navio.

Há ainda um paralelo interessante entre o desespero da tripulação em sobreviver e o do próprio escritor Herman Melville em capturar a história de Nickerson, mas o foco neste é mesmo no sofrimento do aposentado homem do mar, com Ben Whishaw funcionando mais como um ouvinte passivo, sem muita função na história a não ser instigar Gleeson a continuar a narrar os eventos.

Ron Howard não economizou na recriação dos ambientes duros da embarcação baleeira, contando com uma direção de arte extremamente competente para tanto, bem como bons efeitos especiais. Não só sentimos o Essex como uma criatura viva (a cena em tom heróica de sua partida orquestrada pelo personagem de Hemsworth é de tirar o fôlego), como também embarcamos na dura vida de sua tripulação, especialmente nas cruéis e brutais caçadas às baleias e a quase macabra forma de retirada do óleo.

É quando Howard tem de lidar com o “monstro” que causa o desastre que o filme se perde um pouco. Sim, a destruição do Essex é capturada de forma aterrorizante e o leviatã é mostrado de forma aterrorizante, mas o roteiro insiste em colocar o animal em cena mesmo quando sua função já havia sido cumprida e parece não saber o que fazer com ele ali, especialmente porque, a partir deste ponto, o grande foco é na sobrevivência dos marujos.

O elemento obsessivo ou mesmo o confronto homem/fera (significante e significado em “Moby Dick”) são secundários aqui, tornando deslocadas as aparições posteriores da baleia. Quem espera ver algo do tipo “E saltou para o dorso branco da baleia. com toda a raiva e ódio da sua raça. Se o seu peito fosse um canhão, o seu coração teria sido disparado” irá se decepcionar.

As dores desses personagens, carregadas por atores talentosos, especialmente Chris Hemsworth e Tom Holland, tornam esse drama real, palpável. Considerando a persona cinematográfica de Hemsworth, sempre maior que a vida, vê-lo fragilizado é um choque para o público. A resolução da trama é um tanto anticlimática, mas é importante que a audiência entenda que este não é um filme sobre o mito “Moby Dick”, mas sobre a tragédia humana que criou o mito.

Thiago Siqueira
@thiago_SDF

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