Através de uma narrativa simples e ao mesmo tempo profunda, “O Lutador” oferece uma visão verdadeira e sincera sobre a vida. Nada de alucinógenos efeitos visuais ou cenas mirabolantes. Darren Aronofsky acerta em confiar na figura de Mickey Rourke seu brado contra todos aqueles que desistem frente à mais fraca garoa.
O marcante de “O Lutador” é a quase mágica convergência entre o enredo e a interpretação de Mickey Rourke. Escrito pelo iniciante Robert D. Siegel, o script, de tão simples e diria até rústico, se torna rico e verdadeiro com a sincera e apaixonada personalidade empregada pelo protagonista. Não só pela interpretação do ator, mas pela proximidade que a história vem até nossos olhos. Rourke vive o wrestling – praticante de luta-livre – Randy “The Ram” Robinson, um lutador que, após 20 anos de glamour nos ringues, sofre uma parada cardíaca e já não pode mais lutar. Decadente e inconformado com sua situação, “The Ram” luta para sobreviver financeiramente e emocionalmente, procurando conforto e apoio na família e amigos.
Qualquer semelhança com a conhecida história do boxeador Rocky Balboa, de Sylvester Stallone, é de fato mera coincidência. Nada de holofotes, lutas em Las Vegas, shows pirotécnicos, cachês milionários ou mesmo ambição à fama. O diretor Darren Aronofsky transmite ao público, de forma crua e natural, a dura vida de um lutador em meia idade que briga para viver uma vida digna e comum. E para realçar o espírito de guerreiro que esguicha de Rourke, o cult Aronofsky opta por realçar os personagens contracenando com o meio em que vivem.
Em “O Lutador” milagres não acontecem, apenas a força do ser humano é capaz de mover as barreiras. Nas batalhas contra os obstáculos, Rourke vai de carneiro (tradução de “The Ram”) a touro indomável, personificando a figura do herói moderno. Longe das divindades mitológicas da Grécia Clássica que suportavam o mundo nas costas, e distantes dos super poderosos heróis dos quadrinhos, Randy é o arquétipo do guerreiro urbano que luta contra os percalços de uma vida comum a qualquer um de nós. Ele sangra, chora, ri, cai, se levanta e luta para alcançar seus sonhos.
Enganar-se-á quem for aos cinemas esperando majestosos espetáculos de luta livre dignos da WWE (Federação Mundial de Luta-Livre), ou mesmo escutar o icônico jargão "Let's get ready to rumble!", do locutor de boxe e luta livre Michael Buffer. Randy foi, no passado, um consagrado lutador que atualmente o dinheiro das lutas nos finais de semana não é suficiente para pagar seu aluguel. Nos dias de semana, trabalha em um supermercado como carregador e alterna visitas a uma casa noturna para rever a stripper Cassidy (Marisa Tomei), amiga de longa data. Com a aproximação do aniversário de 20 anos da luta que o consagrou, contra seu rival Aiatolá (Ernest Miller), “The Ram” é convidado a uma revanche.
É importante ressaltar que Randy jamais tenta superar os jovens que lutam a seu lado. Todos sabem, até o público, que mesmo sendo uma encenação, o trabalho deve ser feito da forma mais digna possível. Todos respeitam aquilo que Randy conquistou e sempre procuram apoiá-lo. No entanto, em hora alguma o lutador deixa transparecer lágrimas ou dúvidas quanto a sua disposição ao combate. Nem mesmo o ataque cardíaco que o tirou dos ringues por algumas semanas o deixou fraco diante dos lutadores.
No hospital, ele fica sabendo que uma próxima luta poderia matá-lo. Esse é o ponto que marca a reviravolta do personagem. A partir daqui, Randy procura viver sua vida normalmente, preservando sua saúde. Sua primeira atitude é desistir da revanche de Aiatolá e declarar sua aposentadoria. Em seguida, procura o contato com sua filha Stephanie (Evan Rachel Wood), que em um primeiro momento recusa sua presença, relembrando-o da ausência enquanto criança. Sem muitas alternativas, ele se arrepende e admite que está no fim da linha e sozinho. Paralela a esta situação, sua convivência com Cassidy vai deixando de ser uma relação profissional e vai tomando rumos de aproximação amorosa.
Após uma recaída com as duas coisas que mais se importava, Randy decide retornar aos ringues, pois chega a conclusão que somente lá é realizado. Sua vida é a luta e ele se orgulha disso. Randy é um verdadeiro guerreiro e não importa o quanto digam que irá fracassar, ele sempre estará de pé para suportar o que a vida lhe joga. Mesmo perseguido pelo fantasma do passado, sabe que seu tempo se foi e que aquela ilusão não voltará mais. Aplica suas forças na única capacidade que ainda lhe resta: a vontade de viver. Seu maior inimigo é ele mesmo, sua doença cardíaca, seus preconceitos e suas limitações físicas. A falta de romantismo no roteiro concede o realismo necessário para o sucesso. No fim, Randy reacende o amor pela luta e segue mesmo com o risco de falecer. Esta é a personalidade do anti-herói encarnado. Nada de sensibilidade, responsabilidade, recompensa e glamour. A única semelhança com a lembrança tradicional de herói que temos é o colan.
Ele enfrenta o fracasso, vergonha, miséria, doença e não procura a vitória, mas sim a sobrevivência. Se sente mais vivo quando está no ringue. O público a sua volta se torna sua família. Diante das câmeras, Rourke se torna um monstro. Talvez pelo fato de antes de se tornar ator, ele tenha sido lutador profissional por quatro anos. Em harmonia com a câmera de Aronofsky, que abusa de planos médios e closes, o ator mostrou toda sua desenvoltura e carisma, mesmo que na maior parte do filme sua face esteja abatida. Outra forma de realçar a narrativa. Em grande parte do longa, o diretor usa um enquadramento traseiro a Rourke, o que nos permite captar uma proximidade e identificação com o ator.
Outro aspecto relevante são os atores coadjuvantes. Evan Rachel Wood e Marisa Tomei não tomam um grande tempo na duração do longa, porém estão presentes nos momentos fundamentais. Elas entram e saem da vida de Randy assim como tudo que lhe é apresentado, menos a luta livre. A trilha sonora também afirma essa efemeridade na vida do lutador. Por grande parte da produção, a trilha serve apenas para a composição de cena. Em ocasiões chave, a trilha fala por Randy, como na revanche contra Aitolá, em que sua apresentação ao público é acompanhada por “Sweet Child O' Mine”, do Guns N' Roses. E para abrir os créditos “The Wrestler”, composição de Bruce Springsteen, que como uma leve brisa reflete o personagem de Rourke: “Eu vendo e fico diante de cada porta. Então você viu a mim. Eu sempre saio com menos que tinha antes. Então você viu a mim. Aposto que te faço sorrir quando o sangue se espalha pelo chão”…
Com justa concordância em relação ao Leão de Ouro de Melhor Filme, no Festival de Veneza; Melhor Ator em Filme Dramático no Globo de Ouro e indicado para o Oscar de Melhor Ator, Mickey Rourke surpreende em um dos melhores filmes do ano. O sempre misterioso Aronofsky nos brinda com uma questão interessante. Ao final, aquela famosa pergunta facilmente surge na mente de qualquer um: você é feliz com o que você é?
