Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 19 de abril de 2008

Falsa Loura

"Falsa Loura" marca mais um experimento de Carlos Reichenbach no mundo feminista. O cineasta destaca sua capacidade de criar situações populachas que pendem ao brega e criam identificação com o espectador. Os erros propositais e situações piegas caracterizam a obra de Carlão, mas ainda assim pecam levemente pelo excesso.

Reichenbach aborda a vida da aparentemente auto-suficiente e arrogante Silmara (Rosane Mulholland), uma operária de uma fábrica que sustenta o pai ocioso. Mais uma vez, o cineasta mostra o lado proletário feminino, investindo em mulheres que sejam a marca da sociedade que dá duro todos os dias para se sustentar. Silmara é um ótimo exemplo dentro da fábrica. Porém, quando sai, sua beleza a torna objeto de desejo de qualquer homem e inveja de qualquer mulher.

A vida da moça ganha novas emoções quando se envolve com dois ícones musicais. Bruno de André (Cauã Reymond) é um cantor de rock que avista Silmara durante um show, e logo trata de conhecê-la melhor. Passando a viver um conto de fadas com Bruno e sendo um exemplo de ascensão para as amigas, Silmara acaba se envolvendo também com Luís Ronaldo (Maurício Mattar), cantor romântico que habita as fantasias da moça. Dessas duas experiências, Silmara vai tirar lições e aprender que a vida não é fácil.

Com uma história basicamente interessante, em uma mistura de musical com dramédia, "Falsa Loura" é a reflexão das inúmeras influências de Reichenbach, que constrói o popular sem esquecer do erudito, ou do fantasioso sem esquecer o piegas. Reichenbach mexe com o imaginário, com as fórmulas, com o tosco e com o refinado. Os números musicais transitam em momentos belos ou desgostosos. Afinal, segundo o que o próprio diretor declarou em algumas aparições de promoção ao filme, todas essas impressões e reações a priori negativas foram as intenções do longa. É esse detalhe que talvez divida o gosto do público.

Reichenbach constrói uma personagem belíssima externamente, mas que detém sensibilidade e ingenuidade internas. Assim como suas amigas, ela é sonhadora e trabalhadora. Por mais que desconfiem, Silmara não aceita que as amigas achem que ela se prostitui para ganhar dinheiro. Ela apenas diz que “economiza” para justificar a existência de grana na bolsa. Ao fim do filme, não temos uma visão do que realmente ela faz para ter tanto dinheiro, já que o trabalho na fábrica não parece ser tão bom pagador. De qualquer forma, a questão posta pelo cineasta nesses achismos paralelos à índole de Silmara revela-se interessante quando a personagem tem seu desfecho traçado. Ela acaba sendo vítima daquilo que sempre tentou fugir, e marca a idéia de que, por mais beleza ou sonhos que se tenham, nada se sabe sobre o destino.

Reichenbach sabe muito bem o que quer em cena. Ele não se importa em ser imperfeito, muito menos de aparecer apático e aparentemente despreocupado. A realidade é que cada imperfeição da película e aos exageros formam o conceito do longa. Entretanto, de um filme tão errôneo, acaba-se tendo pouco a reparar em qualidade, além de, em alguns momentos, não se fazer tão claro para o seu público. Reichenbach trabalha mistura suas inúmeras influências do cinema italiano, asiático, etc., que o tornam um diretor mais original. Entretanto, em um cinema nacional onde costuma-se ver sempre as mesmas histórias, nem todos recebem com paciência obras tão autorais quanto “Falsa Loura”. Aqueles que conseguirem captar as mensagens e as idéias principais da cabeça grandiosa do cineasta, certamente se deliciarão com a história.

Com o elenco, fica clara a liberdade que Reichenbach dá aos atores de criar, explodir e aparecer em cena. Isso é mais uma vantagem, visto que os personagens são meros clichês e, mesmo caricaturados, fáceis de encontrar por aí. A belíssima Rosane Mulholland dá o ar sensual e de guerreira para Silmara. Todas suas cenas são bem trabalhadas, principalmente quando Silmara consegue derrubar o escudo de mulher forte e mostrar toda sua sensibilidade. Vide a cena de imaginação musical com Luís Ronaldo, que ao fim vira um letreiro de karaokê ou quando conhece Bruno de André e, ao meio de uma multidão, destaca em seus olhos o encantamento com o astro, enquanto este canta “Noites Vazias”, composição de Paulo Ricardo e música mais do que coerente à trama. Não posso deixar de falar também da cena final da protagonista, com close no rosto perdido em câmera lenta.

Aliás, Cauã Reymond não decepciona cantando, ainda que seja um personagem nada encantador. Maurício Mattar veste bem o papel de ídolo maior e tem pouco tempo em cena. Djin Sganzerla é uma graça como Briducha e João Bourbonnais vive o amargurado pai da protagonista. Em destaque ainda aparecem Leo Aquila, como irmão da protagonista, e Suzanna Alves, a ex-Tiazinha, em papéis secundários. O acerto de todos esses personagens é serem banais, de uma forma que a leitura em cena seja simples e eficaz, como acontece durante todo o longa.

O que Carlão proporciona de mais interessante no filme é que, ao final, a experiência de pensar a obra é sempre prazerosa. Por mais que não seja perfeita, é sempre bom ver um cineasta refletir e fazer cinema de formas divergentes do que estamos acostumados a receber no circuito de produções nacionais. Aí está o mérito.

Diego Benevides
@DiegoBenevides

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