Entre salas infinitas e traumas pessoais, terror encontra sua melhor qualidade naquilo que não consegue explicar.
“Backrooms: Um Não-Lugar” compreende o fascínio com os mistérios das lendas de terror que viralizam na internet, mas não abraça a força do próprio conceito. O que começa como um exercício admirável de atmosfera e desorientação acaba gradualmente cedendo espaço para explicações e conflitos emocionais que nunca alcançam a mesma potência do clima de incompreensão que os cerca.
A história acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), proprietário de uma loja de móveis à beira da falência, preso em uma rotina desagradável marcada pelo isolamento. Conhecemos um pouco mais sobre seu passado em sessões com a terapeuta Mary (Renate Reinsve), personagem que também carrega suas próprias fragilidades. Quando ambos acabam conectados aos misteriosos corredores infinitos, o filme desloca seu interesse para as feridas emocionais que cada um precisa enfrentar para encontrar uma saída daquele espaço, que parece manifestar os traumas carregados por cada um.
O diretor Ken Parsons demonstra confiança ao construir a percepção de aprisionamento que permeia o longa. Planos abertos enfatizam a desorientação e a vontade irracional de explorar mais diante da imensidão dos corredores. Alguns ângulos altos parecem observar os personagens como cobaias, enquanto closes sufocantes mostram-nos enclausurados pelas paredes, criando uma experiência visual constantemente inquietante. Mesmo os momentos de aparente calmaria deixam o público em um estado de alerta quanto a uma ameaça permanente, como se cada corredor escondesse algo fora do campo de visão.
O som também é fundamental para amplificar essa tensão. O zumbido incessante das lâmpadas fluorescentes e os ruídos indefinidos que parecem surgir de lugar nenhum transformam os Backrooms em uma entidade viva. Parsons entende que o horror não precisa necessariamente ser visto para funcionar, bastando um corredor vazio e um som vindo de algum lugar para instaurar o desconforto. A paleta amarelada reforça ainda mais essa atmosfera de incerteza.
Quando o cineasta aposta nessa abordagem mais sensorial, “Backrooms” encontra seus melhores momentos. A utilização da estética found footage intensifica a imersão e produz algumas das sequências mais interessantes do filme. A câmera assume a posição dos olhos do espectador, explorando muito bem o medo do desconhecido e a angústia causada pela incapacidade de compreender o espaço ao redor.
Chiwetel Ejiofor constrói bem a figura de Clark, um homem consumido pela própria frustração e que não encontrava saídas antes mesmo de entrar naquele labirinto impossível. O ator transmite esse desgaste com naturalidade, embora algumas cenas em que ele aumenta a intensidade da atuação pareçam deslocadas na metade final. Renate Reinsve proporciona um contraponto mais vulnerável, numa clara tentativa de acrescentar humanidade a uma trama que corre o risco de se tornar excessivamente conceitual. Porém, é a sua entrada em definitivo na narrativa que marca a virada que o filme não precisava tomar.
Conforme avança, Parsons parece compelido a verbalizar as emoções e organizar todo o simbolismo apresentado até então. Os personagens passam a discutir diretamente seus traumas e a buscar interpretações para os acontecimentos, e os corredores deixam de ser uma ameaça imprevisível e passam a funcionar como metáforas. A decisão aparenta ser pensada para que o longa siga um formato mais aprazível ao público geral, que costuma rejeitar obras mais abertas. Mas deixar de lado toda a atmosfera sensorial construída na primeira hora subestima não só a sua grande força, mas também o espectador que estava embarcado até então.
Os próprios personagens não recebem desenvolvimento suficiente para sustentar o peso dramático exigido pelo roteiro. As sessões de terapia de Clark e os flashbacks de Mary fornecem informações relevantes, mas não são suficientes para criar uma conexão emocional forte com eles. Isso enfraquece o caminho que o longa decide seguir, cujo envolvimento do público com os conflitos internos dos protagonistas era fundamental para garantir o impacto das revelações finais.
A grande ironia é que “Backrooms” mostra que entende tão bem por que esse universo se tornou tão fascinante na internet, mas nunca confia plenamente nessa força. A mitologia funciona melhor como forma de sentir do que como conteúdo explicativo. E nesse universo, o medo vem justamente da sensação permanente de que essas respostas talvez nunca existam.
