Sucesso espanhol da Netflix retorna mais novelão do que nunca, com um atraco absurdamente envolvente, discursos femininos empoderados e indícios de que o fim pode estar próximo.
O assalto a Fábrica Nacional de Moeda e Timbre que tomou conta da partes 1 e 2 de “La Casa de Papel” se converteu em um dos grandes fenômenos da Netflix. A invasão orquestrada minuciosamente pelo infalível Professor e seu bando de especialistas, desde sua teoria até a prática, exibe ingredientes de um ótimo entretenimento, e apesar de deixar alguns cabos soltos pelo caminho e invocar regularmente a necessidade de descrença por parte da audiência diante de várias situações exageradas, termina com uma conclusão satisfatória e feliz para o grupo de anti-heróis carismáticos. Perante o sucesso alcançado e uma leva de fãs conquistados, o serviço de streaming e o criador da série Álex Pina avistaram uma possibilidade para continuar, e mesmo com arcos bem encerrados, por que não fazer algum ainda maior? “La Casa de Papel – Parte 3” abraça de vez o entretenimento com artifícios já conhecidos e se leva ainda menos a sério do que antes, resultando em uma temporada divertida, dançante, dramática, cheia de romance, com reviravoltas e muita atratividade.
Após concluírem com êxito o roubo a Casa da Moeda, o grupo parte para uma nova missão: sobreviver. Professor (Álvaro Morte) e Raquel (Itziar Ituño) levam uma vida sossegada num distante país asiático. Nairobi (Alba Flores) e Helsinki (Darko Peric) exploram uma grande amizade em terras sul-americanas, Denver (Jaime Lorente) e Estocolmo (Esther Acebo) desfrutam do dinheiro e do filho que nasceu, enquanto Tóquio (Úrsula Corberó) e Rio (Miguel Herrán) curtem uma ilha deserta no Caribe. Contudo, uma brecha deste último casal resulta na captura de Rio por parte da polícia, e só resta à banda se reunir novamente para armar outro golpe audacioso a fim de chamar a atenção da população e por tabela conseguir a liberdade do companheiro. A motivação para uma terceira empreitada é frágil e de fato não se justifica, mas quem liga quando o plano é deveras interessante?!
O alvo da vez é o Banco da Espanha e os lingotes de ouro que estão guardados num cofre a alguns metros abaixo do lugar. Álex Pina sabe o que o público espera – ainda que a maioria deste mesmo público nutrisse algumas dúvidas sobre a abertura de um arco que parecia estar fechado -, e entrega um produto com um conteúdo semelhante na estrutura e nos exageros, porém ambicioso o bastante para cativar e provocar indagações e teorias, afinal, de alguma maneira precisa dizer o porquê de tirar os personagens de sua zona de conforto e jogá-los aos leões. Para isso, aposta no carisma de figuras remanescentes do primeiro assalto e na introdução de novas igualmente atraentes, destaque para Rodrigo De la Serna, que confere a Palermo nuances ao assumir o posto que um dia foi do insubstituível Berlim (Pedro Alonso); e Najwa Nimri, investigadora de métodos duvidosos e adversária implacável, a qual o roteiro atribui de maneira bem humorada e sagaz uma sensibilidade por conta da gravidez.
Incapaz de corrigir as fraquezas tão evidentes nas primeiras temporadas, o roteiro desenvolvido por Pina (“Kamikaze”) – e com a contribuição de outras nove pessoas – permanece sua investida descarada no ilogismo das ações e consequências (por exemplo as constantes saídas fáceis, como construir em apenas quatro horas um enorme forno industrial para derreter o ouro), o que resulta em certos abusos. Se por um lado o argumento enfileira um incontável número de pontas soltas, mas que verdade seja dita, estão imunes à frustração, por outro lado demonstra estar atento a época em que vivemos. Inseridas num universo repleto de homens machistas, a força das personagens femininas ressoa como um trovão para colocá-las no lugar que merecem estar, que significa estar onde quiserem e fazer o que bem entenderem. Estocolmo e Nairóbi – essa possivelmente o epicentro da trama – estão munidas de diálogos empoderados e personalidades reforçadas que impedem serem diminuídas por comentários machistas e misóginos de seus companheiros.
Outra característica da série e que funciona muito bem mesmo sendo previsível são os recorrentes flashbacks usados como artifício para explicar a arquitetura do plano. Além disso, é através desse elemento narrativo que permite viajar ao passado que o público pode matar a saudade de Berlim, a cabeça pensante por trás do novo golpe. Eliminando todas as dúvidas acerca de sua relação com o Professor, o texto encontra lacunas para usufruir da persona magnética que se tornou e dispõe a ele espaços coerentes ao longo dos oito episódios. Com uma trilha sonora convidativa e muito mais variada, sólidas e tensas sequências de ação, personagens apaixonantes e um Professor exposto, “La Casa de Papel – Parte 3” joga com os clichês a seu favor e oferece aos espectadores horas de entretenimento bem filmado e de aspectos ímpares. Nem mesmo o fato do Arturito (Enrique Arce) ter virado coach às custas de mentiras e ter zero função na trama é capaz de manifestar perigo no decorrer da narrativa, que segue fluída, convidativa e alimentando teorias divertidas para o desfecho que virá.
