Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Beijos e Tiros

Não se pode dizer pelos seus idílicos momentos iniciais que “Beijos e Tiros” é uma das melhores fitas policiais da história recente do cinema. Até porque o filme não é exatamente o típico filme de ação, com balas voando para todos os lados. No entanto, trata-se de um longa extremamente divertido, com um roteiro incrivelmente bem amarrado e que ainda arruma tempo para satirizar Hollywood e alfinetar certos clichês cinematográficos.

Para muitos, o ator Robert Downey Jr. renasceu das cinzas em 2008 com o blockbuster “Homem de Ferro”. Para mim, o ator voltou a ser um nome a ser visto em 2005, quando estrelou o longa “Beijos e Tiros”, um dos melhores exemplares do gênero em muito tempo que, inexplicavelmente, passou batido pelo público em geral. Downey vive aqui Harry, um azarado ladrão nova-iorquino que, por um tremendo acaso, acaba se tornando o potencial astro de uma fita hollywoodiana, na qual viveria um detetive particular.

Em uma festa, ele conhece Perry (Val Kilmer) – também conhecido como Gay Perry – um cínico detetive particular de Los Angeles que irá treina-lo para o papel e que, grande surpresa, é homossexual. Em uma dessas coincidências da vida – e do roteiro – na mesma festa está uma paixão adolescente e amiga de infância de Harry, a aspirante a atriz Harmony (Michelle Monaghan).

A vida dos três vai ser virada pelo avesso quando a irmã de Harmony aparece morta, em um aparente suicídio, quase ao mesmo tempo em que Harry e Perry testemunham um assassinato. Lidando com quase todos os chistes básicos de histórias de detetive ao mesmo tempo, o trio tentará, relutantemente, chegar ao fundo de uma conspiração que envolve sexo, intrigas e dedos decepados acidentalmente, contando ainda com o pequeno detalhe de se utilizar de uma fictícia série pulp de detetives para brincar com os clichês que surgem na narrativa.

A história é narrada toda em retrospectiva pelo próprio Harry, que jamais esconde os seus defeitos, sempre falando bem francamente com o espectador e, às vezes, esquecendo um detalhe ou dois da trama, rapidamente, corrigindo seus erros. O mais interessante é que, mesmo conhecendo os poderes do personagem, jamais antipatizamos com ele, com a interpretação de Downey Jr. deixando sempre transparecer que não se trata de um cara mau, mas de um homem de bom coração que, por azar, rouba coisas.

Não é pelo fato de que Harry é o narrador da aventura que os seus companheiros não são desenvolvidos. Perry e Harmony são muito bem tratados pelo script. O primeiro, apesar de toda a sua carranca e cinismo, é um hábil investigador e possui um grande senso de justiça e habilidade, sabendo inclusive usar a homofobia dos adversários durante uma luta. É interessante ver como Val Kilmer nunca exagera nos trejeitos de seu personagem, dando a este carisma e desenvoltura, com sua química com Downey Jr. sendo perfeita, principalmente nas cenas nas quais Perry surta com as trapalhadas do seu parceiro forçado.

Já Harmony é um caso a parte. A bela Michelle Monaghan ccede um certo ar de inocência à ambiciosa jovem, que é o centro emocional do filme. Sua relação com a irmã e os motivos que levaram as duas a irem para Los Angeles é um ponto crucial da história, bem como sua relação com Harry, desenvolvida propositadamente aos trancos e barrancos durante a trama. Harmony complementa bem o grupo de protagonistas da fita, com Monaghan compreendendo que sua personagem é bem mais que o “atrativo visual” da narrativa, mas também o seu coração.

O elenco coadjuvante do filme também faz sua parte. Não há um vilão de destaque na fita, com o antagonista sendo apenas um mero detalhe da trama, mas não quer dizer que os inimigos da trupe principal sejam desinteressantes, apenas não estando sob os holofotes. Destaco a dupla de capangas, Sr. Fogo e Sr. Frigideira dentre os personagens secundários. Vividos respectivamente pelos atores Rockmond Dunbar e Dash Mihok, os dois trocam pequenas piadas e gracejos que dão até pena dessas figuras não ganharem mais espaço na tela.

Baseado parcialmente no romance "Bodies Are Where You Find Them", o longa só saiu tão divertido assim graças ao seu diretor e roteirista, Shane Black, também conhecido como o criador da franquia “Máquina Mortífera”. Praticamente o pai dos filmes de ação com parceiros “Yin/Yang”, Black sabe dosar a ironia e o sarcasmo no diálogo de seus personagens o suficiente para que estes não se tornem figuras caricatas e antipáticas, colocando muito sentimento naquelas figuras. Além disso, ele sabe criar seqüências de ação que, ao mesmo tempo, que divertem o espectador, também o carregam com uma certa dose de tensão, algo que é uma arte quase perdida.

Sendo anda brilhantemente editado por Jim Page, que trablhou muito bem a divisão em capítulos da história sem perda de ritmo para a trama, e com uma ótima direção de fotografia de Michael Barrett, que captou o lado “la-la” de Los Angeles como poucos, o filme é um tratade de como se lidar com uma trama de detetive clássica nos tempos de hoje. É uma pena que Shane Black tenha saído da ativa após este longa. É um autor inteligente a menos em meio aos brucutus policiais.

Thiago Siqueira
@thiago_SDF

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