Cinema com Rapadura

OPINIÃO   segunda-feira, 22 de abril de 2013

A Morte do Demônio (2013): remake respeita suas origens e estabelece identidade

Prestando homenagem à trilogia original ao mesmo tempo que mantém sua própria identidade, este remake comandado pelo uruguaio Fede Alvarez é imperdível para os fãs de filmes de terror, quer eles tenham tido contato com a série criada por Sam Raimi ou não.

A-Morte-do-DemônioCriada com um baixíssimo orçamento pelo cineasta Sam Raimi em 1981, a franquia “The Evil Dead” (no Brasil, “A Morte do Demônio” ou “Uma Noite Alucinante”) é uma das mais conhecidas e adoradas pelos fãs de terror, servindo como uma intersecção entre o horror e a comédia, tendo em vista que os dois últimos exemplares da trilogia original visam mais os risos (intencional) que os sustos.

Buscando uma volta às origens sombrias da série, Raimi produziu este remake do primeiro longa (acrescido de partes do segundo), deixando o uruguaio Fede Alvarez encarregado da direção e do roteiro, com contribuições de Rodo Sayagues e Diablo Cody no texto. O maior acerto deste novo “A Morte do Demônio” é reconhecer que o filme tem de se sustentar sozinho, sem contar com a nostalgia do público como muletas para funcionar.

Mesmo com easter-eggs que remetem ao clássico trash aparecendo aqui e ali, Alvarez e Raimi sabem que a fita não pode alienar a imensa parcela do público geral. Com isso, Ash, o protagonista da trilogia clássica eternizado por Bruce Campbell, ganha um merecido descanso e até mesmo os momentos fanservice (aqueles que estão lá apenas para os já iniciados), embora existentes, são isolados ao máximo da história que está sendo contada.

A trama básica se mantém, com um grupo de jovens indo a uma cabana isolada onde, acidentalmente, libertam um antigo demônio, após a leitura de um livro antigo escrito em sangue. A entidade passa a torturar o grupo de maneira sádica, possuindo suas almas e eliminando-os um a um. As diferenças entre os filmes jazem nos detalhes e dão identidade própria a este remake, que tem uma proposta relativamente mais séria e pesada.

Os personagens (ao menos alguns deles) têm personalidades mais definidas, ao invés das quase caricaturas que Raimi criou 30 anos atrás. Até mesmo o isolamento dos garotos ganhou um motivo plausível, desintoxicar a jovem viciada Mia (Jane Levy) que, não por acaso, é a primeira a ser possuída pela criatura, com seus ataques sendo confundidos por síndrome de abstinência pelos seus desafortunados amigos.

Ressalte-se ainda os bons desempenhos da dupla principal, formada por Jane Levy e Shiloh Fernandez. Vivendo os irmãos Mia e David, os dois possuem uma boa química e, como epicentro dramático da produção, carregam bem a responsabilidade de serem as figuras com quem mais nos importamos ali, a despeito de alguns exageros de interpretação pontuais por parte de Fernandez.

Levy, por sua vez, tem bastante material com o que trabalhar e passa boa parte da projeção como a versão “endemoniada” de sua fragilizada personagem, demonstrando uma energia incrível em sua performance. A jovem atriz, aliás, sofreu o diabo durante as filmagens, tendo realizado boa parte de suas cenas de ação ela mesma.

Isso porque, assim como seu “padrinho”, Fede Alvarez investe pesado em efeitos práticos, passando longe de CGI. Apesar disso, a milionária produção não compartilha o caráter semi-amadorístico que marcou o original, com maquiagens extremamente efetivas e uma bela direção de arte,  elementos que acrescentam muito ao clima tenso proposto pelo diretor.

Como se trata de uma refilmagem, diversas cenas do(s) longa(s) base são reimaginadas segundo a visão do cineasta uruguaio, recriadas de modo extremamente gráfico e violento, para a alegria dos fãs do gore (que devem ir ao delírio com a nova versão do “estupro da floresta”).

A fotografia de Aaron Morton presta homenagem ao original ao investir bastante em estilizados primeiros planos, sem contar com a aproximação imaterial em primeira pessoa do demônio, com a câmera avançando ferozmente pelo cenário, algo presente em todos os episódios da série. Além disso, Morton lança mão de uma paleta de cores adequadamente sombria, ressaltando as centenas de litros de sangue falso que jorram durante a projeção.

Como nem tudo são flores, a fita também tem sua dose de problemas. Os demais membros do elenco estão lá apenas cumprindo funções pré-determinadas, sem demonstrarem muito carisma e servindo apenas como carne para o moedor. Sem contar que, ao misturar o original e sua sequência, o longa acumula diversos clímax, prejudicando a fluência do seu terceiro ato.

Mas esses pecadilhos não mancham o resultado final, que é um filme de terror sem medo de assustar sua plateia ou de diverti-la, prestando uma justa homenagem a uma franquia que marca cinéfilos há mais de três décadas. Groovy!

Obs.: Não saia do cinema antes do fim dos créditos!

Thiago Siqueira
@thiago_SDF

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