Críticas

Clock sexta-feira, 27 de janeiro, 2012 - às 10h25

Precisamos Falar Sobre o Kevin: história trágica e densa sobre mãe e filho

Longa baseado em romance norte-americano é estrelado por Tilda Swinton, que interpreta uma mãe assombrada por episódio trágico envolvendo o filho primogênito.

Para quem foge de informações cruciais sobre um filme, respeitarei a vontade dos mesmos e não entregarei o cerne da trama de “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, obra baseada no romance homônimo escrito em 2003 pela norte-americana Lionel Shriver. Afinal, àqueles que não leram o livro, recomendo que mantenham-se longe até mesmo de informações da sinopse do IMDb (The Internet Movie Database), que entrega em três linhas o resultado final de 112 minutos de uma história que é um soco de mão cheia na boca do estômago.

O filme começa com a situação atual de Eva Khatchadourian (Tilda Swinton, sempre ótima), uma mulher em depressão, desempregada, vivendo sozinha sem rumo em uma casa de uma pequena cidade, onde sofre com o ódio de alguns moradores. Nesse ambiente tedioso e extremamente melancólico, vemos o cotidiano de Eva se costurar, por meio de flashbacks, com um passado não tão distante.

Casada com Franklin (John C. Reilly), ela dá à luz a Kevin, o primogênito da família, que gera conflito entre mãe/filho desde o berço. A relação entre os dois permeia todo o filme, até atingir o ápice na adolescência do garoto, muito bem interpretado pelo jovem Ezra Miller. O nascimento da doce Celia (Ashley Gerasimovich) vem complicar ainda mais a convivência de Eva com Kevin, que se mostra um filho exemplar para o pai, indiferente diante das tentativas da esposa de alertá-lo com relação às maldades do adolescente. O título do livro/filme, assim, não poderia ser mais adequado.

Em uma edição primorosa, que entrega em doses homeopáticas as peças deste quebra-cabeça tenso e mórbido, “Precisamos Falar Sobre o Kevin” tem um tom de suspense crescente e constante. Por vezes fantasmagórico, prende o espectador na cadeira o tempo todo graças à diretora Lynne Ramsay (que também adaptou a obra para a telona em parceria com Rory Kinnear), que conduz a dupla Tilda Swinton e Ezra Miller com competência louvável, aproveitando ao máximo os olhares e os silêncios – que não são poucos e funcionam muito bem. Não é à toa que Ramsay disputou a Palma de Ouro de Melhor Direção no Festival de Cannes 2011, perdendo para Nicolas Wind Refn, diretor do ainda inédito “Drive”.

Da fotografia confortante que alterna entre amarelo e vermelho dos momentos em família às caóticas imagens fora de foco e de movimentos bruscos que retratam a opaca existência atual de Eva, o longa se posiciona em flashes da mente perturbada de Eva, em que as lembranças perturbadoras casam com a frieza natural e temerosa da figura de Tilda. Ela, vencedora do National Board of Review e indicada ao Screen Actors Guild (SAG), Bafta e Globo de Ouro, ficou de fora na corrida pelo Oscar, que cedeu a já esperada vaga a Rooney Mara, de “Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres“.

Simbologia clara à Eva bíblica, em uma analogia cristã à “mãe de todos nós”, embora o filme não se embrenhe no campo religioso, a personagem carrega uma culpa dilacerante como uma mãe e como um ser humano prestes a explodir, como se sobreviver já se tratasse de um esforço superior ao que poucos seriam capazes de suportar após o grande trauma que a assola.

E nestes lapsos mostrando a trama em migalhas, como se estivesse em um pesadelo, deixamos com que nossa imaginação, mais cruel que a própria realidade, nos surpreenda e nos entregue o tão pesado epílogo. Brutal, cruel e sincero ao extremo, “Precisamos Falar Sobre o Kevin” prova que, entre tantas histórias da ficção que justificam a maldade, ela pode ser tão natural como o aquele pecado cometido pela Eva original e seu Adão no tal grande livro escrito há quase dois mil anos.

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Léo Freitas
 formou-se em Jornalismo em 2008 pela Universidade Anhembi Morumbi. Cinéfilo desde a adolescência e apaixonado por cinema europeu, escreve sobre cinema desde 2009. Atualmente é correspondente do CCR em São Paulo e desejaria que o dia tivesse 72 horas para consumir tudo que a capital paulista oferece culturalmente.

  • ramon

    adorei seu comentario

  • Só sua resenha já um soco no estômago!!
    Mto bem escrita, preservando os leitores dos spoilers.
    Vou ver sua indicação hj mesmo, contrariando minha regra pessoal de ler antes de ver.
    Obrigada e sucesso.

  • Marley

    HORRIVEL… História chata, atuações péssimas… respeito quem gostou, contudo, é uma perda de tempo e o final mesmo, só dando com um sarrafo nas pernas dos protagonistas.

    • Leandro Ramos

      Excelente filme, um filme simples que tem um poder alto de atração.
      Com elenco mediano, o filme mostra em 3 tempos distintos o relacionamento familiar.

      • André Salles Monteiro do Prado Srëider

        Elenco mediano?
        O que é um bom elenco pra você então?
        Cita aí!
        Pelo amor de Deus. Cada coisa que a gente tem que ver nesse mundo.

  • Roger

    Ótima crítica, parabéns.

  • Tanto o filme quanto sua critica são soberbas. Esta é a MELHOR critica que eu já li aqui no CCR. Parabens.

  • Welson Oliveira

    Parabéns pela crítica, apenas concordo com tudo. Destaque para as atuações louváveis, tanto dos atores mirins, quanto da Tilda Swinton, que boa parte do filme teve que carregá-lo nas costas.

  • Sadman

    concordo plenaente com a critica
    pra mim ate agora esta entre os melhores de 2012
    uma vergonha n ter estado no oscar em nenhuma categoria, principlmente melhor atriz
    o filme é perfeito em sua categoria
    nota maxima merecida

  • Iuri Carraro

    Achei o filme excelente. Vou procurar o livro pois, para mim, saltaram algumas lacunas. E o abraço final e o “perdão” mutuo não fizeram sentido. De novo, para mim, aquela cena final resumiu o filma a uma frase: O garoto só queria chamar a atenção da mãe. E se realmente fosse só isso, o assassinato da irmã já seria de grande impacto. Só estou querendo dizer que, provavelmente, no livro a motivação para atacar a escola deve ser mais clara.

    • Nívea

      PUXA VIDA IURI CARRARO!!! Você poderia tecer seu comentário sem entregar fatos tão específicos do enredo do filme, principalmente do final! Desculpe: não sou adepta de troca de hostilidades – especialmente pela internet entre pessoas que nem se conhecem – e nem quero ser desrespeitosa com você. Mas não poderia deixar de comentar a sua extrema falta de cuidado com os visitantes do site, que ainda não assistiram o filme. OBTER INFORMAÇÕES SOBRE UM FILME (P/ TER ALGUMA IDÉIA SOBRE A POSSIBILIDADE DE SER INTERESSANTE)É TOTALMENTE DIFERENTE DE SABER O QUE ACONTECE EM DETALHES NA HISTÓRIA DO MESMO. VOCÊ ERROU FEIO AO FAZER SEU COMENTÁRIO ASSIM. SUPER INCONVENIENTE E SEM ATENÇÃO. FALA SÉRIO!

      • Cícero

        Concordo Nívea, descerebrado, parece que nem leu a resenha do crítico… aff…

  • Renata

    ADOREI a crítica, de verdade, muito bem escrita, reflete bem a realidade do filme. Aos que não gostaram que não tivessem lido. Pô, que culpa o cara tem que vocês foram burros o suficiente para ler algo que revelava detalhes de um filme, sem a intenção de saber. Vacilo enorme de vocês, não culpem a pessoa que escreveu, culpem a burrice de vocês mesmos.

  • Macêdo

    O livro é um dos meus preferidos, entretanto, o filme deixou a desejar. Muitas lacunas abertas e tédio excessivo. A vida de Eva sempre foi movimentada até determinado ponto. Kevin’s perfeitos. Daria nota 7 apenas.