Críticas

Clock sábado, 29 de outubro, 2011 - às 20h06

O Palhaço: as cores encantadoras de Selton Mello como diretor

Câmera contemplativa, cores fortes e apuro técnico são pano de fundo para filme sensível sobre a eterna insatisfação humana.

por Jader Santana
29/10/2011 - 20:06

É possível perceber ao menos uma diferença evidente entre as sequências circenses e aquelas que se desenvolvem fora das lonas no novo filme de Selton Mello, “O Palhaço”. Quando assumem seus personagens dentro dos limites do picadeiro, as figuras ganham uma peculiar tonalidade em seus rostos e trajes, causada pela elaborada fotografia em tons alaranjados. Toda a magia e contemplação envolvidas no ato de fazer arte circense parecem imersas em uma atmosfera que de tão iluminada, tão resplandecente, é capaz de camuflar a vida real. Quando o espetáculo termina e as cortinas são definitivamente fechadas, as cores da rotina, da insatisfação e do vazio dão o tom.

“O Palhaço” encontra na vida de uma trupe circense o substrato máximo para trabalhar essa dualidade: os rostos eternamente felizes e artificiais do picadeiro escondem histórias tão banais e humanas quanto as nossas. E o exemplar perfeito é a tão explorada figura do palhaço trágico, que se não aqui não ganha traços originais compensa sua deficiência por qualidades técnicas que conseguem manter em níveis elevados o desenrolar do filme.

O palhaço Pangaré (Selton Mello), uma das estrelas do circo Esperança – imagine quão sugestivo esse nome pode ser – arranca gargalhadas exageradas do cada vez mais escasso público nas cidadezinhas de interior em que seu circo se hospeda. Seus gestos demasiadamente teatrais e suas piadas vez por outra picantes fazem sucesso e ajudam a garantir a sobrevivência da trupe. Quando o espetáculo do dia chega ao fim, o dinheiro é contabilizado e a maquiagem retirada, conhecemos Benjamim, que não tem graça alguma. Desde o início percebemos que uma grande insatisfação injustificada move o seu personagem, que sente crescer dentro de si um vazio tão grande quanto as enormes paisagens captadas pelas câmeras. O grande problema é que nem ele sabe explicar os motivos daquela sensação, que nos é apresentada pelo seu eterno olhar perdido, dificuldade para travar conversas com estranhos, insônia e o crescente desejo por um ventilador.

Selton Mello, um dos expoentes do cinema nacional na última década, sabe honrar com sua atuação firme o incrível número de pessoas que se dirige ao cinema atraídas por seu nome.  Mesmo quando ocupa o picadeiro com as piadas e mímicas de Pangaré, o ator consegue manter em suas expressões e, sobretudo em seu olhar, o desespero interno de Benjamim. Enquanto isso nós, espectadores, rimos o riso da suspeita, curiosos pelas causas daquela insatisfação e encantados pelo desenrolar dos atos circenses.

Apesar de Selton ser o chamariz principal para “O Palhaço”, outros nomes que formam o elenco merecem destaque, seja pela importância que representam para a dramaturgia nacional, seja pelo excelente trabalho que oferecem no filme em questão. A velha guarda impera, com atores como Jackson Antunes e Tonico Pereira. No papel do delegado Justo, com a sua voz grave tão característica, Moacyr Franco é uma maravilhosa surpresa. Paulo José faz o palhaço Puro Sangue, dono do circo e pai de Benjamim, e nos brinda com mais uma atuação memorável.

O talento de Selton Mello também vai para trás das câmeras. Como diretor, ele é seguro e ousado, e em algumas ocasiões sua câmera se movimenta de modo curioso e poético. Preste atenção no modo como é filmado o corpo de uma das moças da trupe, enquanto ela adentra o recinto e se joga na cama, ou ainda na sequência final, com uma câmera que acompanha os movimentos da encantadora garotinha vivida por Larissa Manoela.

A curta duração do filme talvez prejudique um pouco a sua execução, visto que se torna quase impossível oferecer uma descrição mais profunda de alguns personagens, todos eles curiosos e com potencial para estrelarem outros filmes. Não chega a ser um problema, mas torna tudo menos agradável, principalmente por não garantir mais espaço para uma explicação adequada sobre as inquietações de Benjamim.

“O Palhaço” tem tudo para figurar ao lado de grandes filmes com temática regional que tonaram-se sucesso de público e crítica, como “O Auto da Compadecida” e “Lisbela e o Prisioneiro”. A grande diferença entre eles está na sensível carga dramática colocada por Selton em seu produto. Afinal, quem vai fazer o palhaço rir?

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Jáder Santana é crítico do CCR desde 2009 e estudante de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Experimentou duas outras graduações antes da atual até perceber que 2 + 2 pode ser igual a 5. Agora, prefere perder seu tempo com teorias inúteis sobre a chatice do cinema 3D.

  • Um ótimo filme! Me emocionei muito com ele, recomendo a todos.

    • judite

      assisti esse filme ontem, q porcaria de filme, uma merda mesmo, vergonha alheia!!!!!

  • nice

    quero saber o nome da atriz mirim… por favor… vou ver o filme….acho que vou me encantar. bjsss e aguardo a resposta

  • Explicações e definições sobre Selton Mello, acho que são indispensáveis para o momento.
    Devemos evidenciar o olhar aguçado de um verdadeiro palhaço, que insiste em ser diretor de cinema e vem desempenhando muitíssimo bem ambos. A análise crítica de quem realmente somos, o que fazemos e nossa satisfação é o ponto mais forte e direto nesse filme de palhaços, risos e sonhos. Realmente me emocionei e me identifiquei com os tormentos de Benjamim, outrora PuroSangue. Espero que todos percebam o quanto é necessário descobrirmos o que nos satisfaz e o quanto é bom satisfazer por estarmos satisfeitos.
    Parabéns ao Selton e a toda equipe.

  • VILMA

    Amei o filme,recomendo a todos, é um filme
    gostoso de assistir,é emocionante,divertido…
    enfim é tudo bom.
    Obrigada Selton, vc é fantástico

  • Renato Rocha (@rocha_renato)

    Eu gostei bastante do filme. Não me surpreende o talento do Selton.

  • Ton

    O começo é uma coisa sem graça mas a evolução do filme é mt boa e definitivamente me surpreendeu mt (adorei a parte em q eles vão procurar um borracheiro) e destaque especial pela atriz mirim do filme q pareçe a Carla Dias Inshaláááá

  • Selton Mello é um Mestre. Excelente ator, nos brinda com essa direção fantástica e esse filme comovente, bem ao seu estilo – carregado de emotividade. Parabéns pelo grande trabalho ! Recomendo o filme a todos.

  • katia

    ADOREI O FILME , É MARAVILHOSO, ME EMOCIONEI MUITO, SÓ UM TALENTO COMO SELTON MELO PRA FAZER UM FILME TÃO BONITO E TOCANTE, RECOMENDO A TODOS!!

  • Andrei Bessa

    O filme é de uma delicadeza incrível… mesmo nada sendo surpreendente, tudo muito bem feito e dentro das técnicas já conhecidas e planos óbvios, consegue lhe prender….

    tendo como mote o mais atual e esgotado de todos os temas (a insatisfação sem motivo aparente), tendo um personagem central também nada original, o filme me prendeu justamente pelo roteiro…. a forma que as imagens ia me contanto a história, o humor refinado, o pequeno surreal já esperado, mas bem eficaz….
    tudo, muito bem cuidado… só não gostei da solução final….

    PS: QUEM AINDA NÃO VIU, ACHO MELHOR NÃO CONTINUAR LENDO

    quer dizer que o problema do benjamim é a falta de alguém para completá-lo? apenas isso? ok, o filme todo já não é surpreendente, mas um final desses, nig merece….

  • Rodrigo

    Boa fotografia, bons atores, hilário… Mas a trama e enredo fracos desperdiçaram o que teria tudo pra ser um filme mais criativo. Como o colega disse, um final desses ngm merece. Quando parecia que a estória iria ganhar um pouco de emoção o filme acaba.

  • Adriana

    O filme é lindo, de uma delicadeza desmedida.
    Quanto a explicar a insatisfação do Bejamim… não vejo necessidade de explicações. Me identifiquei… insatisfação sem motivo aparente, como se explica isso? Por que tudo tem que ter um motivo?
    Achei genial a forma como ele tratou a insatisfação, e partiu em busca de uma resposta, que poderia ter sido a moça Ana de Aldo Alto Peças, ou não. A resposta para a insatisfação dele poderia ter sido qualquer coisa, até mesmo um ventilador.
    Quanto ao final, não é que ele ficou feliz por ter encontrado a moça, ele ficou feliz de ter conseguido o ventilador, a moça foi consequência da felicidade pós ventilador…

  • Lavoisier

    Primoroso como Roberto Belini e tão cansativo quanto um filme iraniano. Pode-se dizer que é uma obra prima. Mas não dá platéia. O público só vai aproveitar se estiver MUUUITO preparado e não esperar nada do filme. Tem que chegar de alma limpa, sem espectativas, daí vai gostar. Se não…

  • Rafaella

    O filme instiga. O ponto crucial, para mim, é a necessidade do ser humano de largar/perder tudo que tem para, só então, poder ver tais coisas com outros olhos e conseguir dar valor aquilo que lhe rodeia. É a necessidade do homem de chegar ao ponto de ‘nada ser’, para conseguir descobrir em si mesmo quem realmente é. É a busca pelo movimento, pela mudança de ares, pelo ventilador externo – quando temos que descobrir tal capacidade dentro de nós mesmos. Lindo filme.

  • Um dos melhores filmes do ano! É fascinante e me traz uma maravilhosa sensação ao fim de uma obra-prima com drama, filosofia e um toque de humor. Mal espero para comprar o DVD e assistir quando bem entender!

  • Maresi

    Filme meio fraco. Acaba rápido como um seriado de tv. É tentado fixar alguns elementos de marcação no filme como o sutiã e o ventilador, mas não chegam a interessar e também não fecham bacana no final. O filme tem vários personagens e elementos para desenvolver, mas foram pouco trabalhados. A fotografia e filmagem realmente foram de primeira. O destaque do filme (que também podia ter sido melhor trabalhado) é a mensagem que apesar das mazelas e do declínio da vida mambembe, a esperança desta arte se renova ao final com a empolgação da menina após estrear no picadeiro que é felicitada pelos velhos e cansados artistas.

  • Gabriel

    Muito interessante ler as interpretações de outras pessoas quanto a uma obra. Esse filme, por apresentar um quê de arte abstrata, tem um grau de subjetividade em sua interpretação.
    Achei fantástica a crítica de Jurandir, especialmente ao me alertar para a diferença na colorização do filme nas cenas durante o circo e nas cenas fora do picadeiro. Também o som ajuda a transportar o espectador e despertar emoções.
    No making of do filme, Selton fala que o dilema vivido pela personagem por ele interpretada se asemelha ao dilema vivido em sua própria carreira como ator.
    Na minha opinião, Pangaré não é o palhaço trágico, mas um jovem em busca de seu lugar no mundo. O ventilador é uma alegoria dessa idealização de futuro e por isso mostrado consistentemente no filme, especialmente nos momentos em que Pangaré deve estar pensando em deixar aquela vida e buscar seu destino.
    A alegoria permeia todo o filme, até o clímax sutil, quanto Benjamin tem a epifania e descobre que sua vocação está mesmo no circo. Nesse momento o filme dá uma virada, abandonando o tom meio sombrio apresentado até então, mostrando um Benjamin sorridente, que faz palhaçada na boleia do caminhão e que finalmente encontrou seu ventilador. Por fim, ele volta ao circo, mas agora lá está seu ventilador.
    Outros pontos que achei interessantes foram a forma como todas as locações mostradas depois de Benjamin abandonar o circo são amplas e vazias, retratando a falta de tempero daquela vida;
    o modo como Benjamin se torna aquela pessoa que pede RG, CPF e Comprovante de Residência, demonstrando que ele não gosta daquilo que ele se tornou;
    a cena na qual ele aparece na loja, cercado dos alegóricos ventiladores, mas triste, pois aquilo que ele achava que queria não era seu destino.
    Destacaram-se para mim a direção e a fotografia, com stills muito bem feitos, colocações de câmera inusitadas e enquadramentos muito bons, especialmente nas cenas externas. A atuação também foi excelente até mesmo (ou especialmente) a dos atores-mirins.

    • Gabriel

      *Jáder, não Jurandir. Me desculpe pela confusão de nomes.
      *assemelha

  • e muito legal a larissa manuela arrasou

  • Ótimo filme, elenco muito bom com grandes astros da comédia nacional, e direção apurada de Selton Mello, um dos melhores filmes nacionais dos últimos anos.

    Nota: 8.0