Avaliação: 4

Existem bons filmes e existem aqueles tão ruins que se tornam divertidos. Não é o caso deste “Eu Sou o Número Quatro”. Esta mistura de “Smallville” e “Crepúsculo” é tão fraca que não desperta nem raiva em seu espectador, algo terrível para um longa que tenta emplacar uma série.

Baseado em um livro homônimo (que não li) e adaptado por Al Gough e Miles Millar (não por acaso, a dupla de criadores de “Smallville”), com colaboração de Marti Noxon (ex-roteirista de “Buffy – A Caça-Vampiros”), mais parece que os escritores receberam a missão de fazer uma versão da “saga” de Bella e Edward que fosse acessível para o público masculino. E com alienígenas.

A trama segue o jovem alienígena John Smith (Alex Pettyfer), refugiado na Terra em segredo e protegido pelo severo Henri (Timothy Olyphant) desde criança. O povo de John fora dizimado por uma raça de conquistadores espaciais conhecidos como Mogs, que agora caçam os últimos nove sobreviventes daquele devastado mundo. Três deles e seus respectivos guardiões já foram mortos. John é o próximo na lista.

Buscando se esconder, John e Henri se assentam temporariamente na cidadezinha de Paradise, onde o Guardião tem negócios a resolver. Enquanto isso, o rapaz acaba se apaixonando pela sensível fotógrafa Sarah (Dianna Agron) e criando um elo de amizade com o nerd Sam (Callan McAuliffe). Mas os Mogs se aproximam cada vez mais do seu alvo e uma misteriosa garota em uma motocicleta (Teresa Palmer) também parece estar à procura de John.

Com cerca de 100 minutos de duração, a impressão que dá é que estamos vendo uma versão resumida de uma temporada de alguma série de TV. São muitos plots correndo ao mesmo tempo, com a relação de companheirismo entre John e Henri sendo mal explorada, personagens tomando decisões apressadas apenas para avançar a trama, a sub-trama do pai de Sam sendo jogada na cara do espectador a cada cinco minutos e os vilões não ganhando nenhum destaque.

A cereja no bolo é o romance entre John e Sarah, apressado, previsível e, para não perder tempo com o crescimento dos personagens, o longa nos traz o conceito de que a raça de John só se apaixona uma vez, amando apenas uma pessoa, em uma muleta preguiçosa para amarrar o casal protagonista. Aliás, a história de amor dos dois e a intervenção do bully local (Jake Abel) lembram muito a interação do trio Clark-Lana-Withney no piloto de “Smallville”, com direito a emboscada no herói. Será que Gough e Millar deram um “Ctrl + C / Ctrl + V” no próprio trabalho?

Para piorar, o filme acaba sem dar uma pista sobre o que havia em uma caixa misteriosa ou mesmo sem explicar direito qual a raiz da guerra entre o povo de John e os Mogs. Provavelmente, tal trama deve ser melhor detalhada nos livros, mas no filme parece que os Mogs encrencaram com o planeta do herói, o destruíram, vieram atrás dos sobreviventes na Terra e, já que estão por aqui mesmo, vão acabar com nosso mundinho azul também.

Uma coisa é você utilizar eventos de pano de fundo e criar uma sensação de grandiosidade e mostrar que já existia algo acontecendo entre aqueles personagens antes do filme começar. Um exemplo disso é a rivalidade entre os pistoleiros vividos por Jeff Bridges e Barry Pepper na refilmagem de “Bravura Indômita”. Outra é você se recusar a explicar pontos-chave de um filme quando você não sabe se vai haver continuação ou não. Os personagens ficam falando e explicando pontos da história que jamais são mostrados!

Enquanto isso, o diretor DJ Caruso faz malabarismos para entregar algumas cenas de ação decentes, mas a inconsistência no desafio que os personagens encaram ao enfrentarem os Mogs chega a causar estranheza. Repare como Sam elimina um soldado mog facilmente, enquanto John, mais forte e poderoso, pena para lidar com outro. E isso em cenas paralelas! Os efeitos não comprometem muito, sendo até bem razoáveis para uma produção de médio porte.

O elenco fraco mantém o jeitão de seriado da fita. Apenas o carismático Timothy Olyphant tenta fazer algum esforço ali, mas o ator sai cedo demais de cena, graças a um dos clichês mais antigos desse tipo de filme. “Eu Sou o Número Quatro” talvez funcionasse melhor como seriado, dando algum espaço para a trama existir. Do jeito que saiu, parece mais perto de um número dois do que de um quatro…

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Thiago Siqueira é crítico de cinema do CCR e participante fixo do RapaduraCast. Advogado por profissão e cinéfilo por natureza, é membro do CCR desde 2007. Formou-se em cursos de Crítica Cinematográfica e História e Estética do Cinema.