Críticas   sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Inverno da Alma

Dirigido com mão firme por Debra Granik, o filme é frio e pouco emocional, mas se segura graças à forte interpretação de Jennifer Lawrence.

“Inverno da Alma” não é um filme fácil. Muito pelo contrário, é duro, dirigido de forma seca e direta por Debra Granik, que aposta em uma narrativa cruel e pouco emocional que afasta um pouco o espectador. É uma típica produção que retrata o mundo cão e é povoada de personagens sem rumo e à beira do desespero.  Gente feia, pobre e sem muita perspectiva de vida.  Ninguém quer ver isso, ainda mais em tela grande. Mas a desgraça e a desilusão movem o filme.

Ree (Jennifer Lawrence) é uma garota de apenas 17 anos que já se acostumou a apanhar da vida. O pai é uma espécie de traficante que vive enrolado com a polícia e com os desajustados locais. A mãe é doente e totalmente alheia à realidade que lhe cerca. Sobra a Ree então a tarefa de cuidar dos dois irmãos menores e tentar manter a família unida. A sobrevivência vem da ajuda e caridade de um casal vizinho, mas nada que lhe assegure conforto ou segurança.

Como desgraça pouca é bobagem, Ree se vê em uma encruzilhada quando o pai desaparecido precisa comparecer a uma audiência, caso contrário, a casa onde ela e os irmãos vivem será confiscada. É a partir daí que “Inverno da Alma” começa e passamos a acompanhar a jornada da jovem em busca do pai e de respostas. Apresentando essa situação-limite, o filme investe em um tom seco e gélido que perpassa toda a narrativa e não traz nenhum alívio ao público.

Os cortes são secos e a edição é lenta como a vida. A trilha musical é discreta e pouco interfere na trama. Já a fotografia é crua e tenta reproduzir o clima frio de inverno que serve de cenário ao longa. Assim, sem muitos rodeios, vamos sendo conduzidos pelo pulso firme da diretora e nos tornamos testemunhas da trajetória nem sempre bem-sucedida de Ree.

Se a mão de Granik pesa um pouco e transforma seu filme em uma obra um tanto distante, a diretora acerta ao colocar toda a carga emocional da produção nos ombros de Jennifer Lawrence. É a atriz revelação (além de participações em séries de TV e em filmes menores, ela se destacou como a filha de Kim Basinger em “Vidas que se Cruzam”) que carrega “Inverno da Alma” nas costas e tem recebido uma série de prêmios e indicações pelo papel. É uma atuação forte e cheia de carisma que joga o filme em outro nível.

Todo o elenco, na verdade, trabalha para que o filme ganhe destaque e fuja dos clichês desse tipo de produção no qual, muitas vezes, as desgraças se acumulam de modo quase gratuito. Aqui, a empatia que sentimos por Ree é quase instantânea,  mais decorrente da interpretação silenciosa e hipnótica de Lawrence do que pelas situações retratadas pelo longa.

Olhando de perto, no final das contas, “Inverno da Alma” é quase um filme-irmão de “Rio Congelado”, outro exemplo de produção que independente que lança um olhar ora melancólico, ora terno sobre personagens desafortunados (neste caso de uma mãe que tenta sustentar dois filhos na fronteira do Canadá depois que o marido foge com o dinheiro da família). Em ambos os longas, a redenção até chega com uma pontinha de esperança, mas deixa um gostinho agridoce de que nem tudo são realmente flores.

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Fábio Freire escreve para o CCR desde 2010. É jornalista formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com pesquisa sobre a relação entre música pop e cinema. Já passou dos 30, mas ainda assim entende mais sobre cinema, música e seriados do que entende sobre gente.

Fábio Freire
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