Avaliação: 7

Filmes são fruto de um tempo, da época em que foram produzidos e lançados. Nada muito diferente, na verdade, do que qualquer outro produto cultural (álbuns, novelas, livros, histórias em quadrinhos, etc), que reflete anseios, dúvidas, atitudes, moda ou seja lá o que for que esteja em voga durante seu lançamento. Alguns sobrevivem ao tempo; outros se perdem na poeira da História.

Dito isso, “Tron – Uma Odisséia Eletrônica” envelheceu muito mal. Lançado em 1982, o filme marcou época ao fazer uso de efeitos especais inovadores e que abriram caminho para o futuro da imagem digital. Antes de “Tron”, os filmes usavam trucagens visuais. Depois de seu lançamento, os efeitos digitais viraram coqueluche e regra. A trama da produção, entretanto, era boba; as atuações dignas de peça infantil e a direção de Steven Lisberger beirava o amadorismo. O resultado é um longa sem ritmo ou coerência e que coloca o visual acima de tudo, inclusive de qualquer lógica narrativa.

Nesse sentido, “Tron – O Legado” não se difere muito de seu antecessor e privilegia a plasticidade das imagens em detrimento do conteúdo, apesar de ser bem melhor dirigido e despertar um interesse maior pela trama, contada com mais empenho e lucidez. Claro que visualmente o filme dá um banho nos efeitos especiais apresentados pelo longa de 1982. O visual retrô, quadrado e que remete claramente a videogames como o Atari ficou na década de 1980, e “Tron – O Legado” segue outro caminho, mais moderno e arrojado, ainda que o neon azul e vermelho prevaleçam e reforcem o maniqueísmo da luta entre o bem e o mal.

A história continua qualquer nota (homens versus máquinas) e é uma mera desculpa para o desfile do que de melhor as imagens digitais podem oferecer. O filme é quase um remake do primeiro, na verdade. A maior diferença é que, se no primeiro, o vilão era um humano, e as máquinas apenas refletiam seus desejos; na continuação, o mal é representado pela máquina que se rebela contra o homem.

É aqui que reside um dos maiores problemas de “Tron – O Legado”, uma questão que o primeiro até enfrentou, mas com quase 30 anos a menos de referências cinematográficas. O embate entre homens e máquinas não é nenhuma novidade e a temática já foi usada e desgastada por uma leva de filmes, todos bem melhores: de “Metrópolis” passando por “Blade Runner”, “O Exterminador do Futuro” e chegando, claro, a “Matrix”, a referência mais óbvia aqui, sendo a dicotomia entre o mundo real e o virtual a base de todo o longa.

Assistindo à produção, fica claro que o tempo passa, o tempo voa, mas a gente continua sempre a ver as mesmas histórias. Isso até não seria um problema se o filme apresentasse novidades, o que não é o caso. A embalagem aqui pode ser mais neon e iluminada, mas falta a “Tron – O Legado” o vigor e a ação desenfreada de uma produção de James Cameron (“O Exterminador do Futuro”) ou a aura enigmática e filosófica de um longa dos irmãos Wachowski (“Matrix”).

É verdade que o estreante Joseph Kosinski se sai melhor do que Lisberger no comando do espetáculo. Além de ter senso estético (o filme é realmente belíssimo e o 3D muito bem utilizado), o diretor sabe comandar a ação e construir uma narrativa minimamente envolvente, evitando os vazios dramáticos do primeiro longa. Mas, apesar de bem editado e das cenas de ação realmente empolgarem, revezar câmera lenta com uma montagem acelerada não deslumbra mais ninguém.

Um dos acertos é manter uma série de elementos do primeiro, inclusive alguns atores (Jeff Bridges e Bruce Boxleitner reprisam seus papéis), e dar continuidade à história, mesmo que quase 30 anos depois, prestando homenagem a um filme que marcou uma geração e hoje estava praticamente esquecido. O clima futurista também é bem vindo, mas parte do mérito disso vai para a eficiente trilha musical do Daft Punk.

Mas apesar que cinematograficamente superior a “Tron – Uma Odisseia Eletrônica”, este longa sai perdendo porque passa longe de ser revolucionário, caso do primeiro, ainda que apenas no território dos efeitos (nem o uso de um Jeff Bridges rejuvenescido é novidade – “O Curioso Caso de Benjamin Button” saiu na frente, com um Brad Pitt mais velho e mais novo).

No final das contas, “Tron – O Legado” é entretenimento digno e eficaz. Um desses blockbusters que faz uso de toda a tecnologia à mão para proporcionar uma experiência sensorial ágil e em alto e bom som. Não há como negar que seja visualmente encantador, mas, ao contrário do primeiro, não deixará marca alguma na História do Cinema.