Filmes são fruto de um tempo, da época em que foram produzidos e lançados. Nada muito diferente, na verdade, do que qualquer outro produto cultural (álbuns, novelas, livros, histórias em quadrinhos, etc), que reflete anseios, dúvidas, atitudes, moda ou seja lá o que for que esteja em voga durante seu lançamento. Alguns sobrevivem ao tempo; outros se perdem na poeira da História.
Dito isso, “Tron – Uma Odisséia Eletrônica” envelheceu muito mal. Lançado em 1982, o filme marcou época ao fazer uso de efeitos especais inovadores e que abriram caminho para o futuro da imagem digital. Antes de “Tron”, os filmes usavam trucagens visuais. Depois de seu lançamento, os efeitos digitais viraram coqueluche e regra. A trama da produção, entretanto, era boba; as atuações dignas de peça infantil e a direção de Steven Lisberger beirava o amadorismo. O resultado é um longa sem ritmo ou coerência e que coloca o visual acima de tudo, inclusive de qualquer lógica narrativa.
Nesse sentido, “Tron – O Legado” não se difere muito de seu antecessor e privilegia a plasticidade das imagens em detrimento do conteúdo, apesar de ser bem melhor dirigido e despertar um interesse maior pela trama, contada com mais empenho e lucidez. Claro que visualmente o filme dá um banho nos efeitos especiais apresentados pelo longa de 1982. O visual retrô, quadrado e que remete claramente a videogames como o Atari ficou na década de 1980, e “Tron – O Legado” segue outro caminho, mais moderno e arrojado, ainda que o neon azul e vermelho prevaleçam e reforcem o maniqueísmo da luta entre o bem e o mal.
A história continua qualquer nota (homens versus máquinas) e é uma mera desculpa para o desfile do que de melhor as imagens digitais podem oferecer. O filme é quase um remake do primeiro, na verdade. A maior diferença é que, se no primeiro, o vilão era um humano, e as máquinas apenas refletiam seus desejos; na continuação, o mal é representado pela máquina que se rebela contra o homem.
É aqui que reside um dos maiores problemas de “Tron – O Legado”, uma questão que o primeiro até enfrentou, mas com quase 30 anos a menos de referências cinematográficas. O embate entre homens e máquinas não é nenhuma novidade e a temática já foi usada e desgastada por uma leva de filmes, todos bem melhores: de “Metrópolis” passando por “Blade Runner”, “O Exterminador do Futuro” e chegando, claro, a “Matrix”, a referência mais óbvia aqui, sendo a dicotomia entre o mundo real e o virtual a base de todo o longa.
Assistindo à produção, fica claro que o tempo passa, o tempo voa, mas a gente continua sempre a ver as mesmas histórias. Isso até não seria um problema se o filme apresentasse novidades, o que não é o caso. A embalagem aqui pode ser mais neon e iluminada, mas falta a “Tron – O Legado” o vigor e a ação desenfreada de uma produção de James Cameron (“O Exterminador do Futuro”) ou a aura enigmática e filosófica de um longa dos irmãos Wachowski (“Matrix”).
É verdade que o estreante Joseph Kosinski se sai melhor do que Lisberger no comando do espetáculo. Além de ter senso estético (o filme é realmente belíssimo e o 3D muito bem utilizado), o diretor sabe comandar a ação e construir uma narrativa minimamente envolvente, evitando os vazios dramáticos do primeiro longa. Mas, apesar de bem editado e das cenas de ação realmente empolgarem, revezar câmera lenta com uma montagem acelerada não deslumbra mais ninguém.
Um dos acertos é manter uma série de elementos do primeiro, inclusive alguns atores (Jeff Bridges e Bruce Boxleitner reprisam seus papéis), e dar continuidade à história, mesmo que quase 30 anos depois, prestando homenagem a um filme que marcou uma geração e hoje estava praticamente esquecido. O clima futurista também é bem vindo, mas parte do mérito disso vai para a eficiente trilha musical do Daft Punk.
Mas apesar que cinematograficamente superior a “Tron – Uma Odisseia Eletrônica”, este longa sai perdendo porque passa longe de ser revolucionário, caso do primeiro, ainda que apenas no território dos efeitos (nem o uso de um Jeff Bridges rejuvenescido é novidade – “O Curioso Caso de Benjamin Button” saiu na frente, com um Brad Pitt mais velho e mais novo).
No final das contas, “Tron – O Legado” é entretenimento digno e eficaz. Um desses blockbusters que faz uso de toda a tecnologia à mão para proporcionar uma experiência sensorial ágil e em alto e bom som. Não há como negar que seja visualmente encantador, mas, ao contrário do primeiro, não deixará marca alguma na História do Cinema.



























7 Comentários
Como você viu o filme se hoje é dia 15 de dezembro e o filme só vai estrear no dia 17?!
Normalmente, alguns críticos de grandes sites veem o filme antes de estrearem, em sessões para a crítica especializada.
bela critica…
mesmo assim estou ansiosíssimo pra ver!!
e nao vou perder por nada
Adorei a crítica.
Acredito que nos dias de hoje é muito dificil um filme deixar uma marca na história. Tem de ser um conto muito surpreendedor..e algo inovador, e com a tecnologia de hoje isso é dificil porem possivel..
Muitos filmes usam e abusam da tecnologia e se esquecem do principal que é o enredo..
filmes simples com trama bem feita e envolvente são muito mais interessantes do que lutas de bomerang e motos voadoras..isso pra min é mais um passatempo
Bumerangue e moto voadora??
Não foi isso que eu vi no filme.
Concordo que é difícil um filme deixar marca na história do cinema, mas acredito que a pouco tempo deixou.
A origem, filme que assim como o Matrix 1, me impressionou bastante, mostrando uma dimensão que até poderia acontecer. (ou acontece?)
Bem, Tron era para ser meu primeiro filme a assistir no cinema se meu pai não tivesse confundido os cinemas. rsrs
Enfim, para um filme com ótimos atores, ótimos efeitos especiais, uma pitada de trama envolvente, se a trilha sonora ajudar, acho que perto de muitos filmes lançados esse ano, Tron vale a pena assistir.
Um abraço!
Muito boa critica de fabio freire,parabens. Sinceramente na minha opinião, hoje eu cheguei no cinema com uma certa duvida, e adivinhem, era eu e mais seis pessoas dentro da sala com um monte de “poltronas” vazias, “ai eu me disse”, éeee Robson, TchE! mais que M….-…………-……..!, o filme deve ser uma bosta!, e pra piorar, houve uma hora em que simplesmente sumiu o som no filem e o cara teve que voltar o esquema todo pra tras, não até o inicio, cerca de dois minutos ou tres. Mas apesar dos incidentes e do fato de eu passar um leve instante me perguntando o que estava fazendo la, acreditem ou não, valeu a pena.
Realmente Tron não impressiona no contexto roteiro, ja que a trama meio que se perde em suas propias extremidades colocadas ja de inicio,mas mesmo assim o roteiro, não é ruim,só faltou um certo gas, não que não tenha ação, ja que a dose foi bem aplicada,mas faltou algo mais convencedor para os espectadores, os efeitos ficaram bons, apesar da excolha de cores,”como nosso carissimo critico acima disse”, serem um pouco cliches, fechou pra coisa toda e tornou mais aceitavel para quem estava assistindo(apesar de que se não fosse as minimas escolhas sertas do roteirsta, ou os,não sei se foram mais de um,terem acertado em certos pontos, tudo não passaria de luzes e cacos voando),os atores, pelo menos em minha opinião se sairam bem, sem exageros ou menos interação, ficaram leves e concordantes(se é que essa palavra existe) com a trama, sim caros amigos e amigas(pelo menos em minha opinião) vale sim! a pena ir assistir ao aclamado Tron! não é um filme dos sonhos, mas é algo bem legal de curtir.
(Por fim quero deixar claro que não quiz dar uma de profissional em nada aqui, sou só mais um humilde viciado em cinemas e cultura pop, ou seja é só uma opinião, até mais rapaduras!)