Críticas

Clock domingo, 12 de dezembro, 2010 - às 00h42

As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada

Mais um livro de C.S. Lewis assume nesta adaptação uma maturidade que às vezes não funciona. A presença de elementos cristãos, porém, está mais perceptível do que nunca.

Adaptar para a linguagem audiovisual um clássico da literatura fantástica composto por sete livros de grande volume é uma tarefa delicada. Traçar um paralelo convincente entre dois mundos opostos e complementares, com suas devidas peculiaridades e personagens míticos, exige um apuro técnico e de narrativa que não é facilmente obtido. Após as duas tentativas discutivelmente bem sucedidas do neozelandês Andrew Adamson, o inglês Michael Apted assumiu a direção da história. A qualidade do resultado parece igualmente questionável.

Para narrar o capítulo em que Lúcia e Edmundo voltam ao território de Nárnia, o diretor apostou no uso de características que marcaram os êxitos e fracassos do seu antecessor. Em “As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada”, o trabalho de Apted parece funcionar como uma continuidade do que foi iniciado por Adamson.

A história acompanha os esforços do Príncipe Caspian para reunir as espadas encantadas de sete lordes. Com a ajuda do rato Ripchip, dos dois irmãos protagonistas e de um primo mimado da família, Caspian deve navegar por ilhas misteriosas à procura da solução para o mistério dos lordes.

O enredo, aparentemente simples, exige para o seu desenvolvimento um tempo maior do que as duas horas do filme. A impressão que fica é a de que tudo acontece de modo acelerado, sem o tempo necessário para que as relações entre os personagens e os ambientes sejam bem trabalhadas. A construção de conflitos isolados, que parecem capítulos independentes no tempo e espaço, com um elo frágil de ligação com a narrativa principal, colabora para causar a impressão de que o roteiro adaptado pela equipe de Christopher Markus e Stephen McFeely não foi eficiente.

Andrew Adamson, nos dois primeiros capítulos da série, recebeu insinuações de que seu trabalho carregava algumas das características épicas da trilogia “O Senhor dos Anéis”. O novo diretor não conseguiu fugir do legado deixado pela adaptação da obra de Tolkien e “A Viagem do Peregrino da Alvorada” continua exibindo semelhanças indiscutíveis com os filmes de Peter Jackson. O modo como Apted dirige as sequências de batalhas e os detalhes das lutas entre os personagens lembram, de forma minimalista, o que foi explorado na trilogia de Jackson.

A fotografia do italiano Dante Spinotti, a caracterização dos personagens e a trilha sonora que acompanha os momentos de tensão também são semelhantes ao que presenciamos em “O Senhor dos Anéis”. O problema é que em “As Crônicas de Nárnia” alguns desses fatores parecem exagerados se comparados à simplicidade do que assistimos.

O time de atores surpreende com um trabalho notavelmente mais maduro e encorpado. Ben Barnes, no papel de Caspian, e os já crescidos Georgie Henley e Skandar Keynes, como Lúcia e Edmundo, demonstram uma sintonia raramente vista em filmes do gênero. O recém-integrado à equipe, Will Poulter, no papel do irritante Eustáquio, também merece ser reconhecido por seus esforços. Para um personagem que deve assumir o papel de protagonista no próximo filme da série, Poulter parece confortável em sua posição.

Em relação ao desenvolvimento das características individuais dos personagens, o trabalho da equipe de roteiristas é igualmente insuficiente. Enquanto Edmundo continua enfrentando as tentações da feiticeira branca (Tilda Swinton), Lúcia encara os conflitos típicos da faixa etária em que está se inserindo. Se realmente tinha por objetivo acentuar os traços de maturidade em sua trama, abordar os conflitos pessoais dos protagonistas seria fundamental.

A obra de C.S. Lewis soube inserir entre batalhas e personagens fantásticos o processo de amadurecimento de seus personagens. Susana, a irmã mais velha, é acusada pelo autor de deixar a fantasia do mundo de Nárnia após assumir interesses estéticos. Apesar de ser acusado de sexismo pelo destino que escolheu para a personagem, Lewis conseguiu demonstrar um grau elevado de profundidade subjetiva para a história paralela de Susana. Falta profundidade aos dramas humanos do filme.

Neste episódio da saga também houve uma sensível perda de qualidade nos efeitos especiais. Em algumas sequências, a finalização da arte parece amadora e causa incômodo ao ser comparada ao trabalho dos filmes anteriores.

Alguns momentos demonstram apurado senso estético e ajudam a elevar a qualidade final de “A Viagem do Peregrino da Alvorada”. O portal de entrada para o mundo de Nárnia é original e as cenas em que ocorrem a travessia e o retorno ao mundo humano são visualmente espetaculares. Em outra sequência, os protagonistas navegam sobre um mar de flores brancas que, ao ser filmado à distância, parece feito de estrelas. Amparados sobre uma forte carga onírica, esses dois momentos específicos são o que existe de melhor no filme.

A presença de elementos que remetem aos traços cristãos da obra de C.S. Lewis deve ser tomada como mais um ponto a favor do filme. A inserção de mensagens bem posicionadas entre os detalhes da trama e a rejeição por qualquer tentativa de didatismo religioso são méritos que precisam ser citados. O filme de Michael Apted aborda a temática de modo intimista e a cena em que tais características aparecem de maneira mais explícita é totalmente bem aproveitada.

Com um balanço final entre erros e acertos, a verdade é que este novo episódio de “As Crônicas de Nárnia” termina com um saldo positivo. O retrocesso de algumas características é visível, mas a melhoria em pontos fundamentais para a evolução da história também está lá. Se a equipe envolvida na realização do filme decidir superar suas falhas, o próximo capítulo da saga, “A Cadeira de Prata”, promete ser um grande êxito.

  • Viniccios

    Eu li a todos os livros dessa fantástica coleção,e posso dizer que,este filme,ficou muito superior ao seu livro-base.

    Se fossemos fazer este filme idêntico ao Livro,teríamos a mesma chatisse que as Reliquias da Morte parte 1,um filme muito parado,combates rápidos de mais,e pura enrolação para uma segunda parte desnecessária…

    Eu fui ao cinema duas vezes ver VPA e irei uma terceira!

    • Concordo plenamente! Como eu disse no meu blog, o filme foi muito bem adaptado e ganhou dinamismo. Se fosse filmado como estava escrito se tornaria um filme enfadonho, como HARRY POTTER 7.1.

  • Fábio Guedes

    Um comentário perfeito, maduro e imparcial. Concordo em gênero, número e grau com cada palavra.

  • emilson

    “Eu pensava que só os fãs da”saga Crepúsculo” eram assim.” Meu Deus, que comparação mais infantil! Mas deixa pra lá: “aos bons é resguardado um destino de felicidade e aos do mal não resta esperança.” Ow Darlano, Nárnia usou a bíblia como referência! Tu queria o quê? O filme tem uma das mensagens mais positivas com temas simples, mas ao contrário da maioria, indispensável dos últimos tempos. O filme tem humor, ação, suspense, quase romance… diversão que não é gratuíta! Tudo bem fazer comparações (sobre Piratas do Caribe eu lembrei, mas quem for original, atire a primeira pipoca rsrs e além do mais, tem no livro!).Admito que não queria ver o filme, tava ciente de que seria bobo… mas do início até depois do fim, como agora, tem me cativado a história que dá até para crer nesse mundo, já que Aslam (SPOILER) diz que no mundo de Edmundo e Lúcia ele tem outro nome! “Filme para criança” Tá ai o motivo de que depois que a criança cresce, não pode ir mais para Narnia! Fica incrédulo (nesse caso, referente a não reconhecer que um filme é bom só para ser coerente com o gosto cinematográfico e recusar-se a viajar para Nárnia)! Leiam a crítica de Jader Santana que é melhor e tirem suas conclusões! FLW

  • Nerd Girl

    Queridos Emilson e Viniccios .

    Li todas as críticas nacionais,internacionais e até li os livros escritos por C.S.Lewis. Creio que vocês são fãs da franquia . Adoro HP ,Sda e também Cdn .Eu já sabia que o autor da obra C.S.Lewis colocou referencias biblicas .Entendo que muitas vezes o fanatismo cega a visão crítica dos filmes adaptados dessas obras. Porém,Crônicas de Nárnia poderia ser um filme com qualidade igual ou superior a SdA e HP. Sua pessíma direção ,as performaces dos atores melhoram em CdN:VdPdA ,mas não o bastante e roteiro continua horrível .A unica coisa boa são os efeitos visuais.Detestei LFeG e PC e agora VdpdA.
    Eu esperava mais dos “narnianos” 🙁

  • Sou fã de lewis há uns 12 anos, e li as crônicas de nárnia. os livros são longos e como sempre (desculpem-me pelo lugar comum), adaptar um livro tão complexo e longo para o cinema é uma rara compentência. E diga de passagem, os produtores, diretores e demais envovlidos na realização do filme não foram felizes. Assisti os dois primeiros por puro zelo Lewisiano. O terceiro, vou ver pelos efeitos, e porque meus filhos – o público-alvo – querem ver.

    Acho que se o Peter Jackson tivesse feito, seria melhor… pelo menos teria “pegada”. O problema acho que é a Disney.

    Ouvi algumas entrevistas do Doug Greshan (enteado do Lewis e produtor executivo do filme), e notei ano passado um certo pesar pela produção, principalmente pela falta de grarantias de que seria filmada toda a obra, ficando sempre pendente do sucesso do filme anterior…

    talvez o resultado não seja bom, porque o próprio estúdio não acredite nele.

    Um abraço.

  • Fiz questão de ler o livro antes de assistir o filme, e também fiquei com essa impressão (como em todos os outros) de que as coisas acontecem rápido demais. Acho que através de cortes de cena adequados daria ao menos pra causar a impressão de que determinado evento foi mais demorado ou mais profundo. É importante mencionar que do livro pro filme houve uma brusca mudança de foco na trama, para a tal ‘Ilha Negra’, que no livro é só mais uma ilha, e não a causa de todos os males. O filme tem muitos pontos positivos, principalmente no aspecto da estética visual, mas acho o livro será sempre melhor.

  • Clécio

    Olha…com certeza o mais fraco dos três..Ví 04 pessoas saindo da sala e até minah sobrinha e sobrinho q estavam comigo e são fâs da fábula,notei q em alguns momentos queriam também. O roteiro, mesmo para crianças, tem amsi furos que o queijo que o simpa´tico ratinho mosqueteiro do filme comia( e na minha opinião o único bom personagem do filme< acho que por ser animação…)..

    principe caspian..terrível..que era aquilo. o roteiro tão fraco que parecia até constrangido de ter que navegar em tantos furos..

    os dois irmãos…foram até convincentes em alguns momentos das sequências anteriores.Mas neste, com exceçaõ da cena da neve, que realemnte foi muito bonita, o resto ..bom ..é o resto…

    o moleque só deu pra aturar quando virou um dragão.

    a cena que eles tem contato com os tais sequestradores..meu deus. Parecia filme da Xena piorado.

    e os animais e hibridos fantásticos?ficaram reduzidos a um minotauro de pelúcia e um fauno que aparecia amarrado por 03 segundos?

  • ainda não vi o filme mas espero que a fox não tenha os erros da disney pois a disney tirou um romance entre caspian e uma das meninas sabe-se lá de onde. e para o autor da critica só uma dica no trecho “A construção de conflitos isolados, que parecem capítulos independentes no tempo e espaço, com um elo frágil de ligação com a narrativa principal” elo só pode ser de ligação então a frase esta errada gramaticalmente. mas o texto esta muito bom, estou ansioso para ver o filme

  • Eduardo

    Não li os livros da série.

    Por outro lado, falando do filme, ai, que sessão da tarde…até vi o reclame: “quatro jovens junto com um leão vão aprontar altas confusões numa viagem cheia de aventuras”.

    Muito previsível, sem ritmo, ou encanto…se vc. já viu os anteriores, assista, para não perder a história como um todo…se vc não viu…bomba!

  • Jason

    Honestamente, Crônicas de Nárnia (a série de livros) me decepcionou quando li – e eu tinha uns 13 anos. Lewis incorpora os elementos cristãos ás vezes sem muito nexo, dá lições de moral a cada 3 ou 4 páginas e dissolve seus bons personagens para melhor entendimento de seus dogmas. Eu gosto da narrativa em geral, mas no todo, as adaptações para o cinema foram bem fiéis. Mas na minha opinião, esse é o problema.