Avaliação: 7

Adaptar para a linguagem audiovisual um clássico da literatura fantástica composto por sete livros de grande volume é uma tarefa delicada. Traçar um paralelo convincente entre dois mundos opostos e complementares, com suas devidas peculiaridades e personagens míticos, exige um apuro técnico e de narrativa que não é facilmente obtido. Após as duas tentativas discutivelmente bem sucedidas do neozelandês Andrew Adamson, o inglês Michael Apted assumiu a direção da história. A qualidade do resultado parece igualmente questionável.

Para narrar o capítulo em que Lúcia e Edmundo voltam ao território de Nárnia, o diretor apostou no uso de características que marcaram os êxitos e fracassos do seu antecessor. Em “As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada”, o trabalho de Apted parece funcionar como uma continuidade do que foi iniciado por Adamson.

A história acompanha os esforços do Príncipe Caspian para reunir as espadas encantadas de sete lordes. Com a ajuda do rato Ripchip, dos dois irmãos protagonistas e de um primo mimado da família, Caspian deve navegar por ilhas misteriosas à procura da solução para o mistério dos lordes.

O enredo, aparentemente simples, exige para o seu desenvolvimento um tempo maior do que as duas horas do filme. A impressão que fica é a de que tudo acontece de modo acelerado, sem o tempo necessário para que as relações entre os personagens e os ambientes sejam bem trabalhadas. A construção de conflitos isolados, que parecem capítulos independentes no tempo e espaço, com um elo frágil de ligação com a narrativa principal, colabora para causar a impressão de que o roteiro adaptado pela equipe de Christopher Markus e Stephen McFeely não foi eficiente.

Andrew Adamson, nos dois primeiros capítulos da série, recebeu insinuações de que seu trabalho carregava algumas das características épicas da trilogia “O Senhor dos Anéis”. O novo diretor não conseguiu fugir do legado deixado pela adaptação da obra de Tolkien e “A Viagem do Peregrino da Alvorada” continua exibindo semelhanças indiscutíveis com os filmes de Peter Jackson. O modo como Apted dirige as sequências de batalhas e os detalhes das lutas entre os personagens lembram, de forma minimalista, o que foi explorado na trilogia de Jackson.

A fotografia do italiano Dante Spinotti, a caracterização dos personagens e a trilha sonora que acompanha os momentos de tensão também são semelhantes ao que presenciamos em “O Senhor dos Anéis”. O problema é que em “As Crônicas de Nárnia” alguns desses fatores parecem exagerados se comparados à simplicidade do que assistimos.

O time de atores surpreende com um trabalho notavelmente mais maduro e encorpado. Ben Barnes, no papel de Caspian, e os já crescidos Georgie Henley e Skandar Keynes, como Lúcia e Edmundo, demonstram uma sintonia raramente vista em filmes do gênero. O recém-integrado à equipe, Will Poulter, no papel do irritante Eustáquio, também merece ser reconhecido por seus esforços. Para um personagem que deve assumir o papel de protagonista no próximo filme da série, Poulter parece confortável em sua posição.

Em relação ao desenvolvimento das características individuais dos personagens, o trabalho da equipe de roteiristas é igualmente insuficiente. Enquanto Edmundo continua enfrentando as tentações da feiticeira branca (Tilda Swinton), Lúcia encara os conflitos típicos da faixa etária em que está se inserindo. Se realmente tinha por objetivo acentuar os traços de maturidade em sua trama, abordar os conflitos pessoais dos protagonistas seria fundamental.

A obra de C.S. Lewis soube inserir entre batalhas e personagens fantásticos o processo de amadurecimento de seus personagens. Susana, a irmã mais velha, é acusada pelo autor de deixar a fantasia do mundo de Nárnia após assumir interesses estéticos. Apesar de ser acusado de sexismo pelo destino que escolheu para a personagem, Lewis conseguiu demonstrar um grau elevado de profundidade subjetiva para a história paralela de Susana. Falta profundidade aos dramas humanos do filme.

Neste episódio da saga também houve uma sensível perda de qualidade nos efeitos especiais. Em algumas sequências, a finalização da arte parece amadora e causa incômodo ao ser comparada ao trabalho dos filmes anteriores.

Alguns momentos demonstram apurado senso estético e ajudam a elevar a qualidade final de “A Viagem do Peregrino da Alvorada”. O portal de entrada para o mundo de Nárnia é original e as cenas em que ocorrem a travessia e o retorno ao mundo humano são visualmente espetaculares. Em outra sequência, os protagonistas navegam sobre um mar de flores brancas que, ao ser filmado à distância, parece feito de estrelas. Amparados sobre uma forte carga onírica, esses dois momentos específicos são o que existe de melhor no filme.

A presença de elementos que remetem aos traços cristãos da obra de C.S. Lewis deve ser tomada como mais um ponto a favor do filme. A inserção de mensagens bem posicionadas entre os detalhes da trama e a rejeição por qualquer tentativa de didatismo religioso são méritos que precisam ser citados. O filme de Michael Apted aborda a temática de modo intimista e a cena em que tais características aparecem de maneira mais explícita é totalmente bem aproveitada.

Com um balanço final entre erros e acertos, a verdade é que este novo episódio de “As Crônicas de Nárnia” termina com um saldo positivo. O retrocesso de algumas características é visível, mas a melhoria em pontos fundamentais para a evolução da história também está lá. Se a equipe envolvida na realização do filme decidir superar suas falhas, o próximo capítulo da saga, “A Cadeira de Prata”, promete ser um grande êxito.