Porém, como em toda boa ficção científica, tudo é uma alegoria para discutir problemas exclusivamente humanos. Dessa vez a temática central do filme é a segregação racial, que gera inevitável alusão com o apartheid sul-africano, mas permite comparações com outras opressões históricas contra minorias. Ao estilo documental, o diretor Neil Blomkamp prova que é possível realizar uma obra tão intensa quanto reflexiva.
Assim como em “9 – A Salvação”, estreia da semana passada, “Distrito 9” é inspirado em um curta-metragem. Em “Alive em Joburg” (2005), Blomkamp retrata a “invasão” dos extraterrestres, os problemas que a sua presença traz para a população e seus enfrentamentos com a polícia local. Se sobram boas intenções, falta orçamento para cumprir as pretensões do diretor, transformando a produção em algo risível e absolutamente amador. No entanto, com o envolvimento de Peter Jackson no projeto do longa-metragem, o capital chegou e possibilitou um incrível aprimoramento técnico do filme. A proposta cinematográfica continua a mesma, mas o resultado geral é bastante superior, criando uma película que agradará dos mais críticos aos menos exigentes.
Estamos na mais importante cidade sul-africana, Johanesburgo. Há cerca de 20 anos uma nave alienígena se instalou no céu do local, provocando medo nos cidadãos, mas causando conseqüências bem piores para os seus visitantes. Famintos, os extraterrestres foram resgatados pelo exército local e abrigados numa área exclusiva para eles, com direito a cerca de arame farpado e intensa vigia da polícia, o chamado Distrito 9. Eles não são tão hostis quanto se pensava, mas a fragilidade humana os transforma em “monstros”. Sem tecnologia para voltar para o seu planeta original, os aliens foram ficando, até se instalarem definitivamente.
À medida que o tempo passa, a presença deles apenas incomoda. Alguns fugitivos da área causam problemas aos humanos, como roubos, agressões e mortes. Com isso, placas proibindo a entrada dos pejorativamente chamados “camarões” (devido a sua semelhança com o marisco) são espalhadas pela cidade, retratando a existência de uma guerra civil.
A situação torna-se insustentável até que a empresa Multi-National United (MNU) é responsabilizada por retirar a população do distrito e levá-los para uma espécie de campo de concentração a incontáveis quilômetros dali. Liderando a operação está Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley), um homem inseguro, competente e inocente demais para as intenções da MNU, que acaba sendo infectado por um vírus extraterrestre, iniciando um processo de metamorfose e ocasionando uma incessante perseguição.
Diferentemente de outras produções com alienígenas em sua história, esta não se passa em Nova Iorque, Washington ou Chicago. Estamos bem longe dos Estados Unidos e seu centralismo alien. O país é a África do Sul, e as dificuldades sociais são outras. Não estamos diante de uma cidade cheia de políticos importantes, que conta com uma polícia especializada e com uma população paranóica. Estamos diante de uma cidade com um marcante histórico de confronto racial.
O apartheid deixou marcas e ignorá-lo ao assistirmos a uma película com temática tão semelhante seria impossível. Os aliens são tratados ao molde dos negros naquela fatídica época, com área reservada para habitação, direitos civis limitados e preconceito irrestrito. A diferença está apenas na forma de exploração: os “camarões” são enclausurados e capturados para a realização de estudos científicos com o objetivo de imitar a incrível tecnologia de suas armas.
Mas não pense que este é um drama denso. “Distrito 9” é um filme de ação dos mais intensos com uma trama social como pano de fundo. E é exatamente este conceito que o diferencia de tantas outras películas de ficção científica. Não temos um universo paralelo ou cenários irreais, mas sim uma cidade verdadeira ocupada por seres extraterrestres, os quais são alvos de inúmeras teorias que questionam e defendem sua verdadeira existência. Para tornar a história ainda mais intrigante, o diretor Neil Blomkamp adota um caráter muito particular para contá-la. Misturando uma linguagem jornalística com um estilo ficcional realista, o cineasta transforma a película numa obra bastante verossímil.
A fita dialoga diretamente com o documentário, seja através de depoimentos de pessoas que presenciaram o fenômeno seja pela utilização de imagens de câmeras de televisão que faziam a cobertura da fuga de Van De Merwe. Mesmo quando é obrigado a mudar esse ponto de vista, principalmente para poder contar a trama em detalhes, Blomkamp faz questão de colocar a câmera na mão e dar closes espontâneos.
Beneficiando a sua proposta está a fotografia seca de Trent Opaloch e os efeitos especiais perfeitos, que retratam os ETs e as máquinas de forma eficiente, não fazendo feio frente a blockbusters como “Transformers” (quem assistir entenderá a comparação). A opção por mostrar de longe a nave-mãe estacionada no céu de Johanesburgo também contribui para dar uma sensação de grandiosidade a invasão alienígena. Tecnicamente, deve-se destacar ainda a edição eletrizante, que faz do filme um prazer.
Entretanto, o filme tem falhas evidentes e a maioria delas estão no roteiro assinado por Blomkamp e Terri Tatchell. O argumento, depois de sua introdução esplêndida, foca-se demais no personagem de Copley, deixando de lado a temática social. A impressão é de que o filme sucumbe a pretensão de Hollywood por bilheteria e a consequente necessidade por contar uma história com os elementos padrões de um roteiro cinematográfico. Além disso, são criadas cenas inverossímeis que destoam do estilo do filme, principalmente quando retratam o confronto entre Van De Merwe com um representante imbatível da MNU.
O elenco desconhecido de “Distrito 9” dá conta do recado, mesmo com algumas cenas no mínimo estranhas. É que a proposta realista da película exige bastante dos atores e alguns são incapazes de achar um tom certo para os seus personagens. O protagonista é o reflexo disso. Sharlton Copley começa hesitante, mas com o tempo percebemos que tudo faz parte de sua personalidade insegura. A intensificação de sua história lhe traz mais exigências cênicas, mas o ator as cumpre por completo, transformando-se numa revelação das mais surpreendentes.
Com US$ 30 milhões de orçamento, Neil Blomkamp deu origem a um filme cruel, original e denunciador. Utilizar uma invasão alienígena para abordar a segregação racial é uma idéia genial, apesar de ter faltado apenas um pouco mais de cuidado para torná-lo uma obra-prima. O desfecho em aberto, no entanto, deixa margens para que isso aconteça numa eventual continuação.



























34 Comentários
Gostei bastante do filme. O que mais me impressionou neste ano até agora.
Mais alguns pontos pra Peter Jackson.
Excelente filme. Daqueles de nos prender a atenção e fazer nos segurarmos nas poltronas do cinema!
Bonzinho, a história inovadora de um conflito social entre humanos e aliens merecia um roteiro melhor, não dá se identificar com o protagonista ele é muito tosco, e o roteiro é Hollywood demais esperava algo inovador. Decepção.
Assisti o filme semana passada e gostei muito. Ele não é cheio de clichês como os filmes do gênero. Têm drama, ação, aventura e um ótimo final. Vale a pena!
Eu tbm gostei bastante do filme,
realmente esse filme foi o que mais me impressionou neste ano até agora.
filmaço…
O filme tem vários aspectos interessantes, mas sua premissa é meio difícil de engolir… NO final das contas, vale o ingresso.
Gostei muito do filme, em certos momentos é até chocante e forte,mas nesse ano foi o melhor concerteza.
Eu gostei do filme bem legal e dá uma ponta pra continuação!!!
Bom, Misterioso e Muito bem feito!
Como é bom assistir um filme de ficção, onde vc sabe que é, mas pensa que num é!
Na maioria destes tipos de fime o efeito especial de uma certa forma é GRITANTE, mas nesse parece que está “acontecendo”, com o ar de misterios e alguns depoimentos intrigrates, Peter Jackson, já te deixa maluco, para saber as respostas sobre o que vai acontecer!
Recomendo!
Filme excelente! E mostra uma nova tendência de filmes….filmes normais filmedos em formato de documentario! E está dando certo! Distrito 9 & Paranormal Activity são exemplos claros…
OBS: Peter Jackson fez uma rápida cópia do clássico “A Mosca”, nas cesnas de vômito e mais ainda da unha e dentes caindo!!rsrsrs….muito bom….
Essa do filme A Mosca, vc tirou do fundo do baú… BOA.
Então, eu assistir o filme Distrito 9, achei o filme bastante interessante, efeitos muito bons, atores não tão bons assim(exeto o protagonista), vale muito a pena assistir este filme por não se tratar de um filme clichê.
Muito bom!!!
Engraçado que tem gente pensando que quem fez o filme foi o Peter Jackson, quando na verdade ele apenas bancou.
O melhor filme do ano.Inteligente e Intenso.Com bom efeitos esprciais na medida certa.Bem melhor que Tansformers.
Distrito 9 e Bastardos Inglórios foram os melhores filmes que ví no ano. Distrito 9 como ja disseram aqui, não está cheio de clichês como nos outros filmes que tratam do assunto alienígena, é inovador e com uma história que prende a pessoa que vai ao cinema assistir. De todos os filmes do gênero que já vi, esse foi o que mais gostei, sem dúvidas, baita história.
Filme fraco, nojento e grotesco.
Assisti ao filme e gostei muito. O melhor que assisti até agora no ano!!!!!
Verei na terça *-*
Um filme que com certeza é direcionado a alguns cinéfilos em especial; quem só vê blockbusters vai achá-lo “estomacal” e violento demais…Como crítica social, achei meio “raso”; de fato prevaleceu as cenas de ação e foco no protagonista. Mas, só a idéia de ambientá-lo na África do Sul nos remetendo à idéia de como seria um “apartheid alien”…Show !!!! Se a nave estivesse sobre Cuba, porque não imaginar algo parecido em Guantánamo….
E olha que estamos numa época em que os grandes estúdios fazem filmes de “fácil deglutição” pelas massas…parabéns pela aposta do Peter Jackson como produtor. MInha nota para o filme, 7,5. Espero por uma continuação.
O filme é um desastre. Roteiro besta pra caramba. Só vale o ingresso se você comprar meia entrada.
Melhor filme do ano, filme super realista, chocante e surpreendente, um filme que não foi feito para os fracos nem para os metidos a cinéfilos que só querem falar mal, está mesmo na hora dos enredos mostrarem somente os EUA. merece um podcast especial.
@Robson
“não dá se identificar com o protagonista ele é muito tosco, e o roteiro é Hollywood demais esperava algo inovador. Decepção.”
Acho que o fato de o protagonista ser “tosco” é o grande trunfo do filme. Apesar das temáticas diferentes, vejo uma semelhança com o o filme “Filhos da Esperança”, no qual o personagem é um “medroso” e não tem “nada” de herói.
Pelo “baixo” orçamento que teve, o filme é excelente tecnicamente falando. Sou um fã confesso de robôs, adorei “aquela” cena!
Quanto a continuação, tenho vontade que seja feita, mas tenho medo que desvirtuem o filme.
@michel saut
“Um filme que com certeza é direcionado a alguns cinéfilos em especial; quem só vê blockbusters vai achá-lo “estomacal” e violento demais…”
Concordo, é isso aí mesmo!
Filme fantastico, com certeza um dos melhores (se nao o melhor) que ja vi. Eu acho uma pena certas pessoas estarem tao acostumadas aos mesmo filmes enlatados, acabarem nao entendendo e criticando uma obra tao forte quanto essa. Distrito 9 é um filme que faz pensar, é impossível não imaginar a situação de pessoas que sofreram a mesma coisa que os aliens sofrem no filme, a segregação racial é realmente um dos crimes mais ediondos que existe. Confesso que me emocionei muito com a situação do protagonista, que nos passa muita veracidade na sua interpretação, e também com o alien Christopher e seu filho. Filme obrigatório para quem curte ficção e um filme com uma boa história, mas precisa ter estomago.
Sabe, numa visão bem longingua, o filme até trata um pouco de seu tema se assemelhando " A Metamorfose ". haha
Horriveeeeeel esse filme! num vale 1 real; PIOR FILME QUE JÁ FOI FEITO!!! ¬¬’
nao e um filme para quem gosta de harry potter nem de fãs de crepúsculo…
Gostei da crítica. Com certeza irei assistir.
Gosto muito de invasões extraterrestres e de filmes estilo documentário.
Despois de assistir um filme et’s, muito famoso, nunca mais tive coragem de assistir outro, foi facinante. Espero que esse seja facinante também, mas com um ar “importante”
Fui ao cinema com uma expectativa violenta, vi um filme mediano e sem entusiasmo nem pra adolescente. Mas valeu a meia do cinema.
Não lembro de ter assistido um filme com um gênero tão indefinido, ou se preferir, com tantos gêneros misturados. Parece que nem houve tempo de definir exatamente o estilo do filme. No início parece um documentário, depois não segue mais este estilo e passa a ser um filme de ação, depois ficção científica, mais tarde volta para o documentário, e assim sucessivamente. A história do filme é boa – até certa parte -.
so o fato do filme nao ser americano e nao se passar em ny ou la, ja vale a pena, ainda mais com o suporte do P.jackson, que lapidou o diamante…!
excelente filme, figura varias lista entre os melhores filmes do 2009, vai ser um dos grandes lançamentos do home video de fevereiro, e deve ter continuação. nota 9, abraços!
Excepcional filme, adoro o gênero ficção científica, na minha opinião, um dos grandes filmes de 2009, Palmas para Peter Jackson e ao diretor Neil Blomkamp.
Risível. Em várias cenas tive vontade de desligar a TV e pedir meu dinheiro de volta na locadora. O protagonista é um imbecil, um cara chato e babaca que parece estar se divertindo mais do que fazendo um trabalho à altura da importância que a situação exige. Sem contar que a MNU, tida como uma mega super power corporação, pareceu bem amadora, o que torna o filme no mínimo irreal e tosco — eu apostaria em algo misterioso, secreto ao estilo da Umbrella Corp.
A cena em que os cientistas o obrigam a testar armas alienígenas é digna de pena. Com dois socos e duas portas abertas Van De Merwe estava na rua! Se ele era o “artefato” mais valioso do mundo, no mínimo teriam tomado mais cuidado com isso e não teriam tratado num boteco com cara de laboratório!
Ademais, várias falhas de roteiro tornam o filme ainda mais imbecil, principalmente quando, já em processo avançado de mutação, ele liga várias vezes pra casa chorando e NINGUÉM é capaz de rastrear a maldita ligação! Isso sem contar o tom de “ai como sou uma vítima da manipulação” da esposa é broxante.
Grade decepção.
Klaus, Klaus, Klaus … tens nome de diretor, mas com esta má vontade e falta de atenção não dá. As ligações foram rastreadas sim, pela MNU. A intenção do diretor é tratar os temas do filme (ETfavela, programas sociais para pobres, racismo) de uma maneira crua, natural, em tom de reportagem – assististe REC? Assisti Distrito 9 em Blu-ray, aliás DVD já era, e a qualidade de imagem e som está deslumbrante, acentuando ainda mais a crueza das cenas. Sharlto Copley foi o ator perfeito para o filme, se voce assistir os Extras verá que o cara sofreu um monte com as maquiagens, destilando um ódio real que o ajudou muito na composição e transformação do personagem de opressor para oprimido.
Resumir em uma palavra.
ESPETACULAR. Isso resume esse filme.