Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 11 de março de 2009

Frost/Nixon

Uma das tramas políticas mais polêmicas de todo o mundo é retratada com maestria pelo diretor Ron Roward em “Frost/Nixon”. O caso Watergate retorna às telonas com o talento dos atores Frank Langella, como o impetuoso Presidente norte-americano Richard Nixon, e Michael Sheen, vivendo o showman David Frost.

Escutas telefônicas, corrupção política, invasões domiciliares, abuso de poder, mídia de audiência e dinheiro fácil. Não, não estou falando das últimas décadas da política brasileira. Em “Frost/Nixon”, o diretor Ron Roward leva aos cinemas a famosa e impactante entrevista que o então ex-presidente norte-americano Richard Nixon “concedeu” (ao custo de 600 mil dólares mais publicidade) ao apresentador britânico de talk show David Frost.

O roteiro foi confeccionado por Peter Morgan, baseado em sua própria montagem teatral de 2006. Recém indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado, Morgan justifica em pouco tempo de película essa escolha. Em perfeita harmonia com a câmera fechada de Roward, o talento dos atores principais se sobressai e define o principal diferencial do longa. Longe dos efeitos visuais e “projetos arquitetônicos” da maquiagem que vimos ultimamente, “Frost/Nixon” atrai o público pelo carisma e verossimilhança na interpretação de Frank Langella e Michael Sheen.

A data é 8 de agosto de 1974. Há cerca de dois anos sob investigação, o presidente Richard Nixon não resiste e pede renúncia. Acabara de largar um dos cargos mais cobiçados e de maior poder do planeta. Mediante a situação de insatisfação popular e pressão política e da mídia, Nixon foge do carrasco, deixando para trás um caminho trilhado com sangue, desconfiança, traição, decepção e vergonha. Envolvido por inteiro no caso Watergate, Nixon deu lugar ao vice-presidente Gerald Ford, que logo após a nomeação concedeu perdão ao ex-presidente, excluindo de todas as acusações relacionadas ao escândalo. Período retratado no longa de forma breve, por meio de imagens reais e documentos da época. O comunicado da renúncia e o sucessivo interesse pelo “caso” de Nixon são o ponto de partida da narrativa documental de Roward.

As inúmeras fitas gravadas ilegalmente no comitê do partido Democrata autorizadas por Nixon estavam sob domínio público. As provas foram encontradas no prédio do partido, localizado no complexo Watergate, pelos repórteres do jornal Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein. Somadas com fundamentais informações divulgadas pelo misterioso “Garganta Profunda”, Nixon foi oficialmente ligado ao caso. A renúncia e a recusa de admitir a culpa perante o povo americano transformou o presidente estadunidense no símbolo da corrupção.

A democracia estava manchada. Esta é reconhecida por muitos como a entrevista política mais significativa de todos os tempos e os protagonistas, desde o início, deixam claro que ela é sua última chance de sucesso. Frost vê a chance de retornar como apresentador de grandes programas de televisão, abandonando o sensacionalismo dos talk shows na Austrália e Inglaterra. Nixon espera que a exposição possibilite seu retorno ao cenário político, para que finalmente possa erguer a cabeça perante o povo americano.

O ano é 1977. Com a luta marcada, o até então seguro Frost parte para o combate junto dos jornalistas Bob Zelnick (Oliver Platt) e James Reston Jr. (Sam Rockwell). Imponente, mesmo com todo o escândalo, Nixon tem sempre a seu lado o militar Jack Brennan (Kevin Bacon), chefe de sua equipe. O sino soa e os lutadores partem para a briga. Enquanto Nixon aguarda o tempo correr se esquivando de Frost, este acaba se cansando e, como último suspiro, ataca com todas as forças para conseguir aquilo que o povo anseia: uma confissão.

Na entrevista, dividida em quatro partes, Roward abusa dos closes nos atores. Herança da peça teatral que originou a película, as expressões faciais criam o clima tenso. Inclusive, Langella e Sheen foram exportados diretamente dos papéis que viveram no teatro para o cinema. A cada pergunta vemos a tranquilidade do experiente Langella em encarnar o sarcasmo de Nixon. A cada resposta vemos o medo e frustração estampados na face de Sheen, ao ser enrolado pelo rival. A trilha sonora composta por Hans Zimmer acrescenta o ingrediente final à névoa sustentada pelos atores.

Embora muitos possam criar uma certa antipatia por o filme contar uma história política e ter como argumento único a entrevista de Frost a Nixon, em momento algum a narrativa desanda. Pelo contrário, Roward acerta em “reduzir” a trama para apenas o embate dos titãs. Junto da câmera, a iluminação é igualmente impecável e dita o clima perturbador dos momentos finais no longa.

As cenas são tão fantásticas que o nervosismo de Nixon e o interesse pela verdade de Frost dão o exímio tom de realidade à produção. Os closes colocam o público frente a frente com os atores, quase como se estivessem presentes. Vindo do blockbuster “O Código DaVinci”, o cineasta Ron Roward comprova seu talento e garante uma visão única acerca da ferida na política norte-americana.

Drama político como poucos. As cinco indicações ao Oscar – melhor filme, diretor, ator, roteiro adaptado e edição – fazem jus a obra. Outro que merece destaque é o britânico Michael Sheen. Ainda pouco conhecido no cinema hollywoodiano, tendo como destaque o filme “A Rainha” e a franquia de terror “Anjos da Noite”, o ator comprova sua versatilidade e qualidade naquilo que faz. Mesmo sem menção nas principais premiações do cinema, Sheen se torna exuberante pelos trejeitos como David Frost. De showman a precursor da democracia.

Dê ao povo aquilo que lhe é de direito. “Frost/Nixon” é um filme que surpreende pela qualidade técnica e comove pelo carisma e feeling entre os atores. A simplicidade da linguagem de Roward em oposição ao complexo enredo que parou a década de 70 transformam este filme em uma obrigatória viagem ao passado da política. O que, aliás, muitos vão notar, não é tão “passado” assim.

Pablo Cordeiro
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