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Séries   domingo, 14 de abril de 2019

[ESPECIAL] Resumão Game of Thrones (HBO): o começo do fim

As primeiras temporadas sem livros em que se basear apresentaram momentos inesquecíveis e grande qualidade técnica, mas roteiros que se apressaram nos acontecimentos em detrimento do desenvolvimento dos personagens.

[ESPECIAL] Resumão Game of Thrones (HBO): o começo do fim

A partir da sexta temporada, não havia mais os livros da saga “Game of Thrones” de George R. R. Martin para adaptar. Com alguns elementos das obras literárias que não haviam sido ainda usados e informações reveladas aos showrunners pelo próprio autor, a HBO deu continuidade às Crônicas de Gelo e Fogo nas telas mantendo o alto nível de audiência.

O resultado foram temporadas com alguns acontecimentos apressados com o objetivo de chegar às conclusões necessárias para alguns núcleos que precisavam realmente serem finalizados para que o foco ficasse nos personagens principais para a última temporada. Essa decisão acarretou tanto cenas memoráveis quanto momentos estranhos. Seguindo com o especial rapaduriano sobre uma das maiores séries de todos os tempos, vamos discorrer sobre a sexta e a sétima temporadas para entrar no clima da oitava e última, que estreia neste domingo, dia 14 de abril.

Atenção: O texto a seguir possui spoilers de “Game of Thrones”.

Sexta Temporada – Teorias confirmadas

Esta temporada se caracterizou por confirmar várias teorias de fãs e concluir outras tantas tramas que trouxeram revelações ora esperadas, ora surpreendentes. Começando pela ressurreição de Jon Snow (Kit Harington) pelas mãos de Melisandre (Carice van Houten) logo no início, dando fim a meses de especulação dos fãs que recheavam compartilhamentos do ator passando férias com o mesmo cabelo do personagem.

Ao voltar à vida, Jon se aproveita de um loophole no juramento da Patrulha da Noite (servir até a morte) para poder voltar para casa. Logo, reencontra a irmã Sansa Stark (Sophie Turner), que havia sido salva por Brienne (Gwendoline Christie) e agora a tem como protetora jurada.

Nas Ilhas de Ferro, Euron Greyjoy (Pilou Asbæk) basicamente aplica um golpe de estado para tomar o poder, conseguindo ganhar os votos necessários mesmo tendo admito o assassinato do irmão Balon Greyjoy (Patrick Malahide), o senhor do lugar. Theon (Alfie Allen) e Yara (Gemma Whelan), derrotados na tentativa de levá-la ao poder, roubam a frota de Euron.

Ramsay Bolton (Iwan Rheon) mata o pai, a madrasta e o irmão recém-nascido para se tornar o líder de sua casa. Mantendo sua crueldade, os dois últimos são devorados vivos por seus cães famintos. Ramsay também mata Osha (Natalia Tena) e captura Rickon Stark (Art Parkinson), prontamente enviando uma carta a Sansa avisando que mantém seu irmão como refém.

Os acontecimentos levam a um dos momentos mais marcantes da história da televisão, que foi a Batalha dos Bastardos. Com Ramsay usando de seu sadismo para matar Rickon na frente de Jon, o bastardo de Ned Stark teria perdido a luta facilmente, não fosse a chegada do exército de Arryn, que Sansa havia enviado o chamado às armas para que Mindinho (Aidan Gillen) viesse em seu auxílio. Com a vitória, Sansa se vinga do ex-marido ao fazê-lo sofrer a mesma morte canina que adorava impor a suas vítimas. Mindinho, sempre manipulador, revela que seu desejo é sentar no Trono de Ferro com Sansa a seu lado.

No núcleo Lannister, Jaime (Nikolaj Coster-Waldau) retorna de Dorne com o corpo de Myrcella (Aimee Richardson), despertando a fúria vingativa de Cersei (Lena Headey). Em Porto Real, Margaery (Natalie Dormer) e Loras Tyrell (Finn Jones) continuam presos pelo Alto Pardal (Jonathan Pryce), mas ele manipula Tommen (Dean-Charles Chapman) usando do artifício de poupar Margaery da caminhada da penitência e, assim, ganhar mais poder e influência.

Outro resultado da manipulação de Tommen foi o rei ter proibido julgamentos por combate, pondo por terra o plano de Cersei, que ainda não havia sido julgada, de ser defendida por Montanha (Hafþór Júlíus Björnsson).

Cersei então põe em ação seu grande plano vingativo. Durante o que seria seu julgamento e o de Loras, ela se vale do grande estoque de fogo vivo nos subterrâneos de Porto Real para explodir o grande septo de Baelor e todos lá dentro, dando fim às influências do Alto Pardal e tirando alguns Tyrells da jogada, numa cena impressionante que facilmente se tornou uma das mais memoráveis da série. Entretanto, Tommen inesperadamente comete suicídio, tornando a vitória algo doloroso para Cersei que, mesmo de luto, se declara rainha dos Sete Reinos.

Em Essos, Arya (Maisie Williams) está cega e segue treinando com a Criança Abandonada (Faye Marsay). Ao receber a missão para matar uma atriz, Arya recua e é então caçada pela Criança. Num momento pouco verossímil ao ser esfaqueada e sobreviver, Arya consegue derrotar a adversária, recebendo o título de “ninguém” de Jaqen (Tom Wlaschiha), mas num fim de um arco narrativo que demorou para acontecer, entrega um momento poderoso ao dizer que é Arya Stark de Winterfell e vai voltar para casa.

Daenerys (Emilia Clarke) acaba indo parar em Vaes Dothrak, onde moram as viúvas de Khals. Destemida, ela incendeia o local e sai de lá ilesa, conquistando a lealdade dos dothraki. Ela logo se encontra com Jorah (Iain Glen), que revela ter escamagris. Ele parte após ser ordenado que encontre uma cura. Daenerys reencontra Drogon que, se reaparece do nada e sua união é repentina demais para ser crível, rende um discurso notável da protagonista. Enquanto isso, Tyrion (Peter Dinklage) liberta Rhaegal e Viserion para que possam crescer. Daenerys segue para libertar Meereen dos escravagistas e destrói suas frotas com o auxílio de seus dragões. Theon e Yara chegam e se aliam a ela, que nomeia Tyrion como Mão da Rainha e, todos juntos, partem para Westeros com o exército de dothrakis e imaculados.

O inverno finalmente chega a Winterfell, o que resulta não só num adorável diálogo entre os Starks, mas também começa a dar a sensação de que a série está caminhando para seu clímax. Jon Snow é declarado Rei do Norte. Bran (Isaac Hempstead-Wright) treina com o corvo de três olhos (Max von Sydow) e, em suas visões, testemunha seu pai lutando para salvar a irmã Lyanna (Aisling Franciosi), que é encontrada logo após ter dado a luz a seu filho com Rhaegar Targaryen (Wilf Scolding). Moribunda, ela pede a Ned que proteja o bebê e mantenha o segredo de sua origem. A série confirma aqui uma das maiores teorias dos fãs, a de que Jon Snow não era bastardo de Ned Stark (Sean Bean), mas sim o fruto das casas Stark e Targaryen.

Durante o treinamento com o corvo de três olhos, a caverna onde se encontram Bran, Hodor (Kristian Nairn), Verão, Meera (Ellie Kendrick) e alguns filhos da floresta é cercada pelo Rei da Noite (Richard Brake) e seus asseclas zumbis. Há uma barreira mágica que os impede de atacá-los. Sem supervisão, Bran embarca numa visão para ver o exército dos mortos, mas lá ele é visto e tocado pelo Rei da Noite, que com isso quebra a barreira mágica da caverna. A invasão ocorre quando Bran está em outra visão do passado, onde se encontra um jovem Hodor (Sam Coleman). Na tentativa de fuga, Bran acaba assumindo o controle do Hodor adulto, e a conexão afeta a mente da sua versão jovem, que parece entrar em convulsão. Meera foge com Bran através de uma porta após Verão, o corvo de três olhos e os filhos da floresta serem mortos. Ela pede para que Bran, no corpo de Hodor, segure a porta, frase que vai gritando a medida que se afasta com o garoto. A frase em inglês – hold the door – é repetida sem parar pelo jovem Hodor, que em seu transe vai reduzindo as sílabas até sobrar apenas hodor, e não conseguir falar nenhuma outra palavra além dessa pelo resto da vida. Sua versão adulta é morta numa cena que cortou o coração dos fãs.

Quantos acontecimentos importantes numa temporada só! Várias tramas tiveram um ponto final, algumas com boa qualidade, enquanto outras mais questionáveis (todo o núcleo de Dorne, por exemplo, se provou uma bela barriga narrativa). De qualquer forma, com tantas revelações e conclusões bombásticas, a série seguiu firme para a próxima temporada.

Sétima Temporada – A pressa é inimiga da perfeição

Com um número de episódios reduzido (de 10 passou para 7), a sétima temporada pareceu precisar correr para chegar nos acontecimentos finais que a última trará. Com várias conveniências narrativas (como os famigerados “teleportes”), a série acabou entregando uma temporada com cenas vitais, mas pouco desenvolvimento de personagens.

Sam (John Bradley) finalmente começa seu treinamento de meistre na Cidadela, mas passa muito de seu tempo limpando penicos e servindo comida, tudo ilustrado numa ótima sequência com montagem de videoclipe que passa bem a ideia de repetição e avanço de tempo. Lá ele encontra Jorah e, numa das primeiras facilidades de roteiro, encontra um diário sobre um tratamento experimental para escamagris e o oferece a Jorah, que prontamente aceita apesar da extrema dor. Cansado e desapontado com a vida na Cidadela, ele parte com Gilly e seu bebê, não sem antes ouvi-la lendo um diário de um septão que conta ter anulado o primeiro casamento de Rhaegar Targaryen e tê-lo casado com Lyanna Stark. De novo, uma conveniência narrativa que só serve para fechar uma importante, mas bobamente realizada cena no final da temporada quando ele conversa com Bran e ambos descobrem que Jon é o verdadeiro herdeiro do Trono de Ferro.

Arya usa suas novas habilidades para se passar por Walder Frey (David Bradley) e assassinar toda sua família, partindo, em seguida, para Winterfell. Sansa, Arya e Bran se reencontram e compartilham suas histórias. Sansa e Arya parecem se desentender, com Mindinho atiçando o fogo da inimizade entre elas. Esse arco se encerra subitamente com as duas se unindo para julgar e executar Mindinho, numa cena muito comemorada pelos fãs.

Em Westeros, Tyrion dá a ideia de invadirem Rochedo Casterly. A vitória parece fácil demais pois o lugar está pouco habitado. Logo se descobre que Jaime levou o exército Lannister para Jardim de Cima, onde saqueou as grandes quantidades de ouro do lugar e matou (de forma misericordiosa, com veneno) Olenna (Diana Rigg), que antes de morrer, revela que foi ela quem envenenou Joffrey (Jack Gleeson). No retorno, o exército de Jaime é atacado pelo de Daenerys, com os dothraki e Drogon. A vitória é da Targaryen, mas Drogon é alvejado por uma balista e precisa pousar. Jaime, aproveitando-se da distração, tenta matar Daenerys, mas quase é morto pelo dragão. A sequência da batalha é magnífica e tem momentos de brilhantismo da direção, mas se encerra numa cena que força a suspensão da descrença do espectador.

Jon Snow parte para Pedra do Dragão para pedir que Daenerys se junte a ele na batalha contra os Caminhantes Brancos e para solicitar permissão e minerar vidro de dragão, abundante na região. Ela só ajuda se ele se submeter a ela, o que é recusado. Tyrion a convence a conceder pelo menos o material para Jon. Jorah retorna curado e é aceito de volta.

Yara Greyjoy e sua frota são atacados por Euron, que a captura (enquanto Theon foge) juntamente com Ellaria (Indira Varma) e Tyene (Rosabell Laurenti Sellers). Elas são levadas à Cersei como presentes de Euron, que a pede em casamento. Cersei concorda, mas só após o término da guerra. Vingativa, Cersei prende Ellaria com a filha recém-envenenada pela mesma substância que foi usada em Myrcella, para que a mãe a veja morrer.

Num dos pontos mais controversos da temporada, o inteligente Tyrion tem a estúpida ideia de que se capture um zumbi para ser usado como prova a Cersei de que eles são reais e que uma trégua é necessária para que todos se unam na batalha contra os Caminhantes Brancos. Ele parte para Porto Real com Davos (Liam Cunningham) para iniciar as negociações com Jaime e lá encontram Gendry (Joe Dempsie) – que finalmente retorna a série após parecer ter sido esquecido pelos roteiristas – e o recrutam.

Jon parte para a Muralha com Jorah e Gendry, onde encontram com o Cão (Rory McCann), membros da Irmandade sem Baneiras e Tormund (Kristofer Hivju), e todos partem para a missão juntamente com figurantes que somem e aparecem conforme é conveniente.

A missão se mostra a maior falha de roteiro da temporada e inclui imensas facilidades narrativas forçadas. Um bom exemplo é que eles logo dão de cara com um pequeno grupo de zumbis e um Caminhante Branco, o suficiente para darem conta da batalha e descobrirem que se ele for morto, os zumbis criados por ele também são derrotados. Convenientemente, apenas um zumbi sobra.

Ao tentar retornar, se deparam com o exército completo dos Caminhantes Brancos. Jon ordena que Gendry corra para a Muralha e mande um corvo para que Daenerys venha ajuda-los. Na fuga, eles ficam isolados numa pequena ilha no meio de um lago diminuto. Quando o lago congela, os zumbis avançam, mas Daenerys chega com seus dragões e os salva, com exceção de Jon que fica para trás e tenta avançar contra o Rei da Noite após este matar Viserion com uma lança de gelo. A cena impressiona pela qualidade gráfica, mas peca no drama humano. O choque vem mais de ver o dragão sendo morto do que pela reação blasé de Daenerys, que passou temporadas dizendo que eles são seus filhos. Sem contar que a passagem de tempo durante toda essa sequência simplesmente não faz sentido.

Jon acaba sendo salvo pelo tio Benjen (Joseph Mawle), num exemplo de Deus ex machina que ilustra um roteiro preguiçoso e que parece só ter servido para dar um fim (bobo) ao personagem. Ao se reencontrar com Daenerys, Jon a reconhece como rainha. Tudo termina com os zumbis usando correntes para trazer Viserion à superfície, onde o Rei da Noite o ressuscita e o converte, o que levanta questões sobre a verossimilhança da série, pois se os zumbis podem entrar no lago para passar correntes ao redor de um dragão, porque eles não podiam entrar no lago e chegar a ilha onde estavam Jon e os demais?

De qualquer modo, o zumbi é levado a Porto Real e ocorre a reunião entre os principais personagens da série. Euron diz que é tudo demais para ele e parte, e Cersei concorda em ajudá-los na batalha. Pouco depois, ela revela a Jaime que nunca pretendeu realmente auxiliá-los e que Euron não tinha deserdado, mas sim estava a caminho de Essos para trazer a Companhia Dourada para engrossas as fileiras de batalha dos Lannister após um acordo comercial entre Cersei e o Banco de Ferro de Braavos. Jaime, que tinha seu arco pausado até então, finalmente abandona a irmã e parte para o norte. Numa cena emblemática, começa a nevar. O inverno, meus amigos, chegou de fato.

Após a reunião, Jon e Daenerys transam, numa clara ilustração de como a série apressou acontecimentos e acaba atropelando seus personagens. Mal dá tempo de sentir a atração e o aparente carinho que os dois desenvolvem um pelo outro desde o começo.

A temporada termina na emblemática cena em que o exército dos Caminhantes Brancos (finalmente) chega à Muralha, onde o Rei da Noite usa Viserion e seu agora fogo azul para destruí-la.

A sétima temporada sofreu com acontecimentos apressados e pouco investimento no desenvolvimento dos personagens em si. Mesmo assim, a redução no número de episódios ajudou a fazer o orçamento render e as cenas de batalha, e o CGI dos dragões são magníficos.

Oitava Temporada – Final glorioso?

A sétima temporada pode ter sido corrida, mas parece ter deixado o terreno pronto para que a oitava renda bem. A derradeira temporada conta com apenas seis episódios, mas todos mais longos, com o primeiro tendo 54 minutos e cada um sendo um pouco maior até o último, que terá uma hora e vinte minutos de duração.

Desde “Lost” não havia uma série que mexesse tanto com a indústria da televisão e criasse tanto hype em seus fãs. Após o hiato de mais de um ano, a expectativa de que esse tempo tenha sido bem investido em qualidade e resulte numa última temporada histórica é difícil de ser evitada. A conclusão das Crônicas de Gelo e Fogo segue firme para se consagrar como um marco do entretenimento mundial.

Bruno Passos
@macacaosapao

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