Cinema com Rapadura

Entrevistas   sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Setembro 5 | “É uma Caixa de Pandora”, diz Ben Chaplin sobre o dilema jornalístico do filme [ENTREVISTA]

Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, filme já está em cartaz nos cinemas brasileiros.

Setembro 5 | “É uma Caixa de Pandora”, diz Ben Chaplin sobre o dilema jornalístico do filme [ENTREVISTA]>
(Imagens: divulgação/Paramount Pictures)

Há eventos que moldam a história de uma era, e o atentado à delegação de Israel nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972 é certamente um deles. Os jogos foram um dos primeiros grandes eventos esportivos com transmissão ao vivo pela televisão, o que fez do atentado um momento em que o mundo todo prendeu a respiração em desespero para que tudo terminasse bem. A emissora oficial dos jogos pelos EUA, a ABC Sports, transmitiu todo os desdobramento do atentado ao vivo, marcando uma era no jornalismo televisivo. É a história por trás dessa transmissão que “Setembro 5“, que já está em cartaz nos cinemas, conta.

Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, o longa tem direção de Tim Fehlbaum e um elenco consagrado liderado por Peter Sarsgaard, John Magaro e Ben Chaplin. Em entrevista cedida com exclusividade ao Cinema Com Rapadura pela Paramount Pictures, Chaplin falou sobre a perspectiva do filme ao retratar a equipe da ABC Sports,, os dilemas éticos por trás da transmissão, e o trabalho durante a produção do filme.

O atentado em si já foi retratado em outros filmes, o mais famoso sendo “Munique”, de Steven Spielberg, mas “Setembro 5” marca a primeira vez em que a perspectiva jornalística em si ganha os holofotes nas telonas, algo que interessou Chaplin no projeto.

“Essas histórias são bem raras. São comuns, mas não sabemos sobre elas. Então, suponho que foi uma janela para um pequeno aspecto de um evento global e as pessoas reais que fizeram parte disso, que por acaso foram pegas naquele momento. Achei o roteiro muito preciso, muito claro, e achei que as vozes eram muito distintas.”

A cobertura do atentado, algo até então sem precedentes no jornalismo televisivo em escala internacional, ajudou a moldar como eventos históricos são abordados pela mídia e assimilados pelo público. Para Chaplin, o que marcou o momento foi justamente a imprevisibilidade do momento:

“Foi um evento que se desenrolou ao vivo, uma tragédia, e estava sendo filmado e transmitido ao vivo, então isso é crucial. Sim, esse é um momento crucial e também é algo que você não pode, é um momento da Caixa de Pandora, eu acho. Você não pode voltar atrás.”

Filmes sobre jornalismo são um gênero em si e frequentemente abordam a realidade da profissão principalmente sobre um ponto-de-vista ético. Dar uma notícia urgente, transmitir um evento ao vivo… Essas são questões corriqueiras na área, mas que nunca deixam de testar os limites do que se deve ou não fazer em uma situação tão delicada quanto a retratada em “Setembro 5”.

“No nosso filme, o que está acontecendo naquele mundo, as Olimpíadas, ficam em segundo plano em relação à situação terrorista em andamento, na qual terroristas invadiram a Vila Olímpica e a casa dos atletas israelenses e fizeram alguns atletas israelenses reféns. Então a decisão fundamental na sala [de transmissão] é se podemos cobrir isso ao vivo e, se sim, como fazemos isso e, se fizermos isso e algo realmente ruim acontecer e estivermos filmando, se será transmitido ao vivo. Essa é a pergunta fundamental, eu acho. Essa é uma pergunta que meu personagem, Marvin Bader [chefe de operações da ABC Sports], faz a Roone Arledge [presidente da ABC Sports]. Roone Arledge não sente necessariamente que tem uma responsabilidade com isso, sua responsabilidade é gravar e transmitir. Acho que ambos, há um argumento para ambos os lados.”

Filmes sobre jornalismo sempre trazem consigo os dilemas éticos ao redor do fato que ocorre em segundo plano, e Chaplin ressalta o papel da mídia e da informação atualmente. Em uma era em que qualquer pessoa pode transmitir e comentar fatos ao vivo, verdade e objetividade ficam cada vez mais distantes do fato em si.

“Há uma questão fundamental que surgiu pela primeira vez em Munique 1972, que é, “Oh, bem, está na TV, então eu acredito, certo?” Estamos vivendo com isso exponencialmente aumentado agora, a ponto de afetar nossas realidades massivamente, massivamente. A consciência das pessoas. Ninguém concorda, mais. Essa é uma questão que me intriga agora. Não se compartilha mais fatos objetivos. Eu simplesmente não vejo como pode ser o nosso futuro.”

O elenco de “Setembro 5” é encabeçado por Sarsgaard, Magaro e Chaplin, três atores conhecidos principalmente por seu trabalho no cinema independente, mas conta também com talentos alemães e franceses, entre outros. Segundo Chaplin, o forte de um elenco tão diverso está na autenticidade:

“Todos estavam incríveis, acho, e é uma daquelas raras vezes que é o caso, onde todo mundo tem uma vida. Você reconhece cada pessoa instintivamente, você sabe que eles são autênticos e verdadeiros. Foi como fazer teatro com câmeras: todo mundo está lá para apoiar um ao outro porque estamos todos lá juntos. Foi divertido, sabe, nós nos divertimos juntos. Você tem que se divertir em uma sala pequena como aquela.”

“Setembro 5” é apenas o terceiro longa-metragem do diretor suíço Tim Fehlbaum. Chaplin, contudo, afirma que Fehlbaum soube dosar autenticidade e realismo de uma forma única.

“Tim foi ótimo. Tim estava tão preparado, que me surpreendeu, sabe? A quantidade de trabalho e pesquisa que ele tinha feito sobre isso quando eu cheguei… Ele transmite uma segurança muito grande, você percebia que estava em boas mãos. Eu queria fazer isso pela leitura e pelos atores envolvidos, mas você sabia imediatamente que estava com alguém que tornaria [o filme] algo autêntico e realista na medida em que a história merece.”

Por fim, Chaplin espera que “Setembro 5” faça o público pensar sobre a responsabilidade por trás da transmissão dos fatos, independente da mídia em que ela ocorre:

“Suponho que, se eu tivesse uma esperança sobre o filme, seria apenas que as pessoas pensassem sobre o que a cobertura ao vivo pode fazer, o que ela significa. É suficiente apenas filmar algo acontecendo, cobrir e deixar o público decidir? Ou as pessoas que estão cobrindo têm uma responsabilidade com que estão fazendo? E mais importante, até que ponto essa cobertura afeta o resultado do mundo real do evento que você está cobrindo? Acho que não há dúvida de que afeta.”

==

“Setembro 5” já está em cartaz nos cinemas brasileiros.

Saiba Mais: ,

Julio Bardini
@juliob09

Compartilhe

Saiba mais sobre


Notícias Relacionadas