Cinema com Rapadura

Entrevistas   quarta-feira, 20 de novembro de 2019

[ENTREVISTA] A Vida Invisível | “O resultado é um filme essencial à mulher”, afirma Fernanda Montenegro

Com Fernanda Montenegro no elenco, filme pré-selecionado pelo Brasil para concorrer ao Oscar 2020 teve sessão acompanhada de coletiva de imprensa em São Paulo.

[ENTREVISTA] A Vida Invisível | “O resultado é um filme essencial à mulher”, afirma Fernanda Montenegro

Apresentado ao público na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “A Vida Invisível” é o filme escolhido pelo Brasil para representar o país em uma campanha rumo ao Oscar 2020. Dirigido pelo cearense Karim Aïnouz (“Praia do Futuro”), a obra conta a história de duas irmãs, filhas de pais conservadores, que se desencontraram nos anos 1950 e passam suas vidas tentando se reencontrar.

Baseado no livro “A Vida invisível de Eurídice Gusmão“, escrito por Martha Batalha, o longa é uma daquelas experiências marcantes por oferecer mensagens muito maiores do que sua narrativa aparenta. Talvez por isso esteja constantemente nas listas dos melhores do ano até agora. O Cinema com Rapadura esteve presente na coletiva de imprensa durante sua exibição em São Paulo, que contou com o elenco principal, produtor e o próprio diretor. Veja os melhores trechos:

Rodrigo Teixeira (Produtor): Realizar este filme é um passo significativo em termo de produção nacional porque ele não foi feito, inicialmente, com verbas públicas. Como o investimento por meio de edital estava demorando para ser liberado e nós precisávamos de agilidade, a minha produtora, RT Features, investiu cem por cento e, conforme o filme foi sendo rodado, fomos recuperando. Mas tudo isso só foi possível pelo planejamento e criatividade do Karim (Aïnouz), que é um diretor excepcional e sabe como ninguém aproveitar o melhor de cada cena, mesmo que precise rodá-la diversas vezes. Aliás, quando li o livro, a primeira pessoa que eu pensei para realizá-lo foi o Karim, porque eu acreditava que a sua visão traria a qualidade que o material original merecia. E o que poderia ser um simples melodrama se tornou um filme repleto de camadas.

Karim Aïnouz (Diretor):. Rodar este filme foi um desafio, tendo em vista que fugia do formato que eu estava acostumado a rodar. Com o elenco afiado, nós conseguimos reconstruir o Rio de Janeiro da década de 1950 em boas tomadas, sem precisar de grandes construções e apenas utilizando o que a cidade conservava da época, seja uma rua seja uma sala de estar. Porém, realizar um filme na década de 1950 teve sua importância não só por quesitos técnicos e de adaptação, mas sobretudo pela mensagem do filme, que tem tudo a ver com as mulheres e como a sociedade as colocava em um papel, algo que não mudou muito até hoje. Paralelamente, conseguimos mostrar como tudo começou; como essas mudanças estão ocorrendo até hoje. Para tornar tudo crível, contamos com a direção de arte do uruguaio Rodrigo Martirena e com a fotografia da francesa Hélène Louvart, que trouxeram uma nova visão para essa reconstrução que fizemos do Rio de Janeiro e seu cenário social e cultural daquela época. 

Fernanda Montenegro (Atriz): Sem o Teixeira (Rodrigo) não haveria filme. Dito isso, devo lembrar que nós, do elenco, chegamos depois. Daí em diante foi o Karim (Aïnouz) que comandou tudo, o que devo dizer que fez muito bem. Aliás, o que poderia ser uma construção de história linear se mostrou, na prática, algo muito além. O Karim é um diretor excepcional e tudo o que ele pedia em cena era diferente a cada vez. Nenhuma tomada era feita da mesma forma, foram repetidas vezes, justamente porque ele não buscava o aprimoramento de algo que poderia ser encontrado na interpretação como essencial. Não foi esse o objetivo, e sim o de buscar um frescor na interpretação de cada um, tornando todo o processo bastante criativo. O resultado é um filme essencial à mulher. 

Julia Stockler (Atriz): A vida da Guida, minha personagem, é um pouco fora da curva, porque naquela época, apesar de tudo o que as mulheres passavam e o que significavam se não se enquadrassem no que a sociedade esperava, ela quis fazer diferente. Ela seguiu seu próprio caminho, sempre na esperança de um dia rever a irmã e por ser mãe solteira fazia o que precisava fazer para seguir sua vida. Acho que é justamente aqui que está a força dessa personagem, tão poderosa e essencial.

Carol Duarte (Atriz): Quando entrei no filme, ainda não sabia ao certo como seria a personagem, o que descobri em uma leitura de roteiro e acabei me envolvendo definitivamente com ela. A vida da Eurídice, que vive inteiramente naquele apartamento de classe média, é uma passagem pela vida de muitas mulheres, sobretudo com a violência muda que ela sofria. Ela não podia fazer nada, não podia ser ninguém. E esse foi o papel, sobretudo naquela época, de muitas mulheres. Ao longo da trama, então, ela vai se emudecendo, perdendo ainda mais sua força e ficando cada vez mais curva, mais calada. E tudo isso, em sua vida, estava um pouco além das palavras.

Gregório Duvivier (Ator): Eu faço um tijucano clássico, um homem de outro tempo que ainda é muito visto hoje em dia. Um homem real, graças à direção do Karim (Aïnouz) e à Manu (Maria Manoella), pois eles criavam o clima mais louco, com as sensações inusuais. E realizar tudo isso com o peso do personagem em mãos foi muito intenso e, ao mesmo tempo, muito gratificante.

Maria Manoella (Atriz): Minha personagem é a Zélia, que representa um pouco a mulher que não é dominada pelo marido, pelo patriarcado e pelo machismo. Ela é a responsável por sempre puxar a Eurídice desse caminho, sempre mostrando que ela pode ser mais do que alguém submissa ao seu marido, algo tão comum naquela época. Além disso, tive a oportunidade de trabalhar como produtora de elenco, algo que me permitiu chamar atores que muitas vezes não são tão conhecidos do grande público, mas que tem muito talento para mostrar ao espectador.

“A Vida Invisível” estreia em 21 de novembro em todo o Brasil.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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