Cinema com Rapadura

Entrevistas   sábado, 13 de abril de 2019

[ENTREVISTA] Bate-papo com elenco e diretora de De Pernas pro Ar 3

O Cinema com Rapadura entrevistou a diretora e o elenco desta nova comédia do cinema nacional.

[ENTREVISTA] Bate-papo com elenco e diretora de De Pernas pro Ar 3

“De Pernas Pro Ar” se tornou sucesso, em 2010, por abrir espaço para uma fórmula rara no cinema nacional: protagonista feminina em uma comédia. Mais do que isso, não eram apenas as piadas e situações cômicas de Alice (Ingrid Guimarães, “Um Namorado para Minha Mulher”). Trata-se da identificação com mulheres que passam suas vidas batalhando pelo impossível equilíbrio entre vida profissional e pessoal, sobretudo em uma sociedade intrinsecamente machista.

Quando descobriu o prazer do orgasmo, por conta de sua nova amiga, Marcela (Maria Paula Fidalgo, “Doidas e Santas”), a vida de Alice deu um salto em qualidade. Suas autodescobertas a tornaram plena no trabalho, mas o preço que o sucesso profissional lhe causou a transformou em uma mãe ausente, tendo constantes cobranças de seu marido.

O segundo filme, “De Pernas Pro Ar 2”, de 2012, mostrou ao espectador que o sucesso pode ser ainda maior, tendo Alice vivenciando experiências internacionais pela primeira vez. Porém, o preço se tornou mais alto. A protagonista sofre, como tantas mulheres brasileiras, o preconceito em não poder almejar o sucesso sem que, contraditoriamente, tenha sua presença sentida pelos familiares. Ossos do ofício.

Chegou a vez da estreia de “De Pernas Pro Ar 3”, com a direção de Julia Rezende (“Ponte Aérea”), que nos filmes anteriores era assistente de direção de Roberto Santucci (“O Candidato Honesto”), veterano do cinema cômico. Com comédias e romances em seu currículo, a diretora se provou necessária para este capítulo, cujo comando de uma mulher é essencial para o desenvolvimento da protagonista.

Com lançamento em 11 de abril de 2019 em todo o Brasil, chega a hora de conferir uma nova fase na vida de Alice. Para conhecer um pouco mais, o Cinema com Rapadura entrevistou a diretora e o elenco, em um bate-papo dinâmico sobre o processo de filmagem, a Alice de 2019 e a mudança social em decorrência do empoderamento feminino. Confira.

Julia Rezende

O processo de filmagem foi bastante fluido, por conta da proximidade da diretora com o elenco, pois, desde o primeiro filme, ela já atuava na produção. Com isso, enquanto os atores amadureceram suas carreiras e personagens, Julia se tornou cineasta de mão cheia, acumulando alguns sucessos, como “Meu Passado Me Condena”.

A linguagem utilizada, mais sensível do que nos filmes anteriores, trouxe uma nova roupagem à Alice de Ingrid Guimarães. Além de plenamente consciente de seu corpo e carreira, agora é a vez de novas escolhas serem feitas, em um delicioso duelo entre a maturidade e a juventude, e de novas nuances ao relacionamento da protagonista e João (Bruno Garcia, “Lisbela e o Prisioneiro”).

Todo este processo resulta em um filme com fala feminina muito mais forte, centrado no que as mulheres de hoje pensam e procuram, o que já é bastante diferente do primeiro longa, nove anos antes. Tal adequação torna a proximidade com o público ainda maior, sem deixar de lado as piadas, estas mais orgânicas às necessidades do roteiro.

Bruno Garcia

O ator afirma que o panorama de seu personagem, João, mudou bastante com o passar dos anos, acompanhando os três recortes temporais na vida dos personagens. Por isso, sua singularidade se torna mais potente, tendo em vista que o João de 2010 é visivelmente diferente do que apresenta neste longa-metragem, fruto da mudança de comportamento da sociedade brasileira atual.

Aliás, é visível, como o próprio ator afirma, que seu personagem passou por aperfeiçoamento de roteiro. Agora o espectador conhece um pouco mais sobre sua carreira, seus receios e até mesmo o conformismo diante de uma mulher plenamente em atividade, além do relacionamento de João e Alice, que passa por uma crise até então inédita.

Eduardo Melo e Samya Pascotto

Eduardo Melo (“Confissões de Adolescente”) é o filho mais velho de Alice e João, Paulinho, que entrou para a fase pós-adolescência descobrindo sua própria sexualidade. Desta forma, o estranhamento entre sua mãe, liberal, e o filho que leva diversas garotas para casa é o mote para o agora adulto personagem. Ao mesmo tempo, o idealismo caminha lado a lado e, de tal jeito, será um grande aliado para seu personagem diante de um mundo no qual os sonhos acompanham com suas realizações. Este é o gancho para a tecnologia e tudo o que os millennials procuram como consumidores.

Por sua vez, Samya Pascotto (“Onde Quer que Você Esteja”) dá vida à Leona, outra pós-adolescente que, fã de Alice, se descobre milionária com um equipamento que promete mudar a vida sexual de muita gente. Seu relacionamento com Paulinho não poderia dar um gancho maior para suas cenas com a protagonista.

Ambos os atores afirmam que, neste mundo repleto de exposição, é o idealismo de seus personagens que melhor pode representar a atual geração. Com a responsabilidade de refletirem uma geração em plena expansão, a química de seus personagens nas gravações ajudou a manter o equilíbrio do que é a superexposição e o que são os valores familiares diante de tanta informação. Paulinho e Leona representam valores fundamentais para isso.

Ingrid Guimarães

A protagonista de tudo isso, Ingrid Guimarães, se mostra bastante consciente diante da responsabilidade que sua carreira como atriz cômica e protagonista representa. Desde 2010, quando o primeiro filme estreou, as mudanças sentidas em mulheres de todo o país passaram a acompanhar a atriz. Por isso, todo o processo referente aos três filmes se fez transitório não somente para sua carreira, mas para os reflexos sociais que a sua Alice desempenhou.

Ingrid afirma que até mesmo os convites para novos personagens mudaram. E grande parte disso é por sua própria garra, pois, se há poucos anos os convites eram para participações em longas com personagens principais masculinos, hoje ela produz, protagoniza e escreve, quando necessário, para garantir que sua voz seja escutada e, em consequência, que a mulher brasileira seja empoderada.

O símbolo que a protagonista da franquia “De Pernas Pro Ar” se tornou é evidente. Há nove anos, a descoberta dos vibradores em cinemas de todos os mundos ainda chocava muita gente. Hoje, são outras experiências e, de maneira até mesmo irônica, a carreira da mulher continua sendo um grande tabu. Como se não bastassem três filmes para dar voz ao empoderamento feminino, Ingrid tem consciência de que ao menos o diálogo está aberto, e as mudanças sociais, tão necessárias, se fazem presentes. Além de tudo, esta discussão surge de uma comédia.

 

“De Pernas Pro Ar 3” teve sua estreia em todo o Brasil em 11 de abril de 2019.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

Compartilhe


Notícias Relacionadas