Cinema com Rapadura

Críticas   segunda-feira, 28 de março de 2005

Kill Bill Volume 1

A vingança nunca é uma linha estreita. E assim como uma floresta, é fácil perder o caminho e esquecer de onde viemos.

Pode até parecer uma pretensão, mas a experiência de assistir a Kill Bill – Volume 1, de Quentin Tarantino, nos dá uma sensação de reminiscência à grandiloqüência de Era Uma Vez no Oeste, de Sérgio Leone. Quem entende de cinema sabe o que isso significa. Se Leone conseguiu em seu filme relembrar com proeza momentos significativos dos clássicos do cinema faroeste, Tarantino faz o mesmo em Kill Bill com os filmes de kung-fu e de samurais japoneses. É uma carga pesada de referências aos livros de banda-desenhada, às películas sobre a Yakusa (a máfia japonesa), aos filmes de terror gore italianos (leia-se Dario Argento) e, é claro, aos "westerns spaghetti" de Leone.

Ora, se no mundo hollywoodiano é quase praticamente impossível fazer algo original, por que não reinventar a partir do que nos já foi legado pela tradição cinematográfica? Tarantino jogou num só liquidificador todas essas referências acumuladas, mas isso não impediu que sua mente criativa introduzisse algo próprio. A narrativa não-linear, o esvaziamento psicológico dos personagens, os diálogos absurdos e a trilha sonora impecável perpassam todo o filme. Os fãs do diretor podem até argumentar que esta proeza já era um atributo marcante em Cães de Aluguel e Pulp Fiction. No entanto, a maneira sutil como tais referências foram intercaladas em Kill Bill faz de Tarantino um cineasta mais maduro.

Como essa sutileza transparece em Kill Bill? Citar todos os diversos recursos utilizados não caberia no espaço limitado de uma resenha (e, de certa forma, acabaria com o interesse daquele que ainda não assistiu ao filme). Mas a título de ilustração, segue-se um exemplo. No desenrolar das cenas de luta, as seqüências a cores são substituídas para o preto-e-branco. Mais do que um recurso estético, Tarantino relembra uma prática muito comum nos anos 70. Para que os filmes de kung-fu passassem inócuos pela censura norte-americana, os distribuidores faziam cópias em preto-e-branco das cenas consideradas "mais violentas". A falta da cor vermelha do sangue nas telas permitia que os filmes fossem aprovados e exibidos na TV.

Aliás, em se tratando de violência, há um aspecto a ser apontado. Classificar Kill Bill como "ultraviolento" chega a ser uma piada quando se trata do universo tarantiniano. Violência é uma categoria imprevisível nos filmes do diretor. Nunca se sabe até que ponto isso será trabalhado. É claro que ele exagera nas doses de sangue, braços amputados, abdomens perfurados, etc. Mas a carnificina está contextualizada num cenário fake, que a meu ver, não causa nenhuma estranheza ao discurso sádico da linguagem cinematográfica de Tarantino. Em outras palavras, o filme merece sua própria carnificina.

Ditas todas essas considerações prévias, cabe agora situar o espectador sobre a história de Kill Bill (ainda que isso não seja o mais importante). No dia do ensaio para o seu casamento, a Noiva (Uma Thurman) é brutalmente violentada por seus antigos parceiros de crime, o Esquadrão Assassino de Víboras Mortais (DiVAS, em inglês) comandados por Bill (David Carradine). Despertada após quatro anos em coma, ela começa a se vingar, primeiro de Vernita Green (Vivica A. Fox) e O-Ren Ishii (Lucy Liu). As demais "víboras" protagonizadas por Daryl Hannah e Michael Madsen completam a lista negra mortal de A Noiva, que será provavelmente cumprida na seqüência do filme (o Volume II).

O argumento torna-se até banal se relativizarmos ao tema em questão: a vingança, que diga-se de passagem, é tratada com maestria por Tarantino. Não apenas pelo provérbio chinês de que "a vingança é um prato que se come frio", mas também pela homenagem feita às tragédias gregas em que se perdoa o outro pelo ato de humilhação concedido, mas nunca se pode negar o direito de se vingar de tal ato. E quando se trata da ira feminina, este horizonte pode alcançar níveis inimagináveis. Como diz o samurai Hattori Hanzo, em Kill Bill: "A vingança nunca é uma linha estreita. E assim como uma floresta, é fácil perder o caminho e esquecer de onde viemos." Que assim seja! E que venha logo o Kill Bill – Volume II !

Cinema com Rapadura Team
@rapadura

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