Cinema com Rapadura

Críticas   segunda-feira, 02 de dezembro de 2019

Wasp Network (2019): desperdício de conteúdo

Com montagem confusa e excesso de personagens mal desenvolvidos, esta empreitada do competente cineasta Olivier Assayas é um desperdício de toda a discussão que o filme poderia trazer.

A situação política cubana já serviu de inspiração para diversos filmes, dentre os quais se destacam “Últimos Dias em Havana” e o americanizado “Scarface”. Usando como pano de fundo a história de Fidel Castro, diversas produções exploraram diferentes perspectivas para proporcionar reflexões ao espectador. Em “Wasp Network”, são trabalhados os dois lados políticos: daqueles que concordam com o sistema político implantado no país e os que sofrem tanto com os problemas sociais que enfrentam o ditador em missões praticamente suicidas.

Acompanhando o segundo grupo, o longa apresenta ao público a vida de René Gonzalez (Édgar Ramírez), homem cujos princípios morais o fazem cair nas graças da resistência. Para cumprir seu destino, ele precisa deixar sua família em Cuba, mesmo que seja perante a brutal realidade daquela época, e partir para Miami em uma missão que pode não ter volta. Sua esposa, Olga (Penélope Cruz), precisa cuidar de sua filha, trabalhar e tentar compreender o porquê de seu marido tê-la abandonado.

Já em terras ianques, René se envolve com Juan Pablo Roque (Wagner Moura), uma estrela em ascensão que se faz de vitrine para desviar a atenção das missões nas quais está envolvido. Charmoso e carismático, ele se envolve e se casa com Ana Margarita (Ana de Armas), enquanto precisa constituir uma família para mostrar ao mundo que não oferece perigo algum. Outras figuras que circundam a vida do protagonista são o piloto que o inspira e que serve como companheiro (Leonardo Sbaraglia), e outro misterioso homem que o ajuda a cumprir suas operações (Gael Garcia Bernal).

Há personagens em demasia no roteiro, o que logo se apresenta como um problema para o filme. Isso porque se tenta desenvolver cada um enquanto as nuances políticas são expostas através do desenrolar da ação. Porém, justamente por não encontrar foco, apenas os problemas do casal principal conseguem encontrar um ponto de equilíbrio na história de uma época em que Cuba encontrava seus justiceiros. Assim, o drama entre os protagonistas se torna cada vez mais superficial, tendo em vista que o mote da produção não é a relação de cônjuges separados por adversidades políticas.

Dirigido e escrito por Olivier Assayas, que costuma focar sua carreira em ótimos dramas como “Acima das Nuvens” e “Personal Shopper”, seu novo projeto se desprende de uma linearidade narrativa. A montagem é extremamente confusa, como se o diretor não tivesse se preocupado em juntar as peças que o roteiro exige para apresentar um enredo coerente. Ao contrário, os personagens vão de um lado a outro sem propósito, tendo várias tramas abandonadas no meio do segundo ato, quando justamente deveriam ser desenvolvidas. Essa condição causa um estranhamento instantâneo no espectador, que passará mais de duas horas acompanhando a trajetória de René.

Além disso, há outro problema narrativo que atrapalha o desenvolvimento da história. Em alguns momentos, o livro “Os últimos soldados da guerra fria” de Fernando Morais que serviu de inspiração para o longa, é citado de forma imparcial ideologicamente, o que compromete a escolha pela qual se pretende seguir. A exploração de diferentes perspectivas e do quadro político em Cuba reflete em tudo o que a América Latina passou e tem passado com governos mais preocupados em lidar com a mídia do que com problemas sociais. Dessa forma, os defensores e os detratores de Fidel Castro encontram lugar ao sol, o que pode gerar, ao invés de reflexão, dúvidas ainda maiores.

Portanto, a neutralidade de “Wasp Network” soa como uma fragilidade narrativa, impedindo que se compreenda as diversas nuances possíveis por não oferecer profundidade necessária a cada uma das óticas. Além disso, a montagem confusa e o excesso de personagens faz com que o filme se mostre como uma experiência enfadonha, salvo apenas pelo que o elenco latino tenta fazer com em seus respectivos papéis. Um desperdício de conteúdo que merecia mais discussão.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Wasp Network (2019)

Wasp Network - Olivier Assayas

Havana, dezembro de 1990. René González, um piloto cubano, rouba um avião e foge do país, deixando para trás a amada esposa e a filha. Ele começa uma nova vida em Miami, que logo é acompanhada por outros dissidentes cubanos, todos trabalhando para a desestabilização do regime de Fidel Castro. Adaptação do livro "Os Últimos Soldados da Guerra Fria", de Fernando Morais.

Roteiro: Olivier Assayas

Elenco: Edgar Ramírez, Penélope Cruz, Wagner Moura, Gael García Bernal, Ana de Armas, Harlys Becerra, Julian Flynn, Gisela Chipe, Brannon Cross, Michael Vitovich, Steve Howard, Stephen W. Tenner, Ruairi Rhodes, Johanna Sol, Julio Gabay, Eric Goode, Adria Carey Perez, Thomas Dubyna, Patricia Gonzalez Ciuffardi, Casandra Lungu

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