Cinema com Rapadura

Críticas   quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Carcereiros – O Filme (2019): filme de ação e ponto final

Um bom exemplo do que o cinema nacional pode proporcionar dentro do gênero ação, filme é o resultado de muitas histórias que não foram contadas em duas temporadas na televisão.

Dráuzio Varella passou parte de sua carreira atrás das grades figurativas e reais de presídios em São Paulo. Médico por formação e bastante conhecido pelo público brasileiro por suas opiniões na área da saúde, o também escritor criou o icônico “Carandiru”, adaptado para o cinema por Hector Babenco. Com isso, trouxe o lado humanizado da convivência de seres humanos que passam suas vidas dentro de prisões bastante reais. Dessa vez, sua obra homônima inspirou “Carcereiros – O Filme”, um exemplo genuíno de filme de ação.

Porém, antes de inspirar uma obra cinematográfica, o livro “Carcereiros” se tornou um documentário, que, por sua vez, deu ideias para um seriado com duas temporadas, dirigido por José Eduardo Belmonte e escrito a oito mãos por Marçal Aquino, Fernando Bonassi, Dennison Ramalho e Marcelo Starobinas. Com o filme em questão, não foi diferente. Após a duração na TV, a vida de Adriano (Rodrigo Lombardi) ganhou uma expansão após recorrentes sugestões de elenco e roteiristas ao diretor, veterano profissional de longas como “A Concepção”, “Alemão” e “Entre Idas e Vindas”. No enredo, o principal agente penitenciário tem a dura missão de preparar a cadeia para receber o perigoso terrorista internacional Abdel Mussa (Kaysar Dadour). Quando a tensão aumenta, ainda é necessário conter duas facções criminosas que vivem separadamente.

Apesar do grande material de inspiração estar em diversas mídias, é mesmo a direção de Belmonte que faz a diferença para a empreitada funcionar. Isso porque o roteiro não encontra um ponto-chave, inserindo elementos em demasia enquanto ocorre o desenrolar da trama no presídio. Há personagens demais e pouco explorados, além da falta de aprofundamento no próprio protagonista, que tem no relacionamento com sua filha uma ótima oportunidade desperdiçada. Por isso, a câmera inquieta do cineasta merece crédito por criar uma obra de linguagem diferente daquela adaptada na televisão. Plataformas distintas que podem se completar, mas, sobretudo, se atrapalhar se não forem bem trabalhadas.

Grande parte do crédito técnico, aliás, também se deve à fotografia de Alexandre Ramos, que encontra a urgência de uma história que se passa em apenas uma noite. Quando Adriano precisa receber um preso diferente daquela realidade, sabe que todo o esquema de segurança está em suas mãos. O terrorista Abdel Mussa (Kaysar Dadour) está em passagem pelo Brasil e os demais presos, quando sabem de sua presença e de seus crimes, não ficam nada felizes com isso. Para completar, a participação do Comandante (Jackson Antunes) é um terceiro contraponto à situação do local, o que já deixa o roteiro disperso nesta altura do campeonato.

Mesmo com as dispersões narrativas, o elenco merece elogios pelo que consegue desenvolver em cena. Rodrigo Lombardi já domina todos os aspectos do personagem, apresentando ao espectador uma versão ainda mais madura (e também cansada) daquela vista na série. Já Kaysar Dadour, em sua estreia na tela grande, se mostra um contraponto eficiente, tendo a frieza do olhar lhe proporciona credibilidade suficiente para acreditar, que, de fato, seja um misterioso terrorista. Jackson Antunes, por sua vez, faz uma boa ponta usando sua versatilidade para papéis mais sérios e severos, além de conseguir facilmente construir um vilão. E, por fim, o que Rainer Cadete passa com o excepcional trabalho de maquiagem lhe dá a oportunidade de brincar com a sua interpretação – e o ator o faz com esmero.

Como longa de ação, “Carcereiros – O Filme” é bem-sucedido e se torna um raro exemplo do cinema gênero no Brasil, algo tão explorado em Hollywood. Dessa forma, a história estendida garante bons minutos de puro entretenimento, ainda que peque no desenvolvimento de algumas tramas inseridas sem profundidade. Por isso, o trabalho de montagem de Bruno Lasevicius e Raoni Rodrigues se torna um elemento fundamental para interpretações sobre o filme ganhar agilidade ou se perder demais.

Portanto, a linguagem cinematográfica é construída de forma divergente em comparação com o que se vê no seriado. Uma divergência responsável por entregar um bom resultado, tendo em vista tantas adaptações que vão para as telonas e não acompanham o ritmo exigido pela sétima arte. Desse modo, é produzido um bom filme de ação capaz de entreter com eficiência. 

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Carcereiros – O Filme (2019)

Carcereiros - O Filme - José Eduardo Belmonte

Adriano (Rodrigo Lombardi) é um carcereiro íntegro e avesso à violência, ele tenta garantir a tranquilidade no presídio, mesmo sofrendo com grandes dilemas familiares. A chegada de Abdel (Kaysar Dadour), um perigoso terrorista internacional, aumenta ainda mais a tensão no presídio, que já vive dias de terror por conta da luta entre duas facções criminosas. Agora, Adriano terá que enfrentar uma rebelião além de controlar todos os passos de Abdel. Inspirado no livro Carcereiros de Drauzio Varella, Carcereiros - O Filme traz a realidade dos homens que mesmo sem estarem presos, passam seus dias atrás das grades.

Roteiro: Dennison Ramalho, Marçal Aquino, Fernando Bonassi, Marcelo Starobinas

Elenco: Rodrigo Lombardi, Jackson Antunes, Bianca Muller, Tony Tornado, Milton Gonçalves, Kaysar Dadour, Dan Stulbach, Rômulo Braga

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