Cinema com Rapadura

Críticas   terça-feira, 03 de dezembro de 2019

Bellingcat – A Verdade em Um Mundo Pós-Verdade (2018): questionador no ponto certo

Na era em que o jornalismo se mostra atroz diante das facilidades tecnológicas e fontes de informação obscuras, algumas pessoas trabalham para expor a verdade não contada por políticos e canais de comunicação tradicionais.

Eliot Higgins se tornou uma das personalidades mais tarimbadas dos últimos anos ao transformar sua carreira jornalística. Em 2014, ele criou um site cujo propósito era o de expor a todos situações encobertas por interesses da imprensa e, sobretudo, das grandes potências mundiais. Dessa forma, sua fama ganhou espaço ao mesmo tempo em que sua investigação ganhou peso, gerando repercussão mundial sobre absurdos que eram noticiados de forma parcial e incompleta. Para apresentar ao mundo um pouco mais sobre esta história, eis “Bellingcat – A Verdade em Um Mundo Pós-Verdade”.

O documentário, dirigido e escrito por Hans Pool, aborda os diversos estratagemas criados pelo site para atingir a máxima disseminação e simultaneamente incomodar figuras políticas como parte de seu dia a dia. Aqui, o questionamento vai além do que presidentes dos países mais influentes pensam e agem e do que os poderosos canais de comunicação optam por divulgar ao seu espectador. O propósito era e ainda é o de expor a verdade, como o subtítulo sugere, acima do discursos oficiais.

A partir de uma ferramenta investigativa, Eliot Higgis passou a ganhar fontes cada vez mais obscuras e, paradoxalmente, confiáveis a respeito de fatos digeridos e transmitidos. Por isso, participar de situações envolvendo guerras, violação de direitos humanos e acidentes que não são bem o que parecem fez com que ele ganhasse a colaboração de outras pessoas interessadas no mesmo objetivo. Aliás, são pessoas de todas as partes do planeta que, assim como o criador, utilizam técnicas de verificação de códigos online para aferir a autenticidade, por exemplo, de um vídeo.

Quando o diretor mostra ao público que um vídeo contendo a iminente explosão de um carro-bomba e suas vítimas é, na realidade, uma grande encenação, é surpreendente como tudo parece óbvio após tamanha divulgação. Homens armam a detonação de um veículo e eles mesmos se fingem machucados para, após a edição, parecerem vítimas de um atentado terrorista. Esse tipo de situação é constantemente explorada pelo filme, que insiste em mostrar que as coisas não são bem o que parecem ser.

Aliás, o teor soa paranoico muitas vezes, já que o documentarista abraça a causa do site para também construir sua versão dos fatos. Há, portanto, a contextualização política que envolve figuras como Donald Trump e Vladimir Putin. A exemplo desse último, insisti-se em divulgar informações acusatórias a respeito do presidente russo em relação à queda do voo 17 da Malaysia Airlines, em 2014, o que mais tarde se comprovou ser, de fato, uma ação criminosa.

Além de tudo o que o documentário se propõe a apresentar, reunindo vídeos de fontes jornalísticas e o que o Bellingcat divulgou, há a malfadada disseminação viral das fake news. Para quem se surpreende com o queo  pessoal de criação de conteúdo e marketing consegue fazer para enganar um possível antagonista político, ficará espantado com o que essa produção traz. Fake news são mais comuns e recorrentes do que apenas em canais fajutos e tabloides. Políticos, mais uma vez, estão envolvidos com essa questão. Grandes canais de comunicação também.

Porém, o que Hans Pool parece querer apresentar ao seu espectador é, de fato, a eficiência que Bellingcat traz para o mundo moderno. Unindo o que o melhor do jornalismo investigativo e a tecnologia possuem em comum, é possível esmiuçar os fatos quando se vai atrás disso. O roteiro do cineasta não nega o seu favoritismo à contextualização política e tecnológica diante de todas as facilidades que alguém como Higgins consegue ter em benefício próprio e de seu público. Com isso, o filme cria um ar contestatório ao sistema, o que soa um tanto quanto ingênuo diante de tudo o que ele exibiu até então.

Desde a criação do site, que surgiu de uma fábula na qual diversos ratos discutem sobre como tornar um gato dócil ao colocar um sino em seu pescoço, foi obtida notoriedade diante de casos como os abordados no correto “Snowden – Herói ou Traidor” e no irregular “O Quinto Poder”. O gato está lá, com todos dados que esta nova forma de fazer jornalismo proporciona. Mas quem são os ratos que têm coragem de colocar o sino em seu pescoço? Higgins é um deles. Onde estão os outros?

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

Compartilhe

Bellingcat – A Verdade em Um Mundo Pós-Verdade (2018)

Bellingcat: Truth in a Post-Truth World - Hans Pool

Roteiro:

Elenco: Eliot Higgins, Christiaan Triebert

Compartilhe