Cinema com Rapadura

Críticas   terça-feira, 03 de dezembro de 2019

Vivir Ilesos (2019): difícil como a realidade feminina

Corajoso do ponto de vista temático, o filme peca ao não corresponder à premissa com uma montagem confusa e um terceiro ato mal executado.

A realidade dos países da América do Sul pode ser mais parecida do que muitas pessoas pensam. Isso porque há um ponto em comum entre sociedades como as de Brasil, Argentina, Uruguai e Peru, a despeito dos telejornais e das características específicas que as mídias possuem: o gigantesco problema social da violência contra a mulher e a forma com pela qual as nações latino-americanas a enxergam através do severo e unilateral olhar do patriarcado. Foi isso o que “Vivir Ilesos” criou em sua narrativa.

Dirigido e escrito por Manuel Siles, o longa peruano leva o espectador a uma viagem sobre a violência de gênero e suas consequências. Lucía (Magaly Solier) e Alberto (Oscar Ludeña) são um casal de golpistas que vivem de suas pequenas conquistas ilícitas. Eles passam de golpe em golpe com a consciência de que seus alvos não perderiam muita coisa, mas, ainda assim, sentem orgulho do talento de passar despercebidos após tanto tempo. Quando eles decidem comprar uma câmera fotográfica de colecionador com dólares falsos, porém, nada funciona como haviam planejado.

Os planos se frustram porque a vítima, dessa vez, é o golpista. O Sequestrador (Renato Gianoli) os nocauteia, levando-os para destinos diferentes. O marido é vendido a um grupo de marginais que o usam como escravo sexual. Já a esposa vive na casa do próprio antagonista, como se fosse uma de suas esposas em sua mansão. Ela tenta de todas as formas se rebelar, porém a força bruta e a ameaça psicológica a tornam cada vez mais fraca, vulnerável e anulada diante de tudo o que pode perder. Aos poucos ela perde também boa parte de sua sanidade.

Entretanto, a produção tem algo a dizer mais profundo do que uma história de sequestrador e sequestrado. Quando Alberto finalmente consegue escapar, ele vai até a delegacia e, tendo em vista sua aparência e falta de credibilidade, o delegado o faz desmentir que sua namorada foi raptada. Sem ter a quem recorrer, acaba ofuscado pela ineficiência do sistema. Enquanto isso, a vida de Lucía se torna um inferno, a fazendo especular, de todas as formas, sobre possíveis fugas.

Sem saber onde está e sem ninguém a quem pedir socorro, a protagonista se torna a esposa “ideal” para o homem universal: ele manda, ameaça com uma arma, a manda ser estuprada. Ela ri, se curva diante do poder fálico, abre mão de sua dignidade perante a própria sobrevivência. Assim, as discussões levantadas pelo filme se referem ao poder do patriarcado em sociedades como as do Peru e as do Brasil também: mulheres que são levadas a qualquer canto do país e são forçadas a serem escravas sexuais de homens que as utilizam como objetos; e a força com a qual elas resistem, algo sobre-humano, enquanto muitos viram os olhos para outros problemas, como talvez a roupa decotada ou o fato de haver mulheres demais no mercado de trabalho.

É justamente esse tipo de discussão que Manuel Siles traz à narrativa, podendo se ancorar no talento de Magaly Solier diante de todos os desafios que a atriz tem de enfrentar. Ela vai de golpista à vítima, passando de mulher a objeto sexual. A partir das expressões de ódio, desespero e desprezo trabalhadas, ela merece créditos por saber dosar muito bem cada sentimento demonstrado ao espectador.

Por outro lado, a direção de Siles é o ponto mais fraco do longa. A premissa se deixa levar por uma montagem confusa, que muitas vezes não se encaixa na proposta de levar quem assiste ao significado de cada cena. As situações estão lá, como é o caso do que acontece a Lucía quando está com o Sequestrador à beira da piscina em momentos chaves, mas a fotografia também não contribui para o desenrolar se mostrar satisfatório. Da forma como se observa em muitas ocasiões, os planos parecem enquadrados com uma câmera amadora, sem, de fato, estabelecer uma construção dramática e utilizar os artigos de decoração e o figurino a favor da narrativa.

Além disso, o clímax é mal construído, apesar de ser bastante corajoso. Não é a forma como o filme termina que poderá incomodar o público, mas justamente como esse desfecho é construído, como o terceiro ato pode atrapalhar tudo o que já havia sido apresentado em uma única cena. Esse fato, em contraponto ao roteiro corajoso, parece piegas dentro de um argumento que se mostrou tão importante para se discutir a violência que as mulheres sofrem em um sistema patriarcal. Debates assim ainda seguem sendo difíceis de encontrar, sobretudo no frágil sistema de segurança pública do Peru (ou do Brasil, Argentina, Uruguai…). 

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Vivir Ilesos (2019)

Vivir ilesos - Manuel Siles

Um casal de pequenos golpistas é desmascarado e sequestrado por um excêntrico milionário, que mantém a mulher em cativeiro e abandona o homem, em um retrato de alguns dos mais poderosos impulsos do nosso tempo: a falta de sentido da vida e a ideia de que o status quo moral pode ser superado. Mas as forças do consenso social respondem fortemente e ninguém sairá ileso dessa experiência.

Roteiro: Manuel Siles

Elenco: Magaly Solier, Renato Gianoli, Oscar Ludeña

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