Cinema com Rapadura

Críticas   quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Fogo Contra Fogo (2016): a necessária ótica de quem sofreu

Parte do horror do Apartheid é contada nesta obra, que parte do ponto de vista de quem sofreu e lutou pela África do Sul.

Considerado um dos períodos mais sangrentos da história da humanidade quando o assunto é justiça e igualdade social, o Apartheid começou em 1948 a partir da divisão da África do Sul entre negros e brancos feita pelo primeiro ministro da época Daniel François Malan. Assim como o Brasil, aquele país tem sua maioria populacional negra, mas existia uma minoria branca no poder que tomava decisões como essa. Passado no meio do regime na década de 1970, “Fogo Contra Fogo” apresenta uma das tantas lutas para a retomada dos direitos sociais na África do Sul.

Enquanto a sociedade era segregada por autoridades que distanciavam a população negra de seus direitos, a história era construída de forma brutal. Não havia empregos, pois não havia a garantia a um emprego. A saúde pública era claramente inferior, não existia segurança ou saneamento básico. No período foram impostos muitos sacrifícios aos sobreviventes, que batalharam para tornar essa página de horror algo do passado. Porém, transformou-se em algo real em 1994. Em meio a esse contexto, os habitantes locais ficaram bastante divididos.

Solomon Mahlangu (Thabo Rametsi) participou de uma dessas batalhas. Em 1976, após um ataque de repressão com vítimas, ele reuniu coragem e resiliência para enfrentar o sistema já sólido no poder. Com isso, sua força e sua voz reuniram pessoas que sequer haviam conhecido uma nação sem o regime segregacional. Aliás, o que realizou foi dar espaço a tais indivíduos, gerando comoção entre oprimidos que tanto buscavam por um líder e por uma forma de expressão. Dessa maneira, o filme é uma incursão visceral pela época em que a luta do protagonista se fez notada na longínqua década de 1970.

Dirigido pelo estreante no posto, Mandla Dube, que também assinou o roteiro, o longa-metragem é um mergulho na realidade da África do Sul daquele momento histórico. Havia brutalidade e escassez de muita coisa, sendo tudo muito bem retratado por conta da câmera precisa do diretor, que parece saber identificar os exatos focos de cada cena construída. Granulada, a coloração pende para o sépia não só pelo tempo que representa, mas sobretudo pela aridez que dá a sensação contínua de sede a quem assiste ao filme, algo devidamente planejado com efeito assertivo.

É contundente a direção de Dube, pois há momentos nos quais o espectador pode construir a sensação de enxergar um documentário. Em função desse estilo, o diretor não poupou seu trabalho de reflexões e muito menos de choque. Além disso, a construção do arco principal conta com a comovente interpretação de Thabo Rametsi, que empresta seu carisma ao líder e o constrói sem “acertos nas pontas”, mas com verdadeira entrega.

O roteiro, por sua vez, apesar de contar com a assinatura do eficiente diretor, não encontra o mesmo sucesso. Isso porque o desenvolvimento da história é feito sem conseguir encontrar foco nas informações. O cineasta fez uma rica pesquisa a respeito da vida de seu cinebiografado, entretanto o excesso de dados deixa a história semelhante a um seriado que precisa ser dividido em capítulos para fazer efeito. Inclusive, a montagem também atrapalha por apresentar um ritmo que lembra muito o de “O Jardineiro Fiel”, mas perdido por não encontrar a mesma eficácia.

Além de todo o contexto que a narrativa constrói para informar o espectador, há também na história do Apartheid tanto sangue quanto ícones que ajudaram o país a se reerguer da opressão. A exemplo disso, a própria mãe de Solomon, Martha Mahlangu (Gcina Mhlophe) se tornou ativista até o ano de sua morte, em 2014. E assistir àquela sociedade contar parte de sua trajetória pelo lado de quem sofreu é mais do que informativo em uma obra, é essencial.

“Fogo Contra Fogo” ganhou o título em português por significar a mensagem de Solomon contra tudo o que ele lutou. O segregacionismo encontrou diversos antagonistas e alguns deles conseguiram se tornar heróis para o seu povo. Apesar de a luta de todos ser simbolizada, a homenagem é mesmo para um jovem que fez de tudo para retomar a liberdade e a expressão que grande parte da população teve brutalmente tiradas de si. Felizmente, portanto, existiram líderes que não deixaram Mandela se tornar o único benfeitor da história recente daquele país. Que surjam mais histórias assim! 

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Fogo Contra Fogo (2016)

Kalushi - Mandla Dube

Baseado na história real de Solomon Kalushi Mahlangu, um jovem vendedor ambulante que, atraído pelo o movimento de libertação, luta contra um opressivo governo do Apartheid sul-africano na cidade de Pretória. Quando ele e seus companheiros são abordados pela polícia durante uma missão, Solomon sofre duas acusações de homicídio e passa a ter que provar sua inocência e lutar por sua vida.

Roteiro: Leon Otto, Mandla Dube

Elenco: Pearl Thusi, Marcel Van Heerden, Welile Nzuza, Louw Venter, Lawrence Joffe, Jafta Mamabolo, Thabo Rametsi, Kaseran Pillay, Fumani Shilubana, Thabo Malema

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