Cinema com Rapadura

Críticas   quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Um Dia de Chuva em Nova York (2019): um típico Woody Allen

Com o humor comumente utilizado em seus trabalhos, novo filme de Woody Allen traz a sensação de que há algo de novo na carreira do cineasta, mesmo que não seja nada genial.

Nova York é uma daquelas cidades que seduz quem por ela passa, sobretudo se o responsável pelo passeio tiver os mesmos olhos de Woody Allen. O diretor dedicou boa parte de sua carreira a produções cujos roteiros se passam por lá, com a perspectiva de transformá-la em uma das intérpretes dos filmes. Em “Um Dia de Chuva em Nova York” fica provado novamente que a cidade não é só um nome no script, mas sim sua personagem favorita.

Aqui conhecemos Gatsby (Timothée Chalamet), jovem cuja visão de mundo beira o fanatismo pelas questões existenciais e pelo que o atormenta em relacionamentos – o medo do amanhã, o “que seja eterno enquanto dure”. Por sua vez, Ashleigh (Elle Fanning) é outra jovem com um modo próprio de ver as coisas, tendo um olhar mais otimista para o mundo, muitas vezes desapegado do que está por vir. Os dois formam um casal e a persona cinematográfica de Woody Allen, característica recorrente em seus filmes.

Os protagonistas vão a Nova York, após a garota ser convidada para uma entrevista de trabalho junto a um influente diretor de cinema, Roland Pollard (Liev Schreiber). Porém, é claro que a influência da metrópole sobre os dois cai como uma luva para desenvolver suas respectivas psiques de formas diferentes. Por isso, pouco tempo depois, ambos estão envolvidos com o local de acordo com a expectativa que têm sobre ela, tornando, assim, suas personalidades ainda mais conflitantes quando estão juntas. Um fato que dois jovens inexperientes não sabem lidar. 

A visão do cineasta é fundamental para o desenvolvimento e compreensão da trama, nada complexa diga-se de passagem. Ele preferiu ir por um caminho de maior simplicidade desta vez, diferente dos recentes “Meia-Noite em Paris”, “Tudo Pode Dar Certo” e “Vicky Cristina Barcelona”. O relacionamento dos jovens se reflete no que o espectador se acostumou a ver nas personas criadas por Woody Allen para representar a si mesmo, estilo tão egocêntrico quanto pontualmente genial. É por isso que agora a cidade de Nova York ganha um afago especial do diretor, convertendo-se em ponto de partida do roteiro para as mudanças de seus protagonistas e também ponto de fuga para seus medos.

É justamente naquele cenário que ambos passam a se questionar acerca do que consideram felicidade e monogamia. Enquanto Ashleigh se envolve cada vez mais com a produção de seu novo amor platônico, Roland, ela também é seduzida pelas filmagens e pelo que o cinema tem a dizer antes mesmo do projeto estar finalizado e editado (algo que é possível reparar quando ela se envolve com o astro Francisco Vega (Diego Luna). Já Gatsby (nome sugestivo) vai à Nova York e é seduzido por ela ao se valorizar de outra maneira, menos complexa em comparação com o que estava habituado. Ele se envolve tanto que a entrada de Shannon (Selena Gomez) em sua vida o deixa à beira de constantes epifanias.

Cômico do ponto de vista narrativo e funcional em termos estéticos, a obra é uma demonstração da genialidade de um profissional que já teve altos e baixos. A coloração da fotografia de Vittorio Storaro (“Último Tango em Paris”) é tão sedutora quanto o lugar que ele pretende apresentar. O trabalho é feito com sucesso, pois as cenas internas são banhadas de uma luz quente que mexe com as intenções dos protagonistas e com que eles se veem fazendo. Já a chuva é retratada como o clássico sinal de mudança, talvez algo que possa ser referido também à carreira do diretor.

Objetivo como seus demais filme costumam ser, a comédia leva o espectador a uma rápida viagem à sua persona cinematográfica – tão consagrada quanto polêmica – acrescentando mais um tijolo em sua extensa e magnífica pintura chamada filmografia. Enquanto o espectador assiste ao desenrolar da vida do casal enquanto um reflexo do que o próprio cineasta passou em sua existência, é fácil se identificar com os resultados trazidos em cada arco. A exemplo disso, está a participação de Ted (Jude Law) na vida de Ashleigh.

“Um Dia de Chuva em Nova York” é um convite ao rejuvenescimento de um homem octogenário. Repleto de ego e referências ao mundo cinematográfico, pode-se dizer que este é um típico filme de Woody Allen, ainda que não traga a originalidade do clássico “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, a intensidade de “Blue Jasmine” ou o humor ácido de “Hannah e Suas Irmãs”. Contudo, é uma obra que merece ser vista, não engavetada. 

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Um Dia de Chuva em Nova York (2019)

A Rainy Day in New York - Woody Allen

Apaixonado por Nova York, Gatsby (Timothée Chalamet) decide passar um fim de semana na cidade ao lado de Ashleigh (Elle Fanning), sua namorada. No entanto, aquilo que era pra ser uma aventura romântica acaba tomando um rumo inesperado. Aspirante a jornalista, Ashleigh conhece o diretor de cinema Roland Pollard (Liev Schreiber), que a convida para a exibição de seu mais recente trabalho. Gatsby, por sua vez, encontra Chan (Selena Gomez), a irmã mais nova de sua ex-namorada, com quem passa o restante da viagem. Um dia de chuva em Nova York será o suficiente para fazer com que Ashleigh redescubra suas verdadeiras paixões e Gatsby aprenda que só se vive uma vez - mas que é o suficiente se for ao lado da pessoa certa.

Roteiro: Woody Allen

Elenco: Timothée Chalamet, Elle Fanning, Selena Gomez, Jude Law, Diego Luna, Liev Schreiber, Rebecca Hall, Griffin Newman, Kelly Rohrbach, Suki Waterhouse, Annaleigh Ashford, Cherry Jones, Taylor Black, Kathryn Leigh Scott, Ben Warheit, Will Rogers, Saskia Slaaf, Shannone Holt

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