Cinema com Rapadura

Críticas   quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O Irlandês (2019): o poder da máfia e de Martin Scorsese

Um filmaço em tempo, técnica e narrativa que levará o espectador ao mundo da máfia como nem mesmo Scorsese havia explorado, com muito De Niro, Pacino e Pesci.

Os anos 50, 60 e 70 parecem ter rendido muito para a cultura pop dos Estados Unidos. O fervor do rock começava a tomar conta da população, que via suas pequenas cidades se transformarem em metrópoles ou, quando não era este o caso, os cidadãos iam até elas. Enquanto o país se desenvolvia e o Tutti Frutti se transformava em Another Brick in the Wall, havia um bastidor que o cinema ama retratar, sobretudo como parte da afamada cultura pop, e que este “O Irlandês” também o faz: o da máfia.

Consagrado por sua atuação no cinema mafioso (e em tantos outros subgêneros), Martin Scorsese presenteia o espectador em uma incursão gigantesca pela máfia norte-americana, a qual teve seu ápice justamente nas décadas de 50, 60 e 70. Aliás, as diferentes máfias eram como departamentos do crime organizado, nos quais cada cultura e país de origem encontrava seu clube. Como o cineasta sabe retratar muito bem o universo do mundo do crime, como é o caso de “Os Infiltrados”, “O Lobo de Wall Street” e “Cassino”, aqui não é diferente. Ao contrário, esta é a oportunidade de conhecer uma ode a tudo o que a máfia italiana e irlandesa representam dentro do imaginário comum daquelas décadas.

Dirigido por Scorsese, o espectador conviverá nas próximas três horas e meia com Frak Sheeran (Robert De Niro), cuja vida aqui se passa em três fases, sendo uma delas representadas em dois momentos diferentes. Sim, é complicado como parece ser, mas o roteiro de Steve Zaillian (“O Gângster”), baseado no livro homônimo de Charles Brandt, faz uma pintura completa sobre a vida de um homem que participou de diferentes momentos da história de seu país. Provindo de cultura irlandesa, Frank passou boa parte de sua jornada na Segunda Guerra Mundial na Itália, país no qual adquiriu domínio do idioma. Por isso, quando acompanhamos o início de sua história, como motorista de frigoríficos, ainda nos anos 50, não nos surpreendemos com o desenrolar de sua vida. Pois Frank é um homem persistente, malandro, astuto, escorregadio, que preza pela honra e pela palavra… Um verdadeiro homem da máfia.

Aliás, é justamente a pintura completa feita pelo roteiro que permite que o espectador tenha em mãos a vida completa de Frank Sheeran. E tudo o que ele vive permite que a empatia criada pelo personagem seja utilizada em prol de sua tridimensionalidade. Por isso, Frank vai da guerra para o caminhão, partindo deste para a máfia e o envolvimento com o sindicato liderado por ninguém menos do que Jimmy Hoffa (Al Pacino). Servindo como assistente pessoal, motorista e conselheiro, Frank encontra em Hoffa alguém que o deu o grande pontapé para que ele mesmo se tornasse um líder de sindicato. Algo que sempre gerou bons resultados para os trabalhadores – e controvérsia pela forma com a qual partiu da idealização à execução.

Mas antes de chegar ao líder de sindicato que incomodava até mesmo o presidente do país (veja só), Frank se envolveu com um mafioso cuja influência partia dos pequenos postos de gasolina à beira da estrada até os poderosos que comandavam políticos de todas as estirpes. Foi assim que se envolveu com Russell Bufalino (Joe Pesci), um homem calmo que sabia muito bem o efeito de cada uma de suas palavras, assim como as consequências de tê-las ignoradas por qualquer um. Desta forma, Frank o viu envolvido em sua vida desde cedo, quando Russell lhe deu suas primeiras oportunidades.

Mas Frank é um homem ambicioso e precisa caminhar com as próprias pernas. E a forma que encontrou para tal o levou diretamente ao chefão da máfia da Filadélfia, Angelo Bruno (Harvey Keitel). Por isso, em cada passo que dava, o protagonista se envolvia cada vez mais com o mundo no qual tanto encontrava sentido. Violento, deixava sua arma sempre à postos para acabar com a vida de qualquer um que ameaçasse a paz de seus superiores e o status quo daquilo que estivesse vivendo. Já em casa, ele mantinha a família sempre confortável, em um mundo no qual o homem provinha e a mulher cuidava da casa. Por isso, suas quatro filhas sempre o tiveram como uma figura de autoridade, beirando o perigo, à exceção de Peggy (Lucy Gallina e Anna Paquin). Quando criança, ela não fazia questão de se aproximar do pai e de seu mundo. Quando adulta, queria ainda mais distância disso tudo.

Com a extraordinária fotografia de Rodrigo Prieto (“O Segredo de Brokeback Mountain”), a direção de Scorsese encontra todas as referências pelas quais passou em sua carreira. Talvez pelo tempo de tela, o diretor conseguiu filmar tanto quanto poderia querer em se tratando de um filme de máfia, o que lhe permitiu apresentar detalhes de tudo o que pretendia. Desta forma, a construção da parte técnica se mostra impecável, uma verdadeira aula. Em tons azulados nas cenas externas, que remetem à frieza de seus personagens, e o tom pastel nos restaurantes e casas de show, cuja intenção é o aconchego e libertação do mundo do crime, a fotografia se faz quase como um personagem, presente o tempo inteiro.

Da mesma forma, a trilha é conduzida por Robbie Robertson, que se dá ao luxo de criar uma marcante composição como tema do filme, além de utilizar referência a “Grisbi, Ouro Maldito”, filme de 1953 que já é referenciado no tema de “O Poderoso Chefão”. São detalhes que tornam esta obra enriquecida tecnicamente, cujo tempo passará tão bem quanto para os grandes clássicos, sendo em breve referenciada. Além disso, há o desenho de produção de Bob Shaw (da série “Boardwalk Empire”), cuja retratação dos anos 50, 60 e 70 é bastante fiel.

Com a gigantesca pintura feita pelo roteiro e direção, detalhada pela parte técnica, e acompanhada por uma trilha impecável, não é à toa que este “O Irlandês” se permita ser um estudo de caso assim que o espectador termine a sessão. Isso porque o elenco também marca por aspectos positivos, sobretudo o trio principal. Joe Pesci está comedido, mas perigoso, como um homem da máfia que não se permite errar e não aceita nada menos do que a excelência em seus negócios. Mas, ao mesmo tempo, a vulnerabilidade de seu personagem permite com que o ator entregue uma performance ainda mais rica, que tem a cereja do bolo em uma pequena cena no final de seu arco. 

Já Al Pacino encontra seus arroubos de fúria e a lábia que o tornou icônico na história do cinema, podendo explorar o lado político de Jimmy Hoffa sem torná-lo um herói marcado por apenas lutas e glórias. Ao contrário, sua fúria surge justamente quando as coisas não funcionam do jeito que ele quer, de forma metódica, teimosa, sistemática. E Robert De Niro tem o filme em suas mãos. Com sua famosa persona dentro de cada segundo em tela, o ator se entrega a uma composição minimalista, que chama a atenção por não parecer outra pessoa, mas sim um homem comum que galgou cada degrau rumo ao sucesso. E tudo o que vem depois disso. Sua interpretação merece aplausos pela entrega do ator, que aqui tem seu rosto alterado por dois tipos de maquiagem, a convencional e a digital, e em ambas ele se mostra visceral.

Com a montagem da sempre competente Thelma Schoonmaker (“Silêncio”), há momentos do filme em que tudo parece mais confuso do que deveria, com um ritmo desacelerado. Mas é justamente essa a sua proposta. Uma obra repleta de personagens históricos, como as referências à família Kennedy e o que ela representava para a máfia e para Hoffa, além de Fidel Castro e até mesmo uma ponta do hilário Don Rickles (Jim Norton). Por isso, o tempo pode parecer um empecilho para muitos, mas com certeza foi muito bem utilizado diante de tantas informações e como tudo foi encaixado com a narrativa de um homem que veio do nada e conquistou o mundo que queria pertencer. 

Com o discreto e, ainda assim, poderoso figurino assinado por Christopher Peterson (“Carol”) e Sandy Powell (“A Favorita”), este “O Irlandês” peca pouco. A passagem de Anna Paquin como a Peggy mais velha é quase uma bola fora, tendo em vista o potencial desperdiçado ao não dar maior relevância a esta atriz. Além disso, há, sim, uma barriga em seu extenso segundo ato, dentro do qual muitas questões são colocadas para o espectador, mas todas com respostas que chegam simultaneamente ou até o final da projeção. Desta forma, o pouco pecado aqui é algo quase irrelevante, algo que nem mesmo os religiosamente exigentes mafiosos italianos e irlandeses se incomodariam.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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O Irlandês (2019)

The Irishman - Martin Scorsese

Uma saga épica sobre o crime organizado nos Estados Unidos do pós-guerra contada através da personagem de Frank Sheeran, veterano da Segunda Guerra Mundial convertido em assassino a soldo da Máfia, que trabalhou juntamente com algumas das mais notórias figuras do século XX. A história, que abrange várias décadas e relata um dos maiores mistérios por resolver nos Estados Unidos, o desaparecimento do dirigente sindicalista Jimmy Hoffa, leva-nos igualmente numa viagem monumental através dos corredores sombrios do crime organizado e os seus meandros, rivalidades e ligações à esfera política.

Roteiro: Steven Zaillian

Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci, Ray Romano, Bobby Cannavale, Anna Paquin, Stephen Graham, Harvey Keitel, Stephanie Kurtzuba, Kathrine Narducci, Welker White, Jesse Plemons, Jack Huston, Domenick Lombardozzi, Paul Herman, Louis Cancelmi, Gary Basaraba, Marin Ireland, Sebastian Maniscalco, Steven Van Zandt

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