Cinema com Rapadura

Críticas   quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Projeto Gemini (2019): ambicioso na execução, simples no roteiro

Uma experiência cinematográfica que poderá abrir portas às novas formas de se fazer cinema, mas que peca justamente por não oferecer ao espectador uma experiência completa.

O cinema é uma forma de arte por definição e, desde sua criação, no longínquo ano de 1895, o avanço tecnológico faz parte de cada filme. Por isso, o espectador se depara com constantes mudanças nos capítulos da evolução cinematográfica. Agora é chegada a hora de Ang Lee provar, mais uma vez, sua competência técnica e de inovação com seu criativo “Projeto Gemini”.

Henry Brogan (Will Smith) é um atirador profissional, assassino inigualável que atua para diversos departamentos de investigação dos Estados Unidos, sobretudo aqueles que o comandam em sigilo. Mas Henry, que já ultrapassou os cinquenta anos, já não se sente mais seguro em continuar, pois os poucos milímetros que o possibilitem errar seu alvo é o suficiente para perder uma vida inocente. Então, o protagonista decide se aposentar, mas a notícia não é bem recebida pelas agências às quais prestou serviço, sobretudo a ligada ao Projeto Gemini do título.

Desde que decidiu deixar a vida de assassino profissional, Henry passou a ser perseguido a mando do diretor do projeto, Clay Verris (Clive Owen), que não só não aceita sua saída como criou uma série de estratégias para matá-lo. Isso porque Clay acredita que Henry é uma potencial ameaça, diante de tudo o que sabe. Mas o que surpreende o protagonista não é a sucessão de tentativas de vê-lo morto, e sim a arma letal utilizada pela Gemini: um assassino de aluguel com a mesma força, agilidade, astúcia e… aparência de Henry.

Acompanhado de Danny Zakarweski (Mary Elizabeth Winstead), agente infiltrada para inicialmente ficar de olho em Henry, ele parte em fuga das constantes tentativas de assassinato. Contando com seus antigos amigos de profissão, que agora desfrutam de saudáveis aposentadorias, ambos vão de Cartagena a Budapeste na tentativa de fugir e descobrir um pouco mais sobre o tal Projeto Gemini. É justamente em uma dessas fugas que Henry dá de cara com seu potencial assassino, sentindo-se extremamente intrigado ao ver alguém com o mesmo DNA dele vivo – e mais: querendo vê-lo morto.

Saltando de suas habituais incursões à mente, Ang Lee aposta em uma produção com o seu costumeiro esmero técnico, mas que conta com o apelo popular do produtor Jerry Bruckheimer (da franquia “Piratas do Caribe”). Aqui o diretor taiwanês se alia a uma novidade tecnológica que pretende abrir as portas para o aprimoramento do cinema em si, mas também da ferramenta de três dimensões. A aposta é o 3D+, apelido dado à forma com a qual o filme foi rodado: ao invés dos normais vinte e quatro quadros por segundo, aqui são sessenta. E a sensação em tela é visível pelo hiper-realismo em diversas cenas, que se mostram extremamente nítidas, quase cristalinas. O 3D, por sua vez, é utilizado da forma habitual: em diversos momentos, o aprofundamento em tela é utilizado de forma inteligente, permitindo ao espectador que reconheça todos os elementos em tela sem a necessidade do foco. Mas em tantos outros o apelo popular do produtor parece falar mais alto do que a capacidade técnica do diretor, jorrando objetos na tela para apenas distrair o espectador.

Mas Ang Lee vai além de uma nova tecnologia. Aqui ele mergulha de cabeça nas técnicas, do experimental uso de captura de movimentos à maquiagem digital realista, permitindo que Will Smith tenha sua versão mais nova de forma quase convincente. Quase porque o jovem Smith de 23 anos aparece de forma perfeita em diversas cenas, sobretudo nas rodadas em ambientes fechados, mas não necessariamente escuros. A utilização de luz artificial permite que a face mais nova pareça real. A respeito disso, basta lembrar como tudo caminhou sob a batuta do veterano e pioneiro diretor Robert Zemeckis, em “O Expresso Polar”, “Os Fantasmas de Scrooge” e “A Lenda de Beowulf”. Ou então os mais recentes filmes da Marvel, como o Hank Pym (Michael Douglas) em “Homem-Formiga e a Vespa”.

Com duas grandes evoluções tecnológicas caminhando junto à direção do veterano Ang Lee, este “Projeto Gemini” peca justamente ao oferecer algo incomum em sua filmografia: um roteiro simplório, ou até mesmo ingênuo. O filme é uma aventura de primeira, com tomadas espetaculares que fazem o espectador perder o fôlego em determinados momentos. Mas apenas cenas de ação não sustentam a ingenuidade de um roteiro que mantém um herói em sua jornada básica, outro potencial herói em processo de redenção, uma mocinha atualizada e um vilão caricato. Talvez a culpa dessa falta de aprofundamento esteja nas seis mãos que assinam o roteiro: David Benioff, Billy Ray e Darren Lemke.

Portanto, este ambicioso projeto que conversa diretamente com a incursão da arte dentro de bases tecnológicas, as quais podem impulsionar outras obras, infelizmente não ambiciona a nada além de uma distração a quem o assiste. Enquanto Méliès intrigava o espectador daquela época com sua mágica, Zemeckis apresentava clássicas histórias para desenvolver sua tecnologia. Até mesmo o próprio diretor, em seu fabuloso “As Aventuras de Pi”, abria as portas para um realismo até então inédito na criação de animais digitais. Mas não foi desta vez que Will Smith salvou o filme – nem sequer dois Will Smithies salvaram.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Projeto Gemini (2019)

Gemini Man - Ang Lee

Um thriller de ação inovador com Will Smith no papel de Henry Brogan, um assassino de elite, que se torna no alvo de perseguição de um jovem e misterioso agente secreto que parece ser capaz de prever todos os seus movimentos. O filme é realizado pelo vencedor de um Óscar®, Ang Lee, e produzido pelos prestigiados Jerry Bruckheimer, David Ellison, Dana Goldberg e Don Granger. Fazem, também, parte do elenco Mary Elizabeth Winstead, Clive Owen e Benedict Wong.

Roteiro: David Benioff, Billy Ray, Darren Lemke

Elenco: Will Smith, Mary Elizabeth Winstead, Clive Owen, Benedict Wong, Linda Emond, Theodora Miranne, Justin James Boykin, Alexandra Szucs, Douglas Hodge, Tim Connolly, Victor Hugo, Georgia Curtis

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