Cinema com Rapadura

Críticas   quinta-feira, 10 de outubro de 2019

As Loucuras de Rose (2018): a sororidade musical

O talento musical e dramático de Jessie Buckley transforma esta viagem ao country em uma grande experiência cinematográfica, repleta de musicalidade e sororidade, em uma história de superação e luta pelos sonhos.

Filmes com temática musical costumam trazer ao espectador uma boa história. Quando “Os Embalos de Sábado à Noite” estreou, em 1977, a geração baby boomer fervilhava com o ritmo dançante em uma história deveras melancólica. Já “Não Estou Lá”, de 2007, levou às telas a vida de Bob Dylan e toda a sua musicalidade de forma nada ortodoxa, na qual a música fazia parte, também, da narrativa. Neste “As Loucuras de Rose”, tanto o ritmo quanto as letras fazem parte da história e da narrativa, e o resultado é ótimo.

Rose-Lynn (Jessie Buckley) acabou de cumprir pena em uma prisão de Glasgow, na qual entoava seu talento musical, conquistando tanto suas companheiras de cela quanto as guardas do referido recinto. Ao ter sua liberdade concedida, porém, ela precisa retornar à realidade que deixou sob os cuidados de sua mãe, Marion (Julie Walters): seus dois filhos, Lyle (Adam Mitchell) e Wynonna (Daisy Littlefield). A partir de sua liberdade, ironicamente a protagonista se vê presa diante da necessidade de cuidar de seus filhos, conseguir um novo emprego e, ainda assim, alcançar o sonho de sua vida: ser uma cantora country de sucesso.

No entanto, aos poucos Rose-Lynn percebe que as responsabilidades podem lhe custar mais do que a percepção do que é trabalhar para sustentar os filhos, mesmo que seja uma exímia cantora e que o country esteja em seu sangue. Por isso, o constante conflito com sua mãe toma conta de sua vida enquanto precisa aceitar um emprego como faxineira para pagar suas contas. Além disso, uma tornozeleira com horário diário de início e término a impede de acreditar que esteja, de fato, em liberdade. 

Com forte carga dramática, esta incursão musical na vida de quem nasceu pobre e teve sua vida tomada pelas consequências de seus erros é um grande soco no estômago dos sonhadores de plantão. O roteiro de Nicole Taylor (“The C World”) é linear, criando uma atmosfera intimista ao apresentar uma protagonista repleta de defeitos, mas que tem em sua perseverança sua maior qualidade. Desta forma, ao invés de apresentar recorrentes flashbacks, a vida de Rose-Lynn é retratada através do talento dramático de sua protagonista, que traz uma inspirada Jessie Buckley tanto para o drama quanto para a música. Aliás, é justamente a musicalidade que enriquece o roteiro, pois há passagens de tempo nas quais belíssimas canções são apresentadas em off como forma de expressar tais mudanças temporais, os pensamentos de determinados personagens e outras tantas informações que o filme poderia trazer em um roteiro expositivo, mas que aqui o torna repleto de musicalidade.

Por sua vez, a própria protagonista entoa diversas canções, estas mais viscerais, elevando a qualidade narrativa diante das dificuldades desta ex-presidiária em recomeçar. Por isso, enquanto há músicas capitulares que, além de serem muito bem escritas, contam as divisões de atos e tramas de forma orgânica, há o desenvolvimento de uma protagonista forte, com seu arco dramático muito bem definido. É claro que o talento da protagonista em atuar e cantar ajuda muito. Da mesma forma, o time de coadjuvantes aproveita o tempo em tela, com destaque para a sutileza de Julie Walters como a mãe de Rose-Lynn e, sobretudo, de Sophie Okonedo como Susannah, a chefe que se torna estimuladora do talento de alguém que precisava justamente de uma mão amiga.

Com a direção de Tom Harper (da série “Guerra e Paz”), “As Loucuras de Rose” transforma a experiência cinematográfica em uma grande viagem musical. Das raízes do country à vida de alguém cujos sonhos passam por suas firmes cordas vocais, aqui a narrativa é recheada com ótimas letras e acordes, além de contar com uma história edificante. Isso porque, além de apresentar a dura realidade de quem nem sempre consegue alcançar os sonhos, também conta com uma grande epifania. E esta mudança de comportamento, de alguém que não acreditava em nada mais do que uma simples vida operária, surte efeito imediato no espectador.

O grande exercício de empatia que é esta história repleta de musicalidade também conta com a excepcional fotografia de George Steel (“Robin Hood: A Origem”), com realismo e enquadramentos sempre próximos ao rosto de Rose-Lynn, Marion e Susannah. E aqui está outra poderosa mensagem: um filme cujas histórias de mulheres que sofreram pela solidão de suas respectivas realidades e encontram, na música e na sororidade, a força para viver. Quer mensagem mais musical do que esta?

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

Compartilhe

As Loucuras de Rose (2018)

Wild Rose - Tom Harper

Roteiro: Nicole Taylor

Elenco: Jessie Buckley, Julie Walters, Sophie Okonedo, Jamie Sives, James Harkness, Craig Parkinson, Adam Mitchell, Daisy Littlefield, Janey Godley, Louise McCarthy, Maureen Carr, Bob Harris, Mark Hagen, Ryan Kerr, Nicole Kerr, Matt Costello, Janet Patterson, Lesley Hart, Carol Pyper Rafferty, Natalie McConnon

Compartilhe