Cinema com Rapadura

Críticas   quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Ad Astra: Rumo às Estrelas (2019): contemplação do espaço e da mente

Com forte apelo visual, esta viagem espacial leva o espectador a uma reflexão sobre a história de vida de um homem que tem a melancolia e a fúria em sua mente, mas que opta pela serenidade constante.

O cinema conseguiu, em toda a sua história, criar diferentes significados para o silêncio. Em determinados filmes, o espectador observa o sentimento de melancolia nos olhos do personagem principal, o qual não profere nenhuma palavra, mas sabe-se que todas elas estão ali, como é o caso de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”. Em outros tantos, o calculismo, a fúria e a vingança exalam dos poros de quem prefere não falar, como em “Era Uma Vez no Oeste”. Já este “Ad Astra: Rumo às Estrelas” revela ao espectador uma história embasada no silêncio de alguém que sente tanto melancolia quanto fúria, mas que prefere se conter.

Desta forma, o filme apresenta Roy McBride (Brad Pitt), cuja competência em missões espaciais o fez ser escolhido para o que será seu maior desafio. Ele precisará partir rumo a Saturno para resgatar uma espaçonave que se perdeu há anos e que, agora, está emitindo descontroladamente uma energia que prejudica não só a Terra, mas todo o Sistema Solar. Mas o que Roy descobre ser seu grande desafio não é apenas a nova missão, mas sim quem está na nave perdida há anos: seu pai, H. Clifford McBride (Tommy Lee Jones). 

Considerado por muitos o mais genial astronauta dos Estados Unidos, Clifford ainda passa pelo crivo de ser considerado um herói ou um pária por aqueles que detém informações sobre sua missão, o Projeto Lima. Por isso, Roy é convocado pela agência espacial SPACECOM para tanto resgatar o sobrou da espaçonave quanto trazer seu pai de volta, algo que ninguém mais conseguiu. Porém, o passado do protagonista com Clifford não é dos melhores e isso faz toda a diferença para o arco principal.

Envolto em uma quase profissional serenidade, Brad Pitt dá vida a um homem repleto de motivações para amarguras e reminiscências traumáticas, mas que conseguiu, por conta da escolha de ser astronauta, a qual fez desde cedo, driblar diversas nuances de sua personalidade. Com isso, o ator cria alguém cujas expressões passam praticamente todos os sentimentos – e o que não é expressado, ironicamente tem seu silêncio interrompido pela narração do protagonista. Mas é inegável que a construção deste personagem é um dos grandes pontos do filme.

Outro fator determinante para o resultado final ser positivo é a forma com a qual o personagem é retratado e tudo o que está ao seu redor conversar diretamente com sua presença. Isso se traduz na extraordinária fotografia de Hoyte Van Hoytema (“Dunkirk”), que cria ambientes fechados claustrofóbicos e que exaltam materiais que se assemelham ao mais frágil plástico, desenhando uma atmosfera complementar às suas inseguranças. Em contraponto, as paisagens nas quais planetas e naves se encontram na vastidão do espaço enchem os olhos do espectador com a mesma esperança que Roy tem de encontrar o seu pai.

Enquanto isso, diferente de filmes como “Gravidade” e “Interestelar”, a trilha composta por Max Ritcher não se transforma em um personagem à parte, tão memorável para uns quanto incômodo para outros. Aqui sua composição caminha com o protagonista rumo às descobertas e desafios a partir do momento em que ele decide embarcar. E tudo o que o roteiro do também diretor James Gray (“Era Uma Vez em Nova York”) e de Ethan Gross traçam no arco de Roy envolve o seu talento técnico e sua habilidade em lidar com a pressão.

Criando uma atmosfera de constante tensão, Gray também é hábil ao envolver o espectador em uma história contemplativa, a qual cria uma narrativa linear com pouca utilização de flashback. Desta forma, o espectador não precisa lidar com questões de física quântica ou a natureza humana versus sobrevivência, mas sim com uma história pessoal com o belíssimo pano de fundo espacial. Com isso, há construção de uma história intimista, que condiz com o restante da filmografia do diretor.

Em alguns momentos, porém, a criação de tensão se mostra falha ao se justificar de maneira superficial, como em momentos nos quais Roy precisa lidar com uma possível ameaça alienígena ou questionar as ordens de um capitão em ambiente hostil. Aliás, este “Ad Astra” consegue introduzir o espectador em um questionamento comum, sobre a possibilidade de existir ou não vida em outros planetas, mas a força do roteiro está justamente nas respostas nem sempre agradáveis ao senso comum.

Com ritmo cadenciado pelos passos que Roy consegue dar em sua longa viagem espacial, este filme se desencontra de algumas construções que ensaia fazer. Há belíssimas cenas, inclusive de ação, como a que ocorre na Lua, mas a tensão fica de lado em momentos que soam mais contemplativos do que deveriam. Talvez uma forma encontrada pelo diretor de transformar esta experiência cinematográfica em uma ode ao silêncio dentro da mente e de todos os seus desafios, desejos e anseios. Abafado somente pela narração em off do protagonista, “Ad Astra” é melancólico diante da vastidão do espaço.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Ad Astra: Rumo às Estrelas (2019)

Ad Astra - James Gray

Roy McBride (Brad Pitt) é um engenheiro espacial, portador de um leve grau de autismo, que decide empreender a maior jornada de sua vida: viajar para o espaço, cruzar a galáxia e tentar descobrir o que aconteceu com seu pai, um astronauta que se perdeu há vinte anos atrás no caminho para Netuno.

Roteiro: James Gray, Ethan Gross

Elenco: Brad Pitt, Tommy Lee Jones, Ruth Negga, Donald Sutherland, Kimberly Elise, Loren Dean, Donnie Keshawarz, Sean Blakemore, Bobby Nish, LisaGay Hamilton, John Finn, John Ortiz, Freda Foh Shen, Kayla Adams, Ravi Kapoor, Liv Tyler, Elisa Perry, Daniel Sauli, Kimmy Shields, Kunal Dudheker

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