Cinema com Rapadura

Críticas   sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Predadores Assassinos (2019): a tensão abocanha o espectador

Repleto de homenagens a dois subgêneros do cinema, o de filmes catástrofe e o de animais sanguinolentos, esta experiência pode agradar o mais cético dos espectadores por combinar bem a proposta sem exageros.

Há dois nichos no cinema que parecem gerar verdadeiro fascínio no espectador. O primeiro é o de filmes catástrofe, no qual uma cidade, país ou o planeta inteiro é destruído por um desequilíbrio da natureza. O segundo é a ira de animais que, em tamanho normal ou não, se revoltam contra o homem e vão atrás de sangue. Neste “Predadores Assassinos”, há a junção dos dois subgêneros e, acredite, o resultado é mais interessante do que parece. E aqui a junção do que o cinema explorou em seus primórdios parece ganhar novos ares com o espectador cada vez mais cético.

Haley (Kaya Scodelario) precisa salvar o que sobrou de sua família quando, retornando à casa na qual vive o seu pai, tem de lidar com a fúria da natureza e tudo o que ela representa para o planeta. Tempestades se formam de maneira assustadora e anormal – aliás, estas são palavras que caminharão junto ao espectador durante todo o filme. Além da natureza acima de sua cabeça, a personagem precisa correr contra o tempo, mas é claro que isso não dá certo e ela logo enfrenta a fúria natural que abrange todo o estado da Flórida. 

Em estado de abandono geral, todos os moradores se refugiam em qualquer lugar que não seja dentro da Flórida, mas Haley se sente confiante de que conseguirá salvar seu pai (Barry Pepper). Quando chega à sua casa, ela o encontra no porão, desacordado, ensanguentado, mas vivo. E o que parecia ser uma missão de resgate se torna um potencial suicídio, pois o furacão e a tempestade trazem uma inundação típica da Arca de Noé – a diferença é que os animais, aqui, não são a salvação de ninguém.

É neste momento que o potencial do filme, até então voltado a uma catástrofe natural, se faz presente como verdadeiro ícone do terror. Há crocodilos à solta, os quais parecem insistir em acabar com a vida de Haley, tentando matá-la a todo custo. E isso, acredite, pode levar o espectador a uma sucessão sem fim de pulos em sua poltrona. Tudo porque de uma premissa tão absurda quanto a deste filme surgiu uma direção precisa, que entende o limite de se levar a sério, o que significa muito para uma história como esta.

Aliás, o roteiro de Michael e Shawn Rasmussen compreende a união dois dois subgêneros pretendidos, criando uma atmosfera de constante tensão em situações que poderiam fazer rir, mas que aqui fazem o espectador pular constantemente. Além disso, a direção de Alexandre Aja (“Piranha 3D”) abraça o terror com unhas e dentes, transitando pelas situações criadas pelo roteiro com segurança, unindo bons efeitos visuais ao desespero sempre aparente de Kaya Scodelario.

Contudo, o que chama mais a atenção neste “Predadores Assassinos” é a sua vontade de levar o espectador a uma viagem pelos filmes aos quais ele se propõe. Por isso, enquanto a natureza chama o homem de volta ao início dos tempos, os crocodilos fazem as vezes de vilões sanguinolentos. E a busca por sangue por parte deles gera, além de sustos, inspirados momentos de luta pela sobrevivência, algo muito visto em filmes como “O Dia Depois de Amanhã”, “Inferno na Torre”, “O Destino de Poseidon” e, por que não, “Tubarão”.

Contudo, é justamente a junção de dois subgêneros tão explorados na história do cinema que gera frescor a este filme, cujo propósito ultrapassa a luta pela sobrevivência de maneira coerente à história de Haley, mas que deverá ter, na experiência do espectador, a surpresa revelada e muito bem montada pelo roteiro. Esta é, em suma, uma boa experiência cinematográfica, na qual a tensão, em sua essência, é revelada em tom crescente, acompanhada de boa técnica, roteiro amarrado e o carisma de uma protagonista em ascensão. Tudo o que combina com o apelo popular de uma obra que evita a todo custo se afogar nas mordidas ardilosas dos céticos espectadores dos novos tempos. 

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Predadores Assassinos (2019)

Crawl - Alexandre Aja

Quando a Flórida é vítima de um imenso furacão, os tsnunamis levam todos os habitantes a evacuarem o local. Mesmo assim, a jovem Haley se recusa a sair de casa enquanto não conseguir resgatar o pai, gravemente ferido. Aos poucos, o nível da água começa a subir, Haley também se fere e tanto ela quanto o pai precisam enfrentar inimigos inesperados: gigantescos crocodilos que chegam com as águas.

Roteiro: Michael Rasmussen, Shawn Rasmussen

Elenco: Kaya Scodelario, Barry Pepper, Morfydd Clark, Ross Anderson, José Palma, George Somner, Anson Boon, Ami Metcalf, Tina Pribicević, Srna Vasiljević, Colin McFarlane, Annamaria Serda, Savannah Steyn

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