Cinema com Rapadura

Críticas   domingo, 15 de setembro de 2019

Meu Mundial – Para Vencer Não Basta Jogar (2017): redenção juvenil

Com história de ascensão e queda no futebol como pano de fundo, este belo longa uruguaio se destaca pela vibrante história e competência técnica e narrativa.

Você sabia que 99% dos jovens que aspiram à carreira como jogador de futebol não conseguem chegar ao sucesso profissional? De acordo com esta afirmação, a realidade brasileira se reflete, também, em outros países da América do Sul, como é o caso deste “Meu Mundial – Para Vencer Não Basta Jogar”, representando o Uruguai e seus aspirantes de todos os tempos, amantes da arte e do esporte futebolístico.

A vida de Tito (Facundo Campelo) não é diferente da de milhões de outros jovens de origem pobre, que anseiam pela carreira de jogador como alternativa de suas vidas repletas de dificuldades. Com problemas em seus estudos, ele se torna inigualável quando está de chuteira e com o domínio da bola, mas peca ao não corresponder no restante da vida acadêmica. Desta forma, precisa se dividir entre sua paixão e demais obrigações, enquanto lida também com os conflitos de quem está pisando com o pé direito na adolescência – ele nutre uma paixão, a qual é correspondida por Florência (Candelaria Rienzi), filha do técnico do time adversário.

No entanto, é o pai de Tito, Ruben (Néstor Guzzini), que ganha um grande arco neste filme. Ele é fundamental para o desenvolvimento dos demais personagens. Por isso, quando Tito recebe uma proposta para jogar profissionalmente, mesmo que isso represente o sacrifício de sua educação básica, é o seu pai que passa por grandes questionamentos. Para quem precisava atuar em dois empregos para manter as contas minimamente pagas, ele é quem resiste às tentações de um contrato semimilionário e apartamento confortável, mesmo que isso signifique uma vida mais confortável à esposa e aos outros dois filhos.

A resistência de Ruben, belamente retratada pela excelente interpretação de Néstor Guzzini, é o que direciona o espectador ao restante de seu próprio arco: um pai trabalhador que perde seu lugar como progenitor, mas deixa de lado quaisquer características patriarcais pelo bem de seu filho mais velho. O sacrifício de sua família, sentido o tempo inteiro nos ombros de Ruben, torna sua experiência diante do sucesso precoce de Tito algo ainda mais preocupante. Enquanto isso, Marisa (Véronica Perrotta) desempenha o papel da mãe ponderada que tenta o bem-estar de todos os filhos, mesmo que isso soe impossível.

Tito, em meio às preocupações familiares, consegue se destacar rapidamente no esporte que tanto ama. Porém, para um jovem que ainda não consegue compreender as próprias mudanças hormonais, sua meteórica ascensão é ofuscada pelo pesadelo que sua jornada representa a diversos adolescentes que tentam o sucesso no futebol profissional e não conseguem. Há ascensão e queda em uma edificante história sobre superação e redenção.

O que poderia se tornar uma sucessão sem fim de clichês, se transforma em uma história enraizada na realidade de tantos latino-americanos que tentam mudar suas vidas e de suas famílias também. Por isso, enquanto “Meu Mundial – Para Vencer Não Basta Jogar” apresenta o espectador ao arco de Ruben, sendo este movido pela vida de seu primogênito, o filme também se encarrega de evitar lugares comuns ao focar justamente na figura de um homem melancólico, que carrega o peso do mundo nos ombros e, ainda assim, precisa encontrar as melhores respostas e decisões.

Baseado no livro de Daniel Baldi, sucesso literário no Uruguai, o roteiro de Carlos Andrés Morelli, que também assina a direção, é acertado ao demonstrar o medo de Tito sem, com isso, transformá-lo em uma caricatura juvenil. Assim como tem sucesso com Ruben e a excelência de seu intérprete. Além disso, conta com o canastrão Roney Villela (“Meu Nome Não É Johnny”), o empresário brasileiro que tenta a todo custo lucrar com seu novo pupilo.

Contando ainda com a bela fotografia de Sebastián Gallo, com a qual enquadra os momentos intimistas com o granulado que entoa fraternidade e, também, dá a dinâmica necessária. Fazendo uso de planos-sequência das partidas de futebol, entoando muito bem o talento de Tito, este é o tipo de filme que merece ser apreciado pelo conjunto. Roteiro alinhado ao propósito e à mensagem de redenção e superação, e direção que apresenta a vida de um jovem que precisa resgatar sua inocência, com técnica impecável e narrativa correta.

A história de milhares de jovens está representada neste filme, o qual serve não só como uma ótima experiência cinematográfica, mas sobretudo como mensagem muito bem construída aos sonhadores que nem sempre alcançam seus objetivos. Menos amargo que o colega “Linha de Passe”, este longa se garante com a típica mensagem de que o caminho é mais importante do que o final da empreitada, algo que os jovens precisam aderir ao caráter antes de conhecer o significado do sucesso.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Meu Mundial – Para Vencer Não Basta Jogar (2017)

Mi Mundial - Carlos Andrés Morelli

Roteiro:

Elenco: Facundo Campelo, Verónica Perrotta, Néstor Guzzini, César Troncoso, Roney Villela, Jorge Bolani, Marcel Keoroglian

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