Cinema com Rapadura

Críticas   quarta-feira, 04 de setembro de 2019

Vision (2018): a fé, o otimismo e a humanidade

Em um drama bastante intenso, Juliette Binoche esbanja talento em mais uma protagonista forte e sensível, carregada de nuances e questionamentos acerca de seu passado e possível futuro.

O passado pode ter poderosa influência na vida daqueles que não conseguiram lidar com ele. Seja porque a experiência de vida não proporcionou algo melhor ou porque alguma situação ficou mal resolvida, o ser humano tem o hábito de se apegar às situações que não consegue lidar, como um vírus que não foi curado. Por isso, algumas culturas carregam consigo questionamentos acerca de como curar feridas físicas, sim, mas sobretudo psicológicas. Neste “Vision”, não é diferente.

A vida de Jeanne (Juliette Binoche) é justamente uma equação entre o passado e o presente, cujo equilíbrio é o que ela busca constantemente. Jornalista por profissão e por encontrar, nas palavras, o alento que precisa para se expressar, ela parte em busca de uma jornada para compreender melhor sua personalidade. Quase como um road movie, então, aqui a narrativa é empregada em dois tempos, sendo o segundo fundamental para o desenrolar da história, quando a paisagem faz parte do conto e Jeanne encontra sua principal motivação.

Ao chegar na floresta Nara, no Japão, a jornalista parte em busca de uma erva que, segundo os locais, dizem aflorar somente a cada mil anos. Dotada de extraordinário poder, ela pode curar qualquer angústia, qualquer doença. É como se Deus, como a própria Jeanne conferiu, permitisse que a humanidade se livrasse de seus tormentos passados, o que podem vir em traumas físicos ou psicológicos. Doenças, então, seriam o mote para que a planta curasse e permitisse que a humanidade viva de maneira plena, pelo menos uma vez por milênio.

Como uma boa jornalista, Jeanne é curiosa por natureza e é justamente nela que a protagonista busca uma espécie de silenciosa redenção. Em sua jornada ao Japão, as diferenças culturais e as nuances de alguém cujo misterioso passado está constantemente em seu olhar tornam este drama uma experiência cinematográfica única. A sensibilidade, aliás, caminha lado a lado ao roteiro de Naomi Kawase, que também assina a direção.

Um dos principais adjetivos deste filme é a sua direção. Caminhando com Jeanne e capturando suas expressões, sejam elas micro ou não, a câmera de Kawase consegue imprimir os detalhes que tal personagem precisa para criar identificação junto ao espectador. Por isso, quando a protagonista chega a Nara em busca da planta medicinal quase milagrosa, homônima ao título do filme, fica claro que ela precisa enfrentar algo que ficou em seu passado – mesmo que ele não esteja tão distante quanto o espectador pensa.

Além de tudo isso, a diretora cria uma atmosfera em constante meditação, como se houvesse um quê de etéreo na passagem de Jeanne pelo Japão. De forma concomitante, os depoimentos que a protagonista colhe são tão misteriosos quanto reveladores acerca de sua própria identidade. Ou seria, então, a identidade do ambiente que a transformou? Com questionamentos diversos, “Vision” merece créditos, também, pela fotografia de Arata Dodo, surpreendentemente estreante na função. Pois, em cada enquadramento, o espectador passa a admirar a jornada da protagonista como se, de alguma forma, estivesse ao seu lado, quebrando de forma silenciosa a quarta parede sem obviedades.

Com a técnica impecável e a escrita idem, há um confronto de talentos que merece destaque: é o da diretora com sua Jeanne, Juliette Binoche. A talentosa atriz consegue, mais uma vez, imprimir uma personagem tão forte quanto única e diferente em suas nuances. Com uma carreira invejável, o talento de Binoche não encontra limites em suas escolhas de roteiro, pois a atriz parece compreender que os desafios não precisam lhe render reconhecimento no mainstream, mas sim somando-o à sua extensa lista de elogios. Para deixar claro o que a atriz faz em cena, basta admirá-la quando colhe determinados depoimentos, como é o caso da sensação etérea que parece anuviar, inicialmente, seus sentimentos, como se a seduzisse. Sua química em cena combina perfeitamente ao desempenho de Masatoshi Nagase como Satoshi.

Por isso, “Vision” se destaca como um curioso e profundo drama, que leva o espectador a uma viagem de autoconhecimento, mas, também, a uma experiência cinematográfica única. E faz tudo isso com a sensibilidade de acreditar, por grandes instantes, que o ser humano de fato merece ter o seu passado perdoado, ou perdoar a si mesmo diante das sombras que o passado pode ganhar em formato de doenças. Como somente uma erva medicinal poderia curar.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Vision (2018)

ビジョン - Naomi Kawase

Jeanne, uma jornalista francesa, vai ao Japão em busca de Vision, uma erva medicinal rara que nasce a cada 997 anos em circunstâncias especiais e promete curar toda a angústia e fraqueza espiritual da humanidade. Um evento milenar está prestes a ocorrer nas montanhas Yoshino de Nara, abrindo uma porta para o verdadeiro potencial da existência humana.

Roteiro: Naomi Kawase

Elenco: Juliette Binoche, Masatoshi Nagase, Takanori Iwata, Minami, Mirai Moriyama, Mari Natsuki, Min Tanaka

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