Cinema com Rapadura

Críticas   terça-feira, 20 de agosto de 2019

O Homem que Inventou o Natal (2017): saudosismo natalino

Como o velho cinema faria, este filme leva o espectador ao puro sentido do espírito natalino, algo que ele próprio explica como foi criado pelo escritor Charles Dickens.

Considerado um dos grandes romancistas de todos os tempos, Charles Dickens (Dan Stevens, “A Bela e a Fera”) é o responsável por Oliver Twist, que leva constantemente gerações às lágrimas. Mas, se o seu talento precisa ser provado ainda mais, há uma obra que mudou a maneira de como o ocidente enxerga o final de ano: “A Christmas Carol“, ou “Um Conto de Natal”. É por isso que este “O Homem que Inventou o Natal” é carregado de significados para os fãs de sua mais notável obra.

Aqui, Dickens vive uma fase complicada de sua vida. Após o sucesso de diversos livros, sendo considerado um gênio da literatura em sua terra natal, a Inglaterra, como também nos demais países de tal idioma, ele teve o suposto auge de sua carreira superado. Agora, o autor precisa correr atrás de uma nova história, enquanto as dívidas se acumulam e a visita de seu pai (Jonathan Pryce, “A Esposa”) o leva às cicatrizes de sua infância.

No entanto, para conseguir alcançar novamente o sucesso previamente vivido – e se livrar das dívidas que se acumulam e atrapalham este pai de cinco filhos – o escritor precisa correr contra o tempo. Conseguindo inspiração, ele inicia sua mais nova obra, que precisa estar pronta até as vésperas de Natal, quando ainda seria ilustrada, encapada e comercializada a tempo. Contudo, a inspiração desta vez começa através de um certo personagem, já idoso, bastante ranzinza, de pele cinzenta e cabelos parcos e escorridos por sua pele danificada pelo tempo.

É assim então que o filme leva o espectador, de forma otimista, à mais notável criação de Dickens, quando o escritor precisava encontrar inspiração em sua dificuldade financeira. E junto de sua conflituosa infância, enfrentar os fantasmas do passado, presente e futuro. Em meio à história de seu mais recente e descoberto personagem, Scrooge (Christopher Plummer, “Todo o Dinheiro do Mundo”), Dickens entra em uma viagem a diversos questionamentos, encontrando respostas para a sua própria vida. Como um bom escritor o faria.

Levado às telas por Bharat Nalluri (da série “Spooks”), este é o típico filme que exalta o espírito natalino, o que não poderia ser mais claro, tendo em vista que tal sentimento foi inventado pelo próprio Dickens. O diretor tem sucesso ao conseguir transitar pela vida do escritor e por sua imaginação para a referida obra, que se expandia através dos diversos personagens, quase como uma alucinação. De maneira correta, então, Nalluri transforma esta empreitada em um ótimo exemplo de filme natalino.

Porém, apesar do sucesso em oferecer ao espectador uma história tantas vezes contada, a nova roupagem nem sempre funciona. Isso porque a novidade é meramente ilustrativa, com bons atributos técnicos oferecidos pelo diretor. Já o roteiro de Susan Coyne (da série “Mozart in the Jungle”) se restringe ao quesito burocracia. Dentre toda a possível inventividade de uma história que conta com a base irrepreensível de “Um Conto de Natal”, a roteirista peca ao praticar o politicamente correto de maneira unidimensional. Com isso, as nuances do que o autor passou em sua infância e do caráter de seu pai, por exemplo, são encobertas por tantas palavras ingênuas do roteiro, o que soa ultrapassado. 

Por outro lado, é notável o esforço de Dan Stevens em tornar seu Dickens um homem correto, como manda o script, mas ainda assim com defeitos aparentes. Isso pode ser visto no olhar do ator, bastante expressivo, que permite ao espectador compreender momentos nos quais a paciência, por exemplo, se torna um exercício constante. Já o velho Scrooge de Christopher Plummer é o ápice do que o personagem foi em tantas adaptações, com o talento do ator em jamais deixar a caricatura do personagem tomar conta de seus minutos em tela. Por isso, seus diálogos com o protagonista se tornam o auge do filme.

Correto do ponto de vista técnico, “O Homem que Inventou o Natal” é uma boa pedida para aqueles que sentem falta das sessões de cinema de vinte ou trinta anos atrás. Naquela época, tanto os filmes mais novos quanto os clássicos contavam com um grande toque de espírito natalino, algo que este longa também tem e que deixaria Dickens orgulhoso de sua mais notável obra.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

Compartilhe

O Homem que Inventou o Natal (2017)

The Man Who Invented Christmas - Bharat Nalluri

Antes de criar a grande obra Um Conto de Natal, o autor Charles Dickens (Dan Stevens) estava sem ideias e precisando de um livro genial para sustentar sua família e retomar sua carreira. Misturando inspirações da vida real com uma imaginação incomparável, ele é capaz de criar personagens inesquecíveis que mudaram o natal para sempre.

Roteiro: Susan Coyne

Elenco: Dan Stevens, Christopher Plummer, Jonathan Pryce, Justin Edwards, Morfydd Clark, Donald Sumpter, Miles Jupp, Simon Callow, Miriam Margolyes, Ian McNeice, Bill Paterson, John Henshaw, Annette Badland, Katie McGuinness, Pearse Kearney, Ger Ryan, Marcus Lamb, Cosimo Fusco, Anna Murphy, Ely Solan

Compartilhe