Cinema com Rapadura

Críticas   segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Socorro! Virei Uma Garota (2018): esforçada comédia adolescente

Com um elenco afinado, o que parecia ser um roteiro requentado engaja o espectador em exercício de empatia com boas piadas e sacadas atuais.

A adolescência finalmente está ganhando espaço nas comédias nacionais. Após o cinema brasileiro atingir altos patamares em sua bilheteria com o humor, como é o caso de filmes como “Se Eu Fosse Você”, “De Pernas pro Ar”, “Até que a Sorte os Separe” e “Minha Mãe É Uma Peça”, agora há certa reverência à adolescência e, por consequência, a este público. “Socorro! Virei Uma Garota” é um bom exemplo disso.

A vida de Júlio (Victor Lamoglia, “Gaby Estrella”) não é muito fácil, apesar de sua inteligência acima da média. Como um nerd no ensino médio, sua popularidade na escola é negativa, o que faz com que sua autoestima também seja. Convivendo com seu irmão mais velho, Deco (Kayky Brito, “Desenrola”), e com seu pai (Nelson Freitas, “O Concurso”), Júlio sente falta de sua infância, quando sua falecida mãe (Vanessa Gerbelli, “As Mães de Chico Xavier”) ainda era presente em sua vida e, desta forma, conseguia sentir seu carinho e amor. Hoje, porém, ele tem de lidar com os problemas típicos desta fase da vida contando apenas com Cabeça (Leo Bahia, “Ninguém Entra, Ninguém Sai”), seu único amigo.

Quando Júlio e Cabeça partem em uma viagem a Búzios, porém, a promessa do que seria uma bela viagem se torna um pesadelo. Sobretudo, quando o protagonista é humilhado em uma confusão armada pelo namorado da garota pela qual ele é apaixonado. Deitado na areia, então, ele faz um pedido aos céus, no momento exato em que uma estrela cadente o escuta: “Quero ser a pessoa mais popular da escola”. E agora Júlio se torna Júlia (Thati Lopes, “Porta dos Fundos – Contrato Vitalício”).

Com a direção de Leandro Neri e sua vasta experiência na televisão, este longa-metragem conta com a feliz incursão em uma história sobre viagem no tempo e troca de sexo dentro da realidade da cultura pop nacional. Isso faz diferença quando o espectador está acostumado às comédias adolescentes norte-americanas, as quais serviram de inspiração para este filme. O diretor, porém, se esforça para tornar esta experiência agradável, o que merece crédito para uma história já vista diversas vezes antes.

O roteiro de Paulo Cursino (“O Candidato Honesto”) por sua vez caminha para tornar a direção algo orgânico, o que por vezes acontece. Por isso, apesar de aparentemente contar com um roteiro requentado, há a brasilidade dentro da história e dos personagens, o que faz da experiência um exercício de empatia. Ainda dentro do roteiro, a comédia está constantemente presente, mas a identificação parte do que a agora protagonista precisa enfrentar em sua aventura em um novo corpo. E isso torna os questionamentos atuais, como identidade de gênero, estrutura familiar e necessidade de autoafirmação, recorrentes ao adolescente.

Contando com um esforçado elenco de apoio, como é o caso da paixão de Júlio/Júlia, Melina (Manu Gavassi), e da divertida irmã do Cabeça, Renata (Lua Blanco, “Turbulência”), o filme tem participações especiais divertidas, como Vanessa Gerbelli, Nelson Freitas, Bruno Gissoni (“Até que a Sorte nos Separe 3: A Falência Final”) e Raul Gazolla (“Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola”). E cada um tem o seu tempo em tela para desenvolver seus respectivos personagens e gags.

Aliás, é justamente através das personalidades de cada um que o roteiro se apoia para caracterizar o personagem entre o que é caricato e o que é sutil. Desta forma, são gadgets, como o celular da Melina ou o telescópio do Cabeça, que dão nuances a esses personagens, detalhes que o roteiro consegue imprimir para amenizar certas extravagâncias da comédia. São esses detalhes, então, que valorizam o filme com o seu desenvolvimento, algo que o espectador poderá notar em sua parte final.

“Socorro! Virei Uma Garota” tem um primeiro ato insosso, que parecia culminar em uma desastrosa sequência de piadas infames e mal filmadas. Para surpresa do espectador de plantão, porém, o filme conta com engajamento orgânico, história em tom crescente e boas lições para levar para casa. Se quem o assiste passa pela adolescência, então, terá uma mão cheia de diversão e bons conselhos, algo bem-vindo à comédia no cinema nacional.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Socorro! Virei Uma Garota (2018)

- Leandro Neri

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