Cinema com Rapadura

Críticas   terça-feira, 13 de agosto de 2019

A Árvore dos Frutos Selvagens (2018): reflexão de diferentes gerações

Dirigido e fotografado com maestria, esta é uma reflexão sobre raízes patriarcais e culturais, cujas respostas nem sempre trazem as mais agradáveis sensações.

Como uma sombra que não tarda em refrescar diante do escaldante sol do verão turco, os grossos galhos encobrindo o azul do céu de quem o vê de baixo. A constância de sua aparência, a solidão de seu aspecto. Soma-se a isso a reflexão sobre o conflito de gerações e a importância das raízes familiares e o resultado é este belo e contemplativo “A Árvore dos Frutos Selvagens”.

Sinan (Dogu Demirkol, “Ölümlü Dünya”) acabou de retornar da faculdade, para onde foi tentar adquirir uma educação formal, diante da simples vida que tivera e que agora precisa retomar. Quando chega à sua terra natal, Çan, o jovem almeja lançar seu livro enquanto precisa encontrar um trabalho. Desta forma, o choque inicial o faz refletir sobre as condições de vida que sua família tem, as quais se devem, em parte, à jogatina de seu pai Idris (Murat Cemcir, “Baba Parasi”).

Mais do que simplesmente refletir, o jovem Sinan realiza sua jornada em busca de retomar sua identidade por longas caminhadas por sua cidade, nas quais encontra diferentes conhecidos, os quais logo participam de sua jornada. Com isso, o diretor Nuri Bilge Ceylan (“Era Uma Vez na Anatolia”) destila técnica em sua bela narrativa. Com usuais planos gerais e planos americanos, seus personagens não têm pressa em dizer o que precisam, o que dá ao espectador a sensação de estar, de fato, naquele simples vilarejo.

Contudo, além de proporcionar uma experiência cinematográfica cuja narrativa linear não toma do espectador tempo para analisar a construção de cada cena, do ponto de vista dramático, o diretor consegue incorporar grandes tomadas à sua história. Desta forma, ele conduz a câmera lentamente por cada lugar que Sinan caminha, criando tomadas que transformam a saga do protagonista em um reflexo do que é a atual Turquia. O país, machucado pelas constantes crises, tem boa parte de sua população vivendo de forma rural, enquanto a educação ainda é levada em conta, mesmo diante das dificuldades e necessidades relacionadas ao trabalho.

Sinan, então, precisa aprender a lidar com a forma com a qual seu pai, perdulário, se desvia de diversas responsabilidades diante de sua família. E o patriarcado aqui é colocado à prova em uma reflexão entre o que o personagem vê em seu próprio pai e o que os habitantes vêem em seu país. Por isso, o cerne da história é centrado no relacionamento de pai e filho. Apesar de não ter dinheiro para o que sua família precisa, o pai de Sinan é muito bem visto pelos habitantes locais. Afinal, ele é um professor primário que também trabalha no campo.

Enquanto isso, Sinan também quer realizar o sonho de finalmente lançar seu primeiro livro, homônimo ao nome do filme. E esta trajetória é uma grande reflexão justamente sobre o momento em que o personagem se encontra (reflexo de sua sociedade): um jovem estudado que vê perspectivas intelectuais, mas que precisa, primeiro, aprender o trabalho braçal diante da falta de empregos para alguém como ele. 

Com a composição das cenas muito bem construídas pela fabulosa fotografia de Gökhan Tiryaki (“I Am You”), não é para menos que o filme se torne uma grande experiência cinematográfica. Pois a simbologia está ali, presente em cada análise que o protagonista faz, seja em suas longas caminhadas ou nas demoradas conversas. E, apesar de longo, o filme caminha de forma orgânica à sua proposta, com o sutil senso de humor de ações e diálogos, estes de autoria do novato Akin Aksu, Ebru Ceylan (“3 Macacos”) e do próprio diretor.

Talvez como uma árvore de peras, cujo tamanho pode impressionar quem por ela passa, diante dos aparentemente suculentos frutos, mas para tantos outros, é apenas uma árvore com profundas raízes e que não consegue se relacionar com a paisagem à sua volta. Esta dificuldade pode significar retrocesso para muitos, mas também para tantos outros, é a oportunidade de voltar às origens antes de dar passos largos demais.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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A Árvore dos Frutos Selvagens (2018)

Ahlat Ağacı - Nuri Bilge Ceylan

Sinan é um jovem apaixonado por literatura que sempre sonhou em se tornar um grande escritor. Ao retornar para o vilarejo em que nasceu, ele faz de tudo para conseguir juntar dinheiro e investir na sua primeira publicação. O problema é que seu pai deixou uma dívida que atrapalhará os seus planos.

Roteiro: Nuri Bilge Ceylan, Ebru Ceylan

Elenco: Aydın Doğu Demirkol, Murat Cemcir, Bennu Yıldırımlar, Hazar Ergüçlü, Serkan Keskin, Tamer Levent, Akın Aksu, Ahmet Rıfat Şungar, Kubilay Tunçer, Öner Erkan, Özay Fecht, Kadir Çermik, Ercüment Balakoğlu, Sencar Sağdıç, Asena Keskinci

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