Cinema com Rapadura

Críticas   domingo, 04 de agosto de 2019

Simonal (2018): cinebiografia de qualidade

Ícone da música e do cenário cultural brasileiro no século XX, Simonal teve seu talento reconhecido, mas sua fama e glória foram embora quando ganhou a fama de "dedo-duro" na Ditadura Militar.

Esta é a história de um homem que atingiu o auge do showbiz no Brasil, se tornando uma das maiores personalidades da música no país. No entanto, esta também é a vida de um homem que caiu em descrédito profundo, perdendo sua carreira e assistindo ao fundo do poço, cada vez mais próximo. Sobretudo, esta é a cinebiografia de “Simonal”, cantor, apresentador e pioneiro.

A vida humilde de Wilson Simonal (Fabrício Boliveira, “Tungstênio”) não lhe tirou a vontade de viver. Desde novo, sua paixão pela música fez com que agarrasse as oportunidades que tinha de cantar com seu grupo da forma mais harmônica possível, mas o talento do cantor logo chamou a atenção do irrecusável empresário Carlos Imperial (Leandro Hassum, “Chorar de Rir”). A partir deste encontro, a carreira deste ícone musical decolou.

Além de talentoso, Simonal era dotado de grande carisma, o que chamava a atenção de empresários e emissoras de rádio e televisão. Quando Miele (João Velho, “Ensaio Sobre a Cegueira”) entrou em sua vida, não somente o protagonista conseguiu se destacar como uma verdadeira celebridade, mas também passou a gerenciar sua carreira com muito orgulho. Programas de televisão o tornaram uma lenda viva. Suas músicas repletas de gingado se destoavam da bossa nova e do rock da Jovem Guarda. E a sua voz sobrepujava o racismo inerente à sociedade daquela época.

Nascido em 1938, o cantor teve uma carreira astronômica, permanecendo em seu auge por cerca de quinze anos, quando problemas envolvendo a Ditadura Militar e a fama de “dedo-duro” lhe tomaram toda a fama e glória. Sua suposta amizade com Santana (Caco Ciocler, “João, o Maestro”) e a sua cada vez mais explosiva personalidade contribuíram para isso, sendo, talvez, o que o fez partir tão cedo, aos 62 anos.

Mas esta não é uma história simples. O roteiro de Victor Atherino (“Faroeste Caboclo”) contribui para que a cinebiografia não se perca em demagogia ou acervo excessivamente documental. A persona de Simonal é construída repleta de nuances, as quais ganham a forma e o talento de Fabrício Boliveira. Sua visceralidade na caracterização do protagonista faz com que o espectador mergulhe no carisma magnético de Simonal, acreditando na dublagem em cena justamente pelo talento do ator. O roteiro evita a pieguice normalmente utilizada neste subgênero cinematográfico, introduzindo, inclusive, grandes falhas do retratado.

Para completar, as mãos do roteirista tiveram o acompanhamento dos filhos de Simonal, Max de Castro e Simoninha, ganhando uma vertente raramente utilizada em cinebiografias: a tela é dividida com Tereza (Isis Valverde, “Amor.com”), esposa e grande companheira da vida do cantor, a qual não só o acompanha, mas também ganha espaço em tela permitindo que o espectador compreenda melhor aquela relação e os princípios de ambos. O resultado é o equilíbrio comandado por Leonardo Domingues, em seu primeiro trabalho em um longa de ficção, mas editor experiente em filmes como “Nise: O Coração da Loucura”.

Apesar de haver alguns enquadramentos que confundem o espectador pela iluminação e primeiríssimos planos em demasia, há duas cenas que beiram o brilhantismo. Sobretudo, a qual o espectador acompanha, em um fabuloso plano-sequência, as nuances do personagem-título. Ele canta, caminha, flerta, se diverte, tira sarro e canta de novo, sem perder o gingado e a personalidade que o tornaram ícone.

Das grandes plateias que teve às aquisições materiais, o longa passa pelos questionamentos que o encaminharam ao desastre, levando-o ao exílio dentro de seu próprio país. Além disso, levanta a discussão acerca dos discursos políticos dos anos 60 e 70, os quais parecem tão semelhantes aos vistos em um país dividido como o Brasil do início do século XXI. De maneira sutil, o pano de fundo é um excelente meio para se questionar sobre a diferença entre um discurso anacrônico e um discurso ultrapassado.

Fundamental para o cenário musical e cultural do Brasil no século XX, “Simonal” é um ótimo retrato de alguém que passou pelo mundo querendo mudá-lo com sua arte. Como a montanha-russa que o showbiz é, esta história mostra como uma voz talentosa pode nascer e se calar – e o tortuoso meio do caminho que torna a vida um limão, um limoeiro ou um pé de jacarandá.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Simonal (2018)

Simonal - Leonardo Domingues

Roteiro: Victor Atherino

Elenco: Fabrício Boliveira, Isis Valverde, Leandro Hassum, Bruce Gomlevsky, Caco Ciocler, Mariana Lima, Sílvio Guindane, Jess Laurens, Letícia Isnard, Letícia Isnard, Luciano Quirino, Fabrício Santiago, João Velho, João Guesser, João Guesser, Dani Ornelas

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