Cinema com Rapadura

Críticas   domingo, 07 de julho de 2019

Stranger Things (Netflix, 3ª Temporada): oitentista como nunca [SÉRIE]

A terceira parte é repleta de grandes homenagens a clássicos da cultura nerd, mas o ritmo em muitos momentos se torna aborrecido e requentado.

Sucesso desde a expectativa pela primeira temporada, “Stranger Things” conquistou o público por apresentar grandes momentos entre amigos e aventuras oitentistas com a mistura perfeita entre filmes de John Hughes e as obras de Stephen King. Com o público cativado, a terceira temporada chega para exaltar algumas qualidades e perder o rumo em tantas outras questões.

Criada para a Netflix pelos irmãos Ross e Matt Duffer, conhecidos como The Duffer Brothers (“Hidden – Escondidos), ela retorna com o grupo de amigos que finalmente encontrou as agruras da adolescência. Entre o crescimento de um e de outro, o romance domina boa parte da vida da turma, além de haver os primeiros passos profissionais e frustrações adultas entre os mais velhos. Com o elenco dividido entre núcleos, as aventuras desta temporada tornam, para quem a assiste, a oportunidade de mergulhar ainda mais no universo do entorno de Hawkins e do Mundo Invertido, é claro.

Agora Joyce (Winona Ryder, “Cisne Negro”) precisa batalhar para manter sua loja em funcionamento, pois desde que um shopping center foi inaugurado em Hawkins, a cidade sofre com a perda de lucro dos comerciantes locais. Suas preocupações não estão mais sobre a vida de Will (Noah Schnapp, “Abe”), apesar de o jovem conseguir sentir presenças estranhas através de arrepios em sua nuca e sofrer com a solidão causada pelo namoro de seus melhores amigos. Já o namoro de Lucas (Caleb McLaughlin, da série “Blue Bloods”) e Max (Sadie Sink, “O Castelo de Vidro”) vai firme até que, como quase todo jovem, o menino se mostra menos maduro. Da mesma forma, os praticamente inseparáveis Mike (Finn Wolfhard, “It: A Coisa”) e Eleven (Millie Bobby Brown, “Godzilla II: Rei dos Monstros”) também precisam enfrentar seus respectivos desafios de amadurecimento. Fechando o grupo principal, o galanteador Dustin (Gaten Matarazzo, da série “Lista Negra”) retorna de uma longa viagem, tornando-se automaticamente excluído do grupo.

Contando com referências a clássicos dos anos 80, como “O Exterminador do Futuro” e “De Volta para o Futuro”, dentre tantos outros, esta terceira aventura consegue conquistar o espectador por imprimir, em cada núcleo, aprofundamento de seus respectivos personagens. Nancy (Natalia Dyer, “Toda Arte É Perigosa”) e Jonathan (Charlie Heaton, “Refém do Medo”), por exemplo, se veem em dificuldades para aceitar o lado cru da vida adulta, tendo cada um reagindo diferente diante de seus caminhos. O mesmo para o outrora popular Steve (Joe Keery, “A Grande Jogada”), que agora se vê preso a um emprego por ordem de seu pai. Cada aspecto está mais explorado para o espectador sem deixar que o roteiro perca o ritmo nesta parte do desenvolvimento. Ao contrário, a produção em oito episódios consegue ampliar aspectos técnicos, enriquecendo o cenário oitentista e aproveitando-o junto às nuances dos personagens, como também na excepcional trilha sonora.

Porém, esta terceira temporada de Stranger Things tropeça justamente ao perder o tom de novidade, não conseguindo manter o ritmo prometido ao apresentar um cerne requentado. Enquanto cada núcleo vive diferentes aventuras para, no final, se reunir em uma grande e esperada batalha, o tom arrastado não combina com o aprofundamento de cada personagem, soando como um deselegante contraponto. Se por um lado a excepcional produção alcançou o ápice técnico, por outro os queridos personagens mal conseguiram manter a essência. As subtramas desperdiçaram o tempo em tela com histórias pouco significativas para o arco central, o que torna o conjunto dos capítulos algo arrastado e, em muitos momentos, supérfluo.

Com personagens ganhando espaço em tela, a série consegue certo fôlego, como é o caso da recém-descoberta nerd Erica (Priah Ferguson, “The Oath”), irmã de Lucas, e de Billy (Dacre Montgomery, “Power Rangers”), irmão de Max. Da mesma forma, um dos grandes motivos para isso é a introdução de Robin (Maya Hawke, “Era Uma Vez em… Hollywood”), que não só traz força à série como apresenta uma personagem tridimensional. 

O sucesso de “Stranger Things” é justamente a expectativa criada no entorno de sua estreia. Como o delegado Hopper (David Harbour, “Hellboy”) cuida de sua amada Eleven e de toda a cidade de Hawkins, o espectador cuida de seus personagens com a mesma garra e carinho. Um zelo que pode custar, neste caso, a vida e originalidade de quem tão bem cuidado é.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Stranger Things (Netflix, 3ª Temporada)

- Criadores: Ross Duffer e Matt Duffer

É verão em Hawkins. De férias da escola, Eleven (Millie Bobby Brown), Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo), Lucas (Caleb McLaughlin), Will (Noah Schnapp) e Max (Sadie Sink) aproveitam as novidades do recém inaugurado shopping da cidade, enquanto experienciam situações típicas da adolescência que colocam a prova a amizade do grupo. Mas quando a cidade volta a ser ameaçada por inimigos novos e antigos, eles precisam lembrar que a união é mais forte que o medo.

Roteiro: Matt Duffer, Ross Duffer, Paul Dichter, Kate Trefy

Elenco: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Sadie Sink

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