Cinema com Rapadura

Críticas   terça-feira, 14 de maio de 2019

Kardec (2019): um homem inspirador

A inspiradora história de quem cativou gerações por seu profundo conhecimento levada aos cinemas pelo diretor de “Nosso Lar”.

A história de vida do homem que passou de intelectual cético a um dos mais inspiradores estudiosos religiosos de todos os tempos. Esta é a grande premissa de “Kardec“, cuja vida do outrora Hyppolyte Léon Denizard Rivail (Leonardo Medeiros, “Budapeste”) ainda é desconhecida por grande parte do mundo. Agora chegou o momento do espectador desfrutar de uma cinebiografia recheada de mensagens e aprendizados, exatamente como seu homenageado faria.

Enquanto professor e intelectual da sociedade parisiense da metade do século XIX, Léon era respeitado não só por seu alcance pedagógico, mas, sobretudo, por sua capacidade em solucionar problemas da educação pública de seu país natal. Desta forma, sua incredulidade diante do crescente número de pessoas se tornando adeptas do espiritismo, bastante desacreditado naquela época, o levava a questionar se o charlatanismo era parte de tudo aquilo. Até que se tornou um deles.

Mas as vidas de Léon e de sua esposa Amélie (Sandra Corveloni, “Linha de Passe”) não mudaram quando ele se envolveu com a doutrina espírita. Mudaram quando ele passou a ser considerado um mártir, excomungado em uma sociedade cristã conservadora. Suas novas crenças, cujos estudos de sua parte foram profundos e amplamente disseminados, passaram a interferir até mesmo no dia a dia de sua família. Há uma cena em que suas filhas são chamadas de bruxas e açoitadas no colégio em que estudavam.

Além de apresentar ao mundo a vida deste homem, tão influente e inspirador para gerações de kardecistas, este é o tipo de longa-metragem que, calcado em sua premissa de se apresentar como uma cinebiografia, consegue também alcançar outros valores. A exemplo disso é a forma com a qual Léon, que se tornou Allan Kardec após ter seu nome de origem espiritual descoberto em uma sessão espírita, é tratado por todos aqueles que o respeitavam como intelectual.

Apresentando um visual esmerado na Paris do século IXX, com enfoque na outrora grandiosa Notre-Dame, a essência do protagonista caminha lado a lado com a reconstrução de época, pois, apesar da temática que se apresenta como anacrônica. Com discussões ainda levantadas neste século, esta abordagem de época é reconstituída através de um belo desenho de produção. Por sua vez, o figurino torna tanto a personalidade de Léon Rivail enquadrada dentro dos padrões de sua elite parisiense, como também a cenografia de ambientes fechados, sufocantes, criando um interessante paralelo entre o que o personagem vivia antes e depois de descobrir sua nova verdade; apresentando ao espectador o conceito de dogmas e liberdade religiosa.

Contudo, outro aspecto merece destaque neste longa-metragem. Apesar de conter uma montagem ritmada, que pode cansar um espectador ou outro, o trabalho com a edição de som é memorável. O cuidado com o toque em tecidos e, sobretudo, com a escrita é digno de nota, pois é justamente ao escrever que Léon Rivail se torna o renomado Allan Kardec. Com isso, o personagem passa a se apresentar como uma grande vítima de um arco atemporal, cujo propósito é objetivamente apresentar ao espectador um ponto de vista sobre intolerância, entre outras coisas.

Por isso, o açoite apresentado neste filme não se trata apenas de uma representação do que o protagonista vivenciou, mas, sobretudo, de uma mensagem anacrônica sobre intolerância religiosa. E sobre depressão. E diversos males que a sociedade contemporânea vivencia em pleno século XXI, tornando seus movimentos históricos e sociais apenas cíclicos.

A vida de Allan Kardec, outrora Léon Rivail, foi levada aos cinemas por Wagner de Assis (“Nosso Lar”), cuja carreira e escrita se embasam na doutrina aqui apresentada, desta vez adaptando o livro de Marcel Souto Maior em uma cinebiografia. Apesar de caminhar em um ritmo lento, ela consegue levar ao espectador sua essência e, ainda assim, homenagear a vida de alguém que passou por este mundo de maneira tão inspiradora.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Kardec (2019)

Kardec - Wagner de Assis

A biografia do educador francês Hypolite Leon Denizard Rivail, reconhecido mais tarde como Allan Kardec. Além de tradutor e escritor, Kardec é conhecido por ter codificado o espiritismo, uma das doutrinas mais praticadas no Brasil. Ele escreveu os cinco livros que compõem a Codificação da Doutrina Espírita, entre eles "O Evangelho Segundo o Espiritismo" e "O Livro dos Espíritos".

Roteiro: Wagner de Assis, L.G. Bayão

Elenco: Leonardo Medeiros, Sandra Corveloni, Dalton Vigh, Julia Konrad, Júlia Svacinna, Letícia Braga, Genézio de Barros, Charles Fricks, Guida Vianna, Guilherme Piva

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