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Críticas   quinta-feira, 11 de abril de 2019

O Anjo (2018): assassino angelical

Um retrato cáustico da Argentina dos anos 1970, a vida de um jovem assassino e o talento de um ator novato são destaques neste longa de Luis Ortega.

A biografia de um assassino pode ser algo, no mínimo, tortuoso de se realizar. É difícil encontrar o ponto de equilíbrio no roteiro, pois torná-lo crível sem transformar o protagonista em um monstro é uma tarefa árdua. Em “O Anjo”, o diretor argentino Luis Ortega (“Lulu”) consegue, em boa parte do tempo, tornar seu personagem principal magnético aos olhos do espectador.

A obra trata da vida de Carlos (interpretado pelo novato Lorenzo Ferro), jovem gatuno que passa suas horas explorando propriedades e objetos alheios, mesmo que os devolva intactos. Só que a ambição do menino é maior do que seus atos e seu talento fala mais alto. Atraído por problemas, sua criatividade para tal o leva até Ramón (Chino Darín, “Uma Noite de 12 Anos”), aluno da mesma escola e que também passa por problemas comportamentais. A amizade dos dois, inicialmente pautada em suas respectivas rebeldias, ganha ares mais sérios quando Carlos parte para um assalto a uma loja de armas, acompanhado por Ramón e por seu pai, ladrão profissional, José (Daniel Fanego, “Lobos”). A audácia do protagonista chega a assustar pai e filho, mas logo eles tiram proveito de sua habilidade e o inserem cada vez mais no mundo do crime.

Despretensioso, Carlos cumpre suas missões de forma a arrecadar cada vez mais dinheiro, enquanto nutre uma paixão platônica por seu amigo. Passando por diversas experiências, ele quase se vê sexualmente junto da mãe de Ramón, Ana María (Mercedes Morán, “Um Amor Inesperado”). Ao mesmo tempo, jamais deixa de respeitar a sua mãe, Aurora (Cecilia Roth, “Os Amantes Passageiros”), a quem sempre se dirige com ternura.

A vida deste garoto é retratada linearmente pelo diretor, seguindo seus passos de maneira quase capitular. Por isso, uma vez ou outra é possível encontrar um ritmo menos chamativo, inversamente proporcional ao talento de Lorenzo Ferro em sua estreia em um filme. O jovem ator consegue transparecer as nuances de um adolescente extremamente habilidoso, enquanto transita entre a ambição e a ganância sutilmente, convidando o espectador a compreender suas motivações. O resultado jamais soa artificial.

Nesta jornada pela adolescência de Carlos, o roteiro de Sergio Olguín (da minssérie “La Fragilidad de los Cuerpos”), do iniciante Rodolfo Palacios e do próprio Ortega é uma incursão à vida de alguém que encontrou todas as motivações do mundo para correr atrás do que queria. Porém, a dubiedade de suas ações o transformam em um ser realmente angelical, cujos princípios são monstruosos, mas sua espontaneidade o deixa acima de um mero assassino.

Nos anos 70, quando a vida deste personagem foi descoberta após mais de quarenta assaltos e dez mortes, o choque à sociedade argentina o levou às principais páginas dos jornais. Ficou famoso como o angelical assassino com aparência afeminada. Naquela época, o sensacionalismo já encontrava denotações bastante criativas para vender manchetes.

Além da boa condução de Ortega, este longa-metragem merece aplausos por conseguir manter a narrativa focada exclusivamente nas ações do protagonista. O talento do ator e os absurdos engenhosos que o levaram a tantos atos criminosos, aqui, ganham uma tonalidade divertida, quase inocente, despretensiosamente angelical.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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O Anjo (2018)

El Ángel - Luis Ortega

Roteiro: Sergio Olguín, Rodolfo Palacios, Luis Ortega

Elenco: Lorenzo Ferro, Chino Darín, Mercedes Morán, Daniel Fanego, Luis Gnecco, Peter Lanzani, Cecilia Roth, Malena Villa, William Prociuk, Marcelo D'Andrea

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