Cinema com Rapadura

Críticas   quarta-feira, 10 de abril de 2019

O Gênio e o Louco (2019): o raro poder da empatia

A história de dois homens que batalharam por seus sonhos e ultrapassaram barreiras gigantescas por conta de uma grande amizade.

A Universidade de Oxford é uma das instituições de ensino mais conceituadas do mundo, além de ser a mais antiga. Seu prestígio caminha lado a lado com a qualidade do ensino oferecido, o que a torna, é claro, uma espécie de clube para poucos. Sua fundação data do ano 1096 e hoje, com quase mil anos, continua conceituadíssima. Nada melhor, então, do que conhecer um pouco mais de sua história e a do seu (tão conceituado quanto) dicionário. Para isso, é necessário mergulhar neste O Gênio e o Louco.

O longa conta a história do estudioso James Murray (Mel Gibson, “Plano de Fuga”) a partir do momento em que ele decide empreender na criação de um dicionário até então inédito: o da língua inglesa. Desacreditado pela elite que comanda a Universidade de Oxford, o intelectual ganha aprovação ao comprovar que, sendo autodidata, consegue reunir informações o suficiente para introduzir cada palavra em sua criação. Desta forma, com um pequeno time, James passa boa parte das horas de seu dia negligenciando a convivência familiar, enfiando sua cara em livros e mais livros.

Mas a criação de um dicionário já desacreditado, com o apelo à ajuda da população, parece não caminhar na direção certa até que James recebe uma inesperada ajuda. O Dr. William Chester Minor (Sean Penn, “A Vida Secreta de Walter Mitty”) foi preso ao cometer erroneamente o assassinato de um homem. Perseguido por fantasmas que o assombram desde a guerra pela qual passou, sua prisão não é recebida com surpresa por ele. Mas, após salvar um guarda da prisão, o sofrido médico ganha respeito, além de chamar a atenção do psiquiatra superintendente do local, o Dr. Richard Brayne (Stephen Dillane, “O Destino de Uma Nação”).

Este é um filme levemente autobiográfico, cujas vidas dos dois personagens principais tentam ser exploradas a fim de aproximar o espectador de suas realidades. Desta forma, é visível tal aproximação por conta da interpretação da dupla Mel Gibson e Sean Penn. Enquanto o primeiro constrói um homem de forte sotaque escocês e grande coração, com a resiliência à flor da pele, o segundo mergulha na escuridão de quem sofre com a esquizofrenia, justamente em uma época incauta para isso.

Mas a direção de Farhad Safinia (mais conhecido como produtor da série “Boss”) peca em não oferecer contrapontos à narrativa. É tudo linear: ambos passam por desafios, superações, quedas e retornos triunfais em tempos semelhantes. Isso pode causar a enfadonha sensação de que não é muito o que está acontecendo, apesar de ser justamente o contrário. Por isso, o roteiro a seis mãos de John Boorman (“O Alfaiate do Panamá”), Todd Komarnicki (“Sully: O Herói do Rio Hudson”) e do próprio diretor, precisava de uma lapidação antes de ser, de fato, filmado.

A história de ambos os personagens é fascinante. E a força dos protagonistas serve mais de muleta do que de mérito, relegando atores como Steve Coogan (“Philomena”), Eddie Marsan (“Vice”) e Jennifer Ehle (“Vox Lux: O Preço da Fama”) a papéis aquém do que poderiam com seus respectivos talentos. E Natalie Dormer (da série “Game of Thrones”) tem um arco bastante peculiar, se esforçando para transparecer visceral, mas em alguns momentos seus diálogos beiram o melodramático.

Com o potencial medianamente explorado para um arco tão forte e importante para a história da língua inglesa, é possível se encantar com este “O Gênio e o Louco” por seus pontos positivos, pois as falhas não chegam a incomodar ao extremo. Por isso, caso se interesse pela incrível jornada de dois homens extremamente resilientes, saiba que há um ponto central pelo qual o filme parece ter encontrado verdadeiro encanto: a empatia. Esta é a motivação destes dois, da viúva brutalmente machucada, da esposa negligenciada, do psiquiatra ambicioso, mas de bom coração. A empatia torna tudo emocionalmente convidativo, o que merece ser aplaudido como a grande vantagem desta obra. E é justamente uma característica do ser humano que anda tanto em falta – talvez sempre tenha andado, tendo em vista que a história deste filme tem quase 150 anos.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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O Gênio e o Louco (2019)

The Professor and the Madman - Farhad Safinia

O filme conta a história real de dois homens ambiciosos que tentam concluir um dos maiores projetos do mundo: a criação do Dicionário Oxford. Um deles é o Professor James Murray (Mel Gibson), que tomou a decisão de iniciar o compilado, em 1857, e o outro é Doutor W.C. Minor (Sean Penn), que contribuiu com mais de 10.000 verbetes para o dicionário estando internado em um hospício para criminosos. Os dois têm suas vidas ligadas pela loucura, genialidade e obsessão.

Roteiro: John Boorman, Todd Komarnicki, Farhad Safinia

Elenco: Mel Gibson, Sean Penn, Natalie Dormer, Ioan Gruffudd, Jeremy Irvine, Brendan Patricks, Adam Fergus, Jennifer Ehle, Brian Fortune, Aidan McArdle, David Crowley, Kieran O'Reilly, Bryan Murray, Oengus MacNamara, Christopher Maleki, Sean Duggan, Bryan Quinn, Steve Gunn, Malcolm Freeman, Joe McKinney

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