Cinema com Rapadura

Críticas   quinta-feira, 04 de abril de 2019

Bio – Construindo Uma Vida (2017): uma viagem atemporal

Com um estilo narrativo original e uma montagem excepcional, esta imersão na vida de um homem que viveu 110 anos merece ser conferida e vivida.

A vida de um homem em 110 anos. Esta é a premissa de “Bio – Construindo Uma Vida”, falso documentário que relata a trajetória do protagonista a partir do ano de seu nascimento, em 1959, até seu derradeiro fim, no ainda futurista ano de 2070. De cá para lá, a vida de alguém cujas realizações são dignas de notas. E que notas!

Dirigida pelo veterano Carlos Gerbase (“1983 – O Ano Azul”), esta é uma experiência audiovisual incomum. A composição narrativa é feita como falso documentário, cujas entrevistas são com atores que ao mesmo tempo narram suas respectivas histórias e, em alguns casos, as simulam. Além disso, o acompanhamento do roteiro, que também é do diretor, por um período tão longo é surreal, tornando este longa-metragem uma vivência cinematográfica além das normalmente vistas.

O nascimento do protagonista, um bebê não planejado cuja gravidez surpreendeu os pais interpretados por Carla Cassapo (“Sal de Prata”) e Artur Pinto (“Meu Tio Matou Um Cara”), foi em uma época quando a procriação encontrava barreiras através de dogmas religiosos. Ainda assim, prevaleceu o pecado. Enquanto os pais narravam os porquês do descuido após dois filhos já adolescentes, tementes a Deus, o médico (Roberto Oliveira, “Cão Sem Dono”) contradiz seguindo os preceitos da ciência. Desta forma é construída a narrativa.

A direção cobre acontecimentos primordiais na vida do homem em questão. São 39 atores dispostos em recortes do papel principal, sendo este jamais presente em nenhuma tomada. Enquanto cada grupo narra ao suposto entrevistador uma situação marcante, seja pelo drama ou pela comédia, é possível chegar ao final do longa com a nítida imagem de que o personagem esteve presente em todo o momento. Assim, a linguagem escolhida por Gerbase se torna única: a ausência física do protagonista acaba não fazendo falta, pois a riqueza de detalhes nos depoimentos criam uma persona, cujo resultado pode ser diferente para cada espectador. Ao mesmo tempo, fica nítido que o roteiro foi muito bem lapidado para jamais soar austero.

Há um misto de reconhecimento pelas experiências do homem em questão, mas também é forte a identificação com seus erros – e isso será de acordo com a experiência de cada um. Por isso, partindo de seu nascimento, em 1959, a longa viagem cria um forte paralelo com Encélado, satélite natural de Saturno, objetivo de chegada do protagonista com o passar da vida. E que vida! Desde que se descobre apaixonado por biologia e pela ciência em geral, quando cursava Direito, e percebendo que “A Origem das Espécies” de Charles Darwin narrava muito mais do que as aulas de biologia que tivera em sua época de escola, sua existência mudou. A partir de então, sua jornada em busca da verdade é forte o suficiente para torná-lo um homem constantemente consciencioso, o que lhe causa diversos conflitos, sobretudo amorosos.

Nesta busca pela constante verdade, o protagonista erra e acerta ao longo de seus 110 anos de vida. O passar do tempo lhe proporcionou relacionamentos construídos e destruídos sempre através de sua autodescoberta, em paralelo, é claro, com o ofício de sua paixão. Deste jeito, seu estudo pela vida dos bugios, espécie de primatas, está presente por toda a sua existência. Esta é uma daquelas experiências que agregam. A técnica do filme, em direção impecável, e principalmente pela montagem extremamente bem feita, acompanha a preciosidade de cada recorte em histórias envolventes e humanas. É possível então se identificar por esta obra pelo teor ficcional nela contido ou pelos questionamentos filosóficos – aqui está a subjetividade do título “Bio – Construindo Uma Vida”.

Alguns recortes se tornam mais intensos do que outros, enquanto aqui e ali o humor é escalado de forma descontraída. Quando o Carnaval de 1960 é retratado pela malandragem dos irmãos do protagonista, vividos divertidamente por Mateus Almada (“Beira-Mar”) e Luisa Horta (da série “O Zoo da Zu”), há uma inocência na maternidade latente em toda a composição. A empregada dos vizinhos (Lívia Perrone, “Desconectados”), quem cuidou do bebê enquanto os irmãos curtiam a gandaia, passa a sensibilidade em uma cena de amamentação. E toda a composição merece aplausos pelo resultado: a ingenuidade do bebê, criado em família religiosa, versus a malandragem de dois adolescentes na ausência dos pais.

A consequência da criação se mostra visível com o passar dos anos, tornando o protagonista um homem sexualmente retraído e cujas mudanças se fazem presentes em seus relacionamentos. Com as participações marcantes de Tainá Gallo (da série “Sob Pressão”), Bruno Torres (“Entre Idas e Vindas”), Maria Fernanda Cândido (“Meu Amigo Hindu”), Tainá Müller (“Bingo – O Rei das Manhãs”) e Carlos Cunha Filho (da série “Doce de Mãe”), esta é uma imersão cinematográfica que merece ser não só conferida, mas também vivenciada.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

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Bio – Construindo Uma Vida (2017)

Bio - Carlos Gerbase

O filme é sobre um biólogo que nasce no final dos anos 50 e vive até 2070. Sua biografia é contada por 39 pessoas que compartilharam os momentos mais importantes de sua trajetória como filho, marido, pai e cientista.

Roteiro: Carlos Gerbase

Elenco: Maria Fernanda Cândido, Maitê Proença, Werner Schünemann, Marco Ricca, Tainá Müller, Sheron Menezes, Mateus Almada, Carla Cassapo, Artur Pinto, Roberto Oliveira, Luísa Horta, Lívia Perrone, Nadya Mendes, Milena Dalla Corte, Léo Ferlauto, Branca Messina, Enzo Petry, João Pedro Alves, Júlia Bach, Thainá Gallo

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