Cinema com Rapadura

Críticas   terça-feira, 05 de fevereiro de 2019

No Portal da Eternidade (2018): o gênio com índole duvidosa

Sob a batuta de Julian Schnabel, este é um verdadeiro filme sobre questionamento do que a genialidade pode encobrir por conta do julgamento social. Ou vice-versa.

Uma das figuras mais emblemáticas de sua época, Vincent Van Gogh (Willem Dafoe, “Aquaman”), tornou-se pintor por vocação e extrema necessidade. Apesar de permanentemente estar em nível de pobreza preocupante, não era isso que o tornava ávido por novos quadros. Mas sim a sua ânsia por se provar como pintor, ignorando quaisquer críticas ou lidando com elas de forma nem sempre equilibrada, como fica claro neste No Portal da Eternidade.

Aliás, é a falta de equilíbrio que torna esta obra de Julian Schnabel (“O Escafandro e a Borboleta”) um tanto quanto peculiar, pois a vida deste protagonista é apresentada ao espectador de forma nada ortodoxa. O diretor decidiu, junto do roteirista Jean-Claude Carrière (“Reencarnação”) e da novata Louise Kugelberg, pincelar a vida de Van Gogh de acordo com as suas sensações. Enquanto isso, ele criava obras que, mais tarde, se tornariam referências mundiais.

Enquanto Van Gogh transitava pelo sul da França, em consequência de uma dica preciosa que Paul Gauguin (Oscar Isaac, “Aniquilação”) lhe deu a respeito da luz solar daquela região, ele não encontrava conforto ou alento nos moradores locais. Aliás, a sua personalidade, dócil, costumava dar lugar às fúrias que, enquanto pintor, lhe conferiam genialidade. Mas, enquanto ser humano e, sobretudo, homem, lhe tornavam ameaçador, causando revolta em muita gente.

A ambiguidade do protagonista, levada ao máximo pelo talento de Willen Dafoe, conferem a este “No Portal da Eternidade” a sensação de que o espectador está em transe juntamente com seu protagonista. Benoît Delhomme (“A Teoria de Tudo”) parece ter captado em sua fotografia a granulação e a vista turva do pintor, sob sua unicidade, mas, ainda assim, mezzo perturbada. Com isso, a composição de direção mais fotografia resultam em uma obra tão bela quanto se poderia esperar. Porém, ao invés de provocar encanto, falha justamente por criar uma visão sempre turva, que acaba não agregando à narrativa como a proposta apontava.

Por outro lado, não é somente o trabalho de Dafoe que cria um impactante ponto positivo ao espectador. As participações de Oscar Isaac, Rupert Friend (“A Morte de Stalin”), Mads Mikkelsen (“Polar”), Mathieu Amalric (“O Grande Hotel Budapeste”) e Emmanuelle Seigner (“Lua de Fel”) tornam esta obra o resultado do que poderia ser o diálogo com o gênio de Van Gogh. Pois culmina em diversas personalidades que passaram por sua vida e tornaram sua obra e sua maturidade artística cada vez mais palpável, perto do que ele tinha a oferecer, apesar de tudo.

E a genialidade deste pintor está em todas as etapas pelas quais passou nesta trajetória levada às telas. O olhar sobre a natureza e a convicção de que uma paisagem plana seria, de fato, o portal para a eternidade, creditaram ao gênio um ponto de vista único, copiado em todos os cantos do mundo. Mas, mais do que isso, esta é a obra que questiona não somente o talento de alguém e tudo o que ele pode trazer para a sociedade e cultura, mas também o quanto o ser humano pode criar atrocidades sociais sem se dar conta de que o seu talento ficará suplantado a isso.

E tal questionamento é justamente o mote desta obra. Como seria o mundo se Van Gogh não tivesse existido? A excentricidade de sua existência valeu a pena para quem por ela passou e sofreu? Seria esta a sina de um gênio sem se dar conta de que pela arte ele cometeria diversos crimes? Os diversos questionamentos são colocados em prática em “No Portal da Eternidade”, mas infelizmente dão lugar à indecisão do fotógrafo e do diretor de tornarem a experiência do espectador visualmente subjetiva demais. E as verdadeiras perguntas, pelas quais as respostas valeriam horas de diálogo, como o próprio gênio e protagonista da obra o fariam, se tivesse a oportunidade, acabam encobertas.

Denis Le Senechal Klimiuc
@rapadura

Compartilhe

No Portal da Eternidade (2018)

At Eternity's Gate - Julian Schnabel

Roteiro: Jean-Claude Carrière, Julian Schnabel, Louise Kugelberg

Elenco: Willem Dafoe, Rupert Friend, Oscar Isaac, Mads Mikkelsen, Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Niels Arestrup, Anne Consigny, Amira Casar, Vincent Pérez, Lolita Chammah, Stella Schnabel, Vladimir Consigny, Arthur Jacquin, Solal Forte, Vincent Grass, Clément Paul Lhuaire, Alan Aubert, Laurent Bateau, Frank Molinaro

Compartilhe